Crise no Oriente Médio: Abav e Braztoa orientam setor e analisam impacto em voos e preços
Entidades trazem recomendações; advogado Marcelo Oliveira explica efeitos jurídicos e operacionais

O conflito no Oriente Médio, com a escalada de tensões envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos, entra na terceira semana impactando diretamente o transporte aéreo global, com companhias cancelando voos e revendo rotas na região.
Após novos ataques registrados em Teerã na noite de ontem (16), empresas como a British Airways suspenderam operações para destinos estratégicos como Dubai, afetando um dos principais hubs de conexão do mundo e alterando o fluxo de viagens internacionais – especialmente para a Ásia.
O cenário já traz reflexos para todo o setor de Turismo, impactando consolidadoras, operadoras, agências de viagens e, principalmente, os passageiros, que enfrentam dúvidas sobre remarcações, rotas alternativas e direitos.
Para entender o que fazer neste momento e quais são as orientações do setor, ouvimos, nesta primeira parte, Abav Nacional, Braztoa e o advogado especialista em Turismo, Marcelo Oliveiro. Confira.
Abav Nacional
A Abav Nacional orienta os agentes de viagens a acompanharem permanentemente o cenário internacional, com base em informações oficiais das companhias aéreas e das autoridades diplomáticas. Para a presidente da entidade, Ana Carolina Medeiros, o papel do agente é ainda mais primordial em momentos de instabilidade.
"O papel das agências se torna ainda mais estratégico, porque passam a atuar como uma rede de suporte, acompanhando mudanças em tempo real e apoiando na reorganização de itinerários, remarcações e definição de rotas alternativas seguras".
Segundo ela, a prioridade neste momento é garantir que os passageiros, especialmente aqueles que já estão em deslocamento, consigam ajustar seus planos com segurança e informação qualificada por meio das agências.

Sobre Dubai, um hub aéreo importante e também destino final relevante no cenário internacional, Ana Carolina destaca que a orientação da Abav às agências não é de restrição generalizada, mas de avaliação criteriosa e individualizada de cada caso, sempre priorizando a segurança, o conforto e o acesso à informação atualizada.
"Em momentos de instabilidade, alguns destinos podem deixar de ser escolhas imediatas até que haja maior previsibilidade do cenário, e isso faz parte de um movimento natural do mercado. Caso a situação se prolongue, poderemos observar impactos mais consistentes na demanda, mas, neste momento, o foco segue sendo o suporte ao viajante e a gestão responsável das viagens em curso", explica a presidente da Abav Nacional.
Como fica a demanda e os preços
A Abav Nacional observa que não há uma substituição direta por uma única rota alternativa à Ásia. De acordo com Ana Carolina, há uma reorganização de conexões globais, conduzida pelas próprias companhias aéreas.
Como Dubai e Doha são hubs relevantes, as instabilidades na região impactam as conexões internacionais. Por isso, na prática, há redirecionamentos por outros hubs, principalmente na Europa, além de remarcações e ajustes de itinerário.
"Existem, sim, cancelamentos pontuais, mas não de forma generalizada. Também não há, até o momento, uma migração predominante para rotas via Estados Unidos; o cenário é de diversificação e adaptação caso a caso. Nesse contexto, as agências têm um papel fundamental na construção dessas alternativas, considerando segurança, tempo de viagem e custo para o passageiro", destaca Ana Carolina.
Os movimentos, segundo ela, tendem a elevar naturalmente a ocupação de determinados voos e pressionar preços de forma pontual, especialmente em conexões mais demandadas.
"Mesmo assim, ainda é cedo para afirmar um impacto estrutural ou generalizado nos preços. O que se observa é um ambiente mais volátil, que exige maior planejamento e flexibilidade por parte do viajante. A recomendação da Abav é que o passageiro conte com o suporte de uma agência de viagens, que consegue acompanhar essas mudanças em tempo real e identificar as melhores opções disponíveis, reduzindo riscos operacionais e eventuais custos adicionais", finaliza.
Braztoa
A Braztoa orienta que as operadoras adotem uma postura cautelosa e mantenham o acompanhamento contínuo da situação. No momento, a recomendação é evitar novas reservas para a região até que o cenário se torne mais previsível.
“Os impactos operacionais têm sido significativos, afetando não apenas o Oriente Médio, mas também rotas para o norte da África e, principalmente, para a Ásia, que utilizavam hubs como Catar e Dubai. Na prática, houve a necessidade de remarcar diversos passageiros para outras companhias aéreas, o que tem gerado custos adicionais, além de alterações de datas e até cancelamentos. Isso ocorre, em grande parte, pela limitação de capacidade aérea das alternativas disponíveis, que não conseguem absorver toda a demanda”, explica o presidente da associação, Fabiano Camargo.

Ele destaca que as viagens com datas mais próximas são as mais impactadas, devido à dificuldade de realizar conexões e remarcações aéreas, sobretudo em razão dos altos custos praticados por companhias europeias e norte-americanas.
“Já há registros de cancelamentos, enquanto muitos viajantes optam por remarcações, ainda que com custos elevados. Em relação a possíveis destinos que possam absorver essa demanda como alternativa, ainda é cedo para uma avaliação, já que o cenário segue em constante evolução. Esse contexto tem provocado um aumento expressivo nos custos, incluindo despesas de cancelamento que impactam diretamente os operadores. Ainda assim, é importante considerar que se trata de um cenário pontual, e que esses destinos – Catar e Dubai – devem seguir extremamente relevantes no médio e longo prazo”, completa Camargo.
Comunicado enviado aos associados
Em comunicado enviado aos associados, a Braztoa atualizou o cenário das operações envolvendo o Oriente Médio. Com a retomada gradual de voos por companhias como Emirates e Qatar, passageiros têm conseguido retornar ao Brasil quase diariamente, sem cobrança de taxas para remarcações ou antecipações no curto prazo, embora a alta demanda exija atenção constante à disponibilidade.
Ao mesmo tempo, embarques futuros para a região vêm sendo cancelados diante das incertezas, e a realocação de passageiros em voos que conectam por hubs como Dubai e Doha tem se mostrado cada vez mais complexa, sem condições especiais por parte das aéreas e, em muitos casos, com acréscimo de tarifas. Por outro lado, parte dos fornecedores locais e DMCs tem demonstrado flexibilidade, permitindo remarcações e reembolsos sem multas, especialmente em situações mais imediatas.
A Braztoa também tem orientado seus associados com caminhos e contatos de suporte operacional, além de atualizações sobre o espaço aéreo na região e indicações de canais de imprensa confiáveis, diante da circulação de notícias falsas e conteúdos gerados por inteligência artificial.
Nos últimos dias, diante da insegurança de clientes com viagens previstas para os próximos meses – inclusive para destinos não diretamente envolvidos –, a entidade também distribuiu uma orientação interna, exclusiva aos membros, com diretrizes sobre como conduzir essas situações, considerando aspectos jurídicos, contratuais e de força maior, além da abordagem junto ao cliente.
Marcelo Oliveira, advogado especialista em Turismo
Na avaliação do advogado Marcelo Oliveira, momentos de instabilidade como o atual reforçam uma das principais obrigações legais do setor: a prestação de assistência e informação ao passageiro.
Segundo ele, essas duas frentes são a base de todas as demais responsabilidades de agentes e operadores. “Mesmo em contextos que fogem da normalidade, como conflitos ou crises globais, as agências devem continuar apoiando seus clientes, oferecendo atualizações constantes e alternativas viáveis”, afirma.
O especialista ressalta que, por não serem os prestadores finais dos serviços – como companhias aéreas, hotéis ou armadoras –, os intermediários não têm controle direto sobre os produtos contratados. Ainda assim, exercem um papel fundamental na interlocução com fornecedores. “Cabe às agências representar o cliente, buscar soluções e cobrar posicionamentos sobre valores já pagos e serviços contratados”, explica.

Do ponto de vista operacional, Oliveira destaca que hubs como Dubai e Doha têm papel estratégico nas conexões entre Ocidente e Oriente, o que faz com que eventuais restrições nesses pontos gerem efeitos em cadeia no mercado.
Como alternativa, ele aponta uma tendência de redirecionamento para hubs europeus, como Paris, Amsterdã, Madri e Frankfurt, que passam a absorver parte da demanda. Esse movimento, no entanto, pode pressionar a oferta e impactar os preços.
“O mercado naturalmente infla essas rotas alternativas, o que afeta disponibilidade e tarifas”, observa. Ele também chama atenção para soluções mais complexas, como conexões via Estados Unidos, que envolvem maior burocracia, necessidade de visto e aumento significativo no tempo de viagem, que pode até triplicar em alguns casos.
No campo jurídico, o advogado reforça que cada situação deve ser analisada individualmente, especialmente no que diz respeito a contratos, políticas de reembolso e remarcação, além da aceitação das companhias aéreas em eventuais mudanças de rota.
Apesar dos impactos, Oliveira avalia que o cenário tende a se reorganizar com o tempo. “É preciso ter paciência até que os hubs do Oriente Médio retomem sua normalidade e que o mercado encontre um novo equilíbrio”, diz.
Sobre Dubai como destino final, ele demonstra confiança na recuperação. “É um destino consolidado, com alta demanda e grande capacidade de adaptação. Assim que a situação se estabilizar, deve retomar rapidamente sua força no mercado”, conclui.
* Colaboraram Beatrice Teizen, Beatriz Contelli, Karina Cedeño e Laura Enchioglo