Booking.com altera política de comissão no Brasil e gera preocupação na Hotelaria
Agência de viagens on-line pega hoteleiros de surpresa ao aumentar seu comissionamento; entidades reagem

A partir de 1º de julho de 2026, a Booking.com implementará uma nova taxa de comissão preferencial de 18% para os hoteleiros brasileiros. O anúncio, comunicado recentemente aos parceiros comerciais, gerou imediata e preocupação para os fornecedores do setor de hospitalidade do País, pois a mudança impacta fortemente as margens operacionais de hotéis, sobretudo os de menor porte, que possuem alta dependência da plataforma desta OTA para a ocupação de seus leitos.
As principais entidades representativas do setor, o Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (Fohb), a Resorts Brasil e a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH Nacional), reagiram de forma conjunta por meio de um manifesto formal enviado à Booking.com. O documento propõe a postergação da medida e a abertura de uma mesa de negociações para reavaliar os novos índices, alertando para os riscos de asfixia financeira dos empreendimentos em um ano já marcado por forte volatilidade econômica e aumento da carga tributária (leia na íntegra ao fim da notícia).
Impacto direto e imediato
Para alguns dos hotéis ouvidos pelo Portal PANROTAS, as taxas de comissão praticadas pela Booking.com historicamente variam entre 10% e 15%, a depender do tipo de acordo comercial e das ferramentas de visibilidade contratadas. A elevação abrupta para 18% compromete o planejamento orçamental de 2026, que já estava fechado e aprovado junto a investidores desde o ano anterior.
O manifesto conjunto assinado por Fohb, Resorts Brasil e ABIH Nacional aponta que o prazo de menos de 60 dias concedido pela Booking.com inviabiliza qualquer provisionamento adequado de custos. Além disso, as entidades destacam que este ano tem se mostrado altamente volátil para o Turismo, com o encarecimento de passagens aéreas devido a conflitos geopolíticos globais e o início da implementação da Reforma Tributária (IVA) no Brasil. Outro fator de pressão destacado pelas entidades é a potencial modificação na jornada de trabalho, que pode elevar em até 20% os custos com folha de pagamento.

Golpe duro na hotelaria independente e de menor porte
Fontes ouvidas pelo Portal PANROTAS também apontam que hoteleiros menores são apontados como as principais vítimas da medida unilateral. Sem margem de manobra ou força de vendas robusta, muitos desses estabelecimentos chegam a concentrar entre 80% e 100% de seu inventário de quartos na Booking.com.
Diante da medida da plataforma, que orienta os parceiros descontentes a solicitarem o encerramento do contrato com aviso prévio de 15 dias, esses pequenos empresários enfrentam um dilema crítico entre aceitar a redução drástica de suas margens ou perder o principal canal de distribuição de suas diárias.
Booking.com enfrenta crise de distribuição na Europa
Nos últimos anos, a Booking.com tem sido alvo de importantes sanções regulatórias e de uma histórica ação coletiva movida por hoteleiros europeus. Em setembro de 2024, a Corte Europeia de Justiça (ECJ) emitiu uma decisão definitiva confirmando que as chamadas "cláusulas de paridade" (que proibiam os hotéis de oferecer diárias mais baratas em seus próprios sites ou em outras plataformas) aplicadas pela Booking.com violavam as leis de concorrência da União Europeia. Essa decisão abriu caminho para uma gigantesca batalha jurídica de reparação de danos.

A Stichting Hotel Claim Alliance, uma fundação holandesa apoiada pela HOTREC (associação europeia de hospitalidade) e por mais de 25 associações nacionais de hotéis, lidera uma ação coletiva que já reúne mais de 10.000 hotéis em toda a Europa. Os hoteleiros buscam recuperar valores que estimam em até 30% ou mais de todas as comissões pagas à Booking.com desde 2004, sob a alegação de que as taxas foram artificialmente inflacionadas pela ausência de livre concorrência. Somente na Alemanha, a estimativa de danos de cerca de 2.000 hotéis participantes chega a 750 milhões de euros, sem considerar os juros.
Também há multa recorde na Espanha, intervenção de preços na Suíça e uma investigação aberta em abril de 2026 na Itália, pela autoridade antitruste local.
Até o momento, pesquisas conduzidas nos canais oficiais de comunicação e nos mercados internacionais indicam que o reajuste de comissão preferencial para 18% programado para julho de 2026 é uma medida focada no mercado brasileiro. Não há registros de reajustes semelhantes de caráter geral sendo implementados simultaneamente em outros mercados globais importantes neste período.
Entenda o caso
- Proposta Booking.com: Elevação imediata para 18% como tarifa preferencial.
- Resposta das Entidades: Calibragem e revisão dos índices para preservar a rentabilidade dos hotéis.
- Vigência: Booking.com propõe 1º de julho de 2026 (menos de 60 dias de aviso prévio).
- Resposta das Entidades: Postergação da vigência para 1º de janeiro de 2027 (próximo ciclo orçamentário).
- Proposta Booking.com: Comunicação com opção de rescisão em 15 dias.
- Proposta das Entidades: Criação de um Fórum de Alinhamento entre diretorias para debate conjunto.
- Proposta das Entidades: Criação de um Fórum de Alinhamento entre diretorias para debate conjunto.
A PANROTAS entrou em contato com a Booking.com e atualizará esta notícia tão logo receba um retorno da OTA. Continue acompanhando esse caso no Portal PANROTAS.
Manifesto Fohb, ABIH Nacional e Resorts Brasil na íntegra
MANIFESTO: PARCERIA E SUSTENTABILIDADE NA HOTELARIA BRASILEIRA
Uma Construção Conjunta entre as Entidades do Setor e a Booking.com
São Paulo, maio de 2026.
A Booking.com sempre foi uma parceira estratégica fundamental para o desenvolvimento e a visibilidade da hotelaria brasileira. Reconhecemos o valor da plataforma em conectar nossos hotéis ao mundo. É exatamente com base nesse histórico de cooperação que o FOHB, a Resorts Brasil e a ABIH Nacional vêm propor um diálogo construtivo sobre o recente anúncio de reajuste nas taxas de comissão para julho de 2026.
Nosso objetivo é compartilhar as realidades do setor para que, juntos, possamos encontrar um ponto de equilíbrio que beneficie ambos os lados.
Os Desafios do Setor para o Ano de 2026
Para que a transição seja saudável, precisamos alinhar a novidade com a dinâmica operacional dos hotéis:
- Orçamentos Já Fechados: A hotelaria trabalha com planejamentos financeiros rígidos, aprovados junto a investidores no ano anterior. Receber uma nova linha de custos no meio do ano corrente (2026), com menos de 60 dias para o início, inviabiliza o provisionamento adequado. O cenário ideal seria planejar essa mudança para o próximo ciclo orçamental;
- Margens e Investidores: Operamos com margens estreitas e dependemos da previsibilidade de custos para garantir o retorno dos investidores que financiam a infraestrutura do turismo no país;
- Cenário de Cautela: O ano de 2026 tem se mostrado volátil para o mercado de viagens, no Brasil e no mundo, com o expressivo aumento do valor das passagens aéreas em virtude dos conflitos geopolíticos o que nos pede um olhar atento e cauteloso sobre o aumento de custos de distribuição neste momento;
- Aumento de carga tributária: O aperto das margens se dá neste ano e também em 2027, em função de decisões governamentais sobre as quais não temos atuar. Reforma Tributária, implementação do IVA, com aumento de alíquotas dos impostos - modificação de escala de trabalho e redução da jornada, sem redução de salários, provocará aumento de 20% do quadro de funcionários.
Proposta de Caminho Conjunto: Uma Relação Ganha-Ganha
Acreditamos que o sucesso da Booking.com caminha lado a lado com a saúde financeira dos hotéis. Por isso, a hotelaria unida propõe uma mesa de conversa amigável para avaliarmos os seguintes pontos:
- Fórum de Alinhamento: Criar um espaço de debate entre as diretorias das entidades e os executivos da Booking.com para desenharmos juntos esse modelo.
- Prorrogação para 2027: Postergar a vigência das novas taxas para 1º de janeiro de 2027, permitindo que os hotéis incluam os novos valores de forma organizada no orçamento do próximo ano.
- Calibragem das Taxas: Revisar os índices propostos de maneira que a plataforma continue investindo em tecnologia, sem pressionar excessivamente a rentabilidade atual dos hotéis.
"Acreditamos na força da nossa parceria de longo prazo. O diálogo aberto e o respeito ao planejamento do setor são os melhores caminhos para que a Booking.com e a hotelaria continuem crescendo juntas."
Certos da sensibilidade e da postura colaborativa da Booking.com, aguardamos uma oportunidade para conversarmos e construirmos essa transição de forma harmoniosa.
Assinam este Manifesto:
• FOHB – Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil
• Resorts Brasil – Associação Brasileira de Resorts
• ABIH Nacional – Associação Brasileira da Indústria de Hotéis