Latam celebra crescimento operacional e reforça posição após reestruturação
Companhia combina controle de custos, foco em rentabilidade e expansão seletiva no pós-pandemia

A Latam vem consolidando uma trajetória de recuperação consistente no período pós-pandemia, em um momento em que o setor aéreo brasileiro ainda convive com desafios financeiros e operacionais.
Primeira companhia do País a recorrer à recuperação judicial em meio à crise provocada pela Covid-19, a empresa deixou o processo nos Estados Unidos (Chapter 11) no fim de 2022 e, desde então, passou a apresentar uma evolução contínua de resultados, com crescimento operacional, melhora da rentabilidade e ganho de participação de mercado.
Ao Estadão, em entrevista recente, a companhia enfatizou que, desde a saída do Chapter 11, registrou aumento superior a 10% no lucro operacional em praticamente todos os trimestres, na comparação anual.
O desempenho também se refletiu no mercado financeiro: as ações da companhia negociadas em Nova York acumularam valorização de 118% em um ano. Analistas de instituições como BTG Pactual e Itaú BBA apontam que a empresa reúne hoje fatores pouco comuns no setor aéreo, como disciplina de custos, demanda aquecida e um ambiente competitivo menos pressionado.
Reestruturação antecipada como diferencial

"Renegociamos praticamente todos os contratos com fornecedores logo no começo da pandemia. Isso nos permitiu estar com custos mais baixos quando a demanda começou a voltar", afirmou. Cadier destaca que esse movimento antecipado colocou a Latam em posição de crescer a partir de 2022, enquanto outras empresas do setor ainda precisavam adotar uma postura mais conservadora.
Crescimento com ocupação e rentabilidade
Outro eixo central da estratégia, segundo o executivo, é o foco na rentabilidade, e não apenas na expansão da oferta. A Latam conseguiu crescer ocupando mais assentos e elevando a receita por passageiro, especialmente por meio do fortalecimento do segmento de clientes de "alto valor".
"Crescemos ocupando mais assentos e com uma rentabilidade melhor, com uma receita maior para cada assento colocado", disse Cadier no mesmo bate-papo. A estratégia envolve investimentos em produtos como a classe premium economy, melhorias no atendimento ao passageiro corporativo e uma presença mais forte em vendas de última hora, que tendem a ter tarifas mais elevadas.
Concorrência e ambiente de mercado
O executivo reconhece que a situação financeira considerada mais frágil de concorrentes como Gol e Azul contribuiu para um ambiente de menor pressão competitiva, mas ressalta que isso não explica sozinho o desempenho da Latam.
"Tem mais a ver com o meu desempenho do que com o desempenho do outro", afirmou. Segundo ele, além de ampliar a capacidade, a companhia conseguiu manter um fator de ocupação superior ao das rivais.
Relatórios do BTG Pactual classificam o momento da empresa como uma "combinação e tanto" para uma companhia aérea. Já o Itaú BBA aponta melhora relevante no perfil de endividamento e estima uma economia anual de cerca de US$ 33 milhões com a reestruturação.
Os analistas também destacam que, enquanto as concorrentes passaram por ajustes, os preços das passagens permaneceram em patamar saudável para a Latam.
Entre os vetores de crescimento, analistas e executivos destacam a decisão da Latam de adquirir jatos E195-E2 da Embraer. Com menor capacidade do que os aviões atualmente usados nos voos domésticos, as novas aeronaves permitirão à companhia operar rotas para cidades do interior que hoje não são viáveis com modelos maiores.
A empresa espera iniciar a operação desses aviões a partir do segundo semestre e já começou a contratar pilotos para a nova frota.
Riscos e perspectivas
Apesar do cenário positivo, Cadier ressaltou ao Estadão que o setor aéreo segue exposto a riscos estruturais, como a volatilidade do dólar e do preço do combustível. Outro ponto de atenção é o impacto de mudanças tributárias, especialmente a reforma tributária, que tende a elevar de forma significativa a carga de impostos sobre passagens aéreas no Brasil.