QAV atinge maior valor da história e amplia pressão sobre tarifas aéreas
No Brasil, o peso do Querosene da Aviação é ainda mais sensível devido à combinação de fatores econômicos

O preço do querosene de aviação (QAV) atingiu o maior patamar da série histórica da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), elevando ainda mais a pressão sobre os custos das companhias aéreas e reacendendo o alerta sobre uma sequência de alta nas tarifas domésticas nos próximos meses.
Dados mais recentes do painel dinâmico da ANP mostram que o valor médio do QAV ultrapassou R$ 6,50 por litro neste mês de maio de 2026, o maior nível desde o início da série histórica, em 2002. Na ponta de comercialização, distribuidoras e aeroportos já operam próximos da faixa de R$ 7 por litro.
O avanço representa uma forte aceleração em relação aos últimos meses. Segundo levantamento do setor, o litro do combustível estava na casa de R$ 3,40 no início de 2026 e praticamente dobrou em poucos meses, alcançando R$ 5,40 em abril e mantendo trajetória de alta em maio.

O impacto financeiro para as companhias é bilionário e instantâneo. O Airbus A380, maior avião comercial do mundo, possui capacidade para aproximadamente 320 mil litros de combustível. Com o QAV na faixa de R$ 7 por litro no Brasil, um abastecimento completo da aeronave pode custar cerca de R$ 2,24 milhões.
O Querosene de Aviação (QAV) é atualmente um dos itens mais relevantes na estrutura de despesas das empresas aéreas, representando até mesmo 50% do custo operacional total de um voo, dependendo da rota, do câmbio e do tipo de aeronave utilizada.
A disparada recente ocorre em meio ao aumento das tensões no Oriente Médio e à volatilidade global do petróleo, cenário que vem pressionando refinarias e distribuidoras em todo o mundo. Neste caso, executivos do setor já vêm alertando que, caso o petróleo continue pressionado e o dólar siga em patamar elevado, o repasse ao consumidor tende a se tornar inevitável.
O gráfico histórico da ANP evidencia o tamanho da disparada atual. Em 2002, o litro do QAV custava menos de R$ 0,40. Ao longo de mais de duas décadas, o combustível sofreu oscilações ligadas a crises econômicas, pandemia e guerras, mas nunca havia alcançado o nível atual. Mesmo durante os períodos mais críticos da pandemia e da crise energética global de 2022, os preços ficaram abaixo dos valores registrados neste ano.
Cenário se agrava no Brasil

No Brasil, o peso do QAV é ainda mais sensível devido à combinação entre dólar valorizado, tributação estadual e dependência da política internacional de petróleo. Como o querosene acompanha as oscilações do barril no mercado externo, qualquer tensão geopolítica rapidamente se reflete no caixa das companhias.
"O Brasil já tem, historicamente, o QAV mais caro do mundo mesmo com a Petrobras produzindo 90% de todo o consumo desse combustível. O custo do QAV para as empresas aéreas brasileiras representava algo em torno de 35% do custo total. Com esse recorde histórico do preço do QAV, facilmente esse percentual chega aos 50%"
Dany de Oliveira, engenheiro industrial, especialista em aviação e ex-Country Manager da Iata no Brasil
Em outras palavras, o setor aéreo brasileiro enfrenta um cenário considerado “gravíssimo”. Somente em maio, o custo extra das companhias aéreas brasileiras com QAV chegou a R$ 1,6 bilhão, valor equivalente ao arrendamento mensal de 830 aeronaves, número superior à atual frota comercial brasileira.
A alta do combustível já começou a impactar diretamente a malha aérea nacional. As empresas reduziram, em média, 93 voos diários neste mês, enquanto para junho a previsão é de corte de 121 voos por dia.
A tarifa aérea real média doméstica, que vinha relativamente estabilizada entre R$ 600 e R$ 900 ao longo de 2025 e início de 2026, já avançou no mês de abril, um movimento que especialistas associam ao aumento do combustível e ao encarecimento operacional.