Da Redação   |   19/01/2026 13:55
Atualizada em 19/01/2026 13:56

Colapso da ViagensPromo expõe alerta que o setor de Turismo não pode ignorar

Colapso da ViagensPromo em 2025 expõe vulnerabilidade da indústria do Turismo no Brasil, aponta economista

Marcello Casal Jr / Agência Brasil

O colapso da ViagensPromo no início de 2025 expôs uma vulnerabilidade setor de Turismo no Brasil brasileiro: a falta de transparência sobre estruturas de capital e governança em empresas estratégicas. O episódio deixou um rastro de prejuízos para agentes de viagens, hotéis, companhias aéreas e turistas, evidenciando que, em um setor altamente integrado, falhas de uma única empresa não permanecem isoladas — elas se propagam rapidamente pela cadeia produtiva.

É o que aponta mais um artigo do economista Claudio Gonçalves. Ainda que não tenha citado diretamente o nome da ViagensPromo, o autor cita que a quebra da operadora levanta um debate fundamental: quando fundos de investimento e estruturas complexas de capital assumem papel estratégico no Turismo, a transparência deixa de ser apenas uma questão interna e passa a ser uma questão de estabilidade sistêmica.

Transparência, governança e um alerta que o setor de Turismo não pode ignorar

Divulgação
Claudio Gonçalves
Claudio Gonçalves

Por Cláudio Gonçalves dos Santos*

O Turismo brasileiro atravessou um dos períodos mais desafiadores de sua história recente. Após o choque provocado pela pandemia, o setor iniciou uma recuperação gradual, apoiada por políticas públicas — como o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (PERSE), que resultou em renúncia fiscal acumulada de aproximadamente R$ 15,7 bilhões entre 2020 e março de 2025, segundo dados da Receita Federal —, além de crédito, renegociação de dívidas e, sobretudo, pela resiliência de empresários e profissionais de toda a cadeia produtiva.

Nesse ambiente de reconstrução, grandes grupos empresariais ampliaram sua escala e relevância, assumindo papel central no funcionamento do mercado. Quando uma empresa passa a ocupar posição estratégica em um setor tão interdependente como o Turismo, questões relacionadas à governança, à transparência e à estrutura de capital deixam de ser apenas temas internos e passam a ter implicações sistêmicas.

Governança, FIPs e capital concentrado: um debate necessário

Modelos societários que envolvem fundos de investimento em participações (FIPs) são amplamente utilizados no Brasil e no mundo como instrumentos de expansão, profissionalização e ganho de eficiência. O mercado brasileiro de FIPs mobiliza dezenas de bilhões de reais e exerce influência crescente sobre empresas da economia real, inclusive no setor de Turismo.

No entanto, não existem dados públicos consolidados divulgados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que permitam identificar com precisão quantos FIPs estão alocados especificamente no setor de Turismo, nem o volume global de recursos investidos nesse segmento. As estatísticas públicas da autarquia tratam do universo agregado dos fundos, sem recorte setorial detalhado por atividade econômica.

Essa limitação de transparência estatística não invalida o modelo, mas evidencia uma assimetria relevante de informação. Quando fundos com estruturas concentradas, poucos cotistas e beneficiários finais não amplamente divulgados tornam-se sócios de empresas estratégicas para o Turismo, surge um debate legítimo sobre percepção de risco, governança e impacto sistêmico.

Em setores altamente sensíveis à confiança, como o Turismo, essa discussão ganha relevância adicional. Operadoras, agências, companhias aéreas, hotéis e consumidores estão conectados por fluxos financeiros contínuos, pré-pagamentos e compromissos de longo prazo. A estabilidade de cada elo depende, em grande medida, da previsibilidade e da solidez dos demais.

Lições recentes do sistema financeiro

Eventos recentes no sistema financeiro brasileiro reacenderam o debate sobre transparência e governança. Crises envolvendo instituições financeiras, investigadas por órgãos reguladores e de controle, mostraram como estruturas complexas e pouco visíveis podem amplificar vulnerabilidades, gerar efeitos reputacionais e produzir impactos que extrapolam o setor de origem.

Esses episódios não devem ser interpretados como generalizações ou acusações, mas como alertas institucionais. Eles reforçam a importância de mecanismos de supervisão, divulgação clara de informações e alinhamento entre risco percebido e risco real.

Por que isso importa para o Turismo

O Turismo já experimentou, recentemente, os efeitos concretos da fragilidade de um único elo da cadeia. O colapso de uma grande operadora no início de 2025 gerou prejuízos expressivos para passageiros, agentes de viagens, companhias aéreas e meios de hospedagem, com impactos especialmente severos sobre pequenas e médias empresas.

Esse episódio evidenciou que, em um setor altamente integrado, falhas de governança ou de liquidez não permanecem isoladas. Elas se propagam rapidamente, afetando confiança, crédito e a própria sustentabilidade do mercado.

FIPs como sócios: eficiência com responsabilidade

Fundos de Private Equity e FIPs seguem sendo instrumentos legítimos e importantes para o desenvolvimento empresarial. O ponto central não é sua existência, mas o nível de transparência, governança e comunicação associado a estruturas com grande impacto setorial.

Quando empresas relevantes para o Turismo têm fundos como sócios estratégicos, torna-se razoável que o mercado espere padrões elevados de divulgação, controles internos robustos e clareza sobre estruturas de capital. Isso não apenas reduz riscos, como fortalece a credibilidade do setor como um todo.

Maturidade institucional como vantagem competitiva

O Turismo brasileiro não pode se dar ao luxo de repetir erros. Após a pandemia, um ciclo expressivo de incentivos públicos — materializado em uma renúncia fiscal de quase R$ 16 bilhões — e crises empresariais recentes, o setor tem diante de si a oportunidade de avançar para um novo patamar de maturidade institucional.

Promover transparência e boas práticas de governança não significa estigmatizar empresas, fundos ou gestores. Significa reconhecer que, em um setor baseado em confiança, previsibilidade e cooperação, visibilidade sobre estruturas de capital e processos decisórios é um ativo estratégico.

As lições recentes do mercado são claras: riscos ocultos não desaparecem com o tempo. Para o Turismo, investir em transparência não é custo — é proteção, responsabilidade e sinal de maturidade.

*Cláudio Gonçalves dos Santos é economista, mestre em finanças, professor em cursos de pós-graduação na Universidade Presbiteriana Mackenzie e FECAP. Conselheiro de Administração e sócio da Planning. Diretor do IIE – Instituto de Inteligência Econômica.

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