Aviação precisa de plano de governo, estabilidade e menos impostos para avançar no Brasil
Executivos e especialistas defendem visão de longo prazo para transformar conectividade aérea do País

RIO DE JANEIRO - O potencial da aviação brasileira virou tema de debate na Assembleia Geral da Iata, que está sendo realizada até amanhã (8), no Rio de Janeiro. O País tem dimensão continental, uma das maiores economias do mundo, forte potencial turístico e uma população de mais de 200 milhões de habitantes.
Ainda assim, o transporte aéreo ainda precisa avançar muito em relação a outros mercados na América Latina. A avaliação é de especialistas que participaram do painel "Transformando o Potencial da Aviação Brasileira em Realidade", realizado na tarde deste domingo (7).
A discussão reuniu Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil; Fábio Rogério Carvalho, CEO da Associação Brasileira de Aeroportos (ABR); Jeanine Pires, diretora da Pires Inteligência em Turismo; e Mariana Aldrigui, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP). A moderação foi da jornalista Claire Sebastian, da CNN.
Segundo eles, o Brasil precisa parar de tratar a aviação como um setor isolado e passar a enxergá-la como uma ferramenta estratégica para o desenvolvimento econômico, turístico e social do País.
"O Brasil voa pouco"

Para Cadier, o principal indicador do potencial ainda não explorado está justamente no baixo número de viagens aéreas por habitante. "Não precisamos nos comparar com países europeus. Vamos nos comparar com Chile e Colômbia, países muito próximos de nós, que enfrentam limitações semelhantes, mas onde as pessoas voam muito mais do que no Brasil", afirmou.
"O primeiro passo é mudar a percepção sobre o papel da aviação. Precisamos entender que transporte aéreo é muito mais do que levar uma pessoa de um lugar para outro. Quando desenvolvemos a aviação, desenvolvemos o Turismo, o comércio, integramos o País e criamos empregos. Essa conexão ainda não é plenamente compreendida"
Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil
Segundo ele, o setor acaba gastando uma energia excessiva em discussões de curto prazo, enquanto faltam políticas estruturantes para o longo prazo. "Estamos lutando para evitar aumento de impostos. Quando pensamos no objetivo final, que é fazer mais pessoas voarem, deveríamos estar discutindo justamente como reduzir os custos da aviação e aumentar a eficiência da indústria", disse ele.

Cadier também rebateu a percepção de que as tarifas aéreas são elevadas porque as companhias obtêm lucros elevados. "As pessoas acreditam que a aviação ganha muito dinheiro, mas vimos aqui pela manhã que as margens globais estão entre 2% e 3%. É uma rentabilidade extremamente baixa. Os preços são altos porque os custos são altos", destacou o CEO da Latam Brasil.
"O custo da litigância no Brasil ultrapassa R$ 1 bilhão para as três grandes companhias aéreas. Esse custo praticamente não existia sete ou oito anos atrás e continua crescendo cerca de 30% ao ano. Enquanto isso, a Latam investe US$ 1 bilhão por ano no Brasil. Se não enfrentarmos o problema, as passagens continuarão caras e o mercado continuará restrito a uma parcela pequena da população"
Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil
Cadier também afirmou que o setor enfrenta dificuldades para avançar em pautas de eficiência enquanto o governo busca ampliar a arrecadação. "Estamos lidando com um governo que precisa aumentar receitas para compensar déficits. Isso cria um ambiente em que toda vez que buscamos eficiência encontramos uma pressão por aumento de impostos", disparou Jerome.
Conectividade como política de Estado

Representando os aeroportos brasileiros, Fábio Rogério Carvalho, CEO da ABR, defendeu que a expansão da conectividade aérea seja tratada como um projeto nacional de longo prazo. O executivo destacou ainda que o Brasil continua excessivamente dependente do transporte rodoviário.
"Não pode ser uma agenda de governo. Tem que ser uma agenda de Estado. Não vamos resolver isso em dois ou três anos. Estamos falando de uma visão para os próximos cinco, dez ou quinze anos. Quando ampliamos a conectividade aérea, não estamos apenas desenvolvendo a aviação. Estamos desenvolvendo a economia, o Turismo e a mobilidade do País"
Fábio Rogério Carvalho, CEO da ABR
Segundo Carvalho, os aeroportos têm interesse direto em ampliar a base de passageiros, mais do que em discutir questões pontuais de contratos e concessões. "Para nós é muito mais importante trazer mais pessoas para a aviação do que ficar discutindo reequilíbrios contratuais. Quanto mais brasileiros voarem, melhor será para todo o ecossistema", complementou Fábio.
Falta coordenação e visão de longo prazo

A professora e pesquisadora da USP, Mariana Aldrigui, destacou que o setor ainda enfrenta dificuldades para comunicar seus benefícios à sociedade e aos tomadores de decisão. Ela citou como exemplo a discussão recorrente sobre a cobrança de bagagem despachada.
"Quando houve o desmembramento da passagem, foi a primeira vez que a classe média teve acesso mais amplo ao transporte aéreo no Brasil. Mas bastou alguns parlamentares terem experiências pessoais negativas para o debate voltar ao Congresso. O que falta hoje é uma estrutura capaz de explicar aos legisladores os impactos reais dessas decisões. Muitas vezes temos vozes isoladas falando mais alto do que os dados"
Mariana Aldrigui, pesquisadora da USP
Para Aldrigui, o Brasil necessita de um plano mestre definitivo capaz de integrar Turismo, transporte, desenvolvimento regional e geração de empregos. "Precisamos saber onde queremos chegar. Sem isso, continuamos reiniciando as mesmas conversas a cada troca de governo", frisou ela.
Mercado doméstico segue sendo o grande ativo

Jeanine Pires, por sua vez, chamou atenção para a força do mercado doméstico brasileiro. "O maior ativo que o Brasil possui é o mercado doméstico. Ainda é um mercado pequeno diante do tamanho do País, mas é nele que está a principal oportunidade de crescimento", disse ela.
"Durante muitos anos praticamente todas as chegadas internacionais eram via São Paulo. Agora começamos a ver novos portões de entrada no Nordeste, no Sul e em outras regiões. Isso é melhor para o turista e ajuda a distribuir os benefícios econômicos pelo País"
Jeanine Pires, diretora da Pires Inteligência em Turismo
Jeanine ainda defendeu maior articulação entre iniciativa privada e poder público. "Precisamos apresentar nossos números, mostrar os problemas e participar mais das discussões. Ainda não temos um plano de Estado com metas comuns e visão estratégica de longo prazo. Muitas vezes precisamos reiniciar o diálogo toda vez que há mudança de governo ou de ministro", finalizou a profissional.
A PANROTAS viaja a convite da Iata, voando Latam Airlines.