CEOs de Azul, Gol e Latam são unânimes ao criticar desunião e condução da aviação no País
No LIDE, CEOs criticam carga e reforma tributária, alto custo e desvalorização dos destinos domésticos

Em painel realizado nesta quarta-feira (10) durante o LIDE Turismo, os CEOs das principais companhias aéreas brasileiras, Celso Ferrer (Gol), John Rodgerson (Azul) e Jerome Cadier (Latam Brasil) se mostraram alinhados como em poucas aparições públicas e debateram alguns dos entraves que impedem o Turismo nacional de crescer. O encontro ocorreu no mesmo dia em que as empresas formalizaram o pedido para acessar a linha de crédito de R$ 5,5 bilhões do Fundo Nacional de Aviação Civil (Fnac), o que, eles preveem, pode ser um respiro em meio à forte pressão sobre os custos operacionais.

O tom das apresentações foi de alerta e cobrança por mudanças estruturais e de união entre os concorrentes. Os executivos apontaram a estagnação do número de passageiros, a carga tributária elevada e a necessidade de incentivar o brasileiro a viajar pelo próprio País.
Estagnação e infraestrutura

Celso Ferrer, CEO da Gol, destacou que a aviação tem tentáculos em todo o setor turístico e que a estagnação do número de passageiros, que se mantém entre 95 e 100 milhões anuais ao longo da última década, se reflete diretamente na economia, como na ociosidade de hotéis no Nordeste.
Ferrer apontou que o crescimento do setor depende de três fatores principais: infraestrutura, comportamento do consumidor e incentivos fiscais. "A melhora da aviação nesta década atual se deve à infraestrutura, que evoluiu nos últimos anos. As companhias só estão voando como estão, só colocaram mais rotas, devido a isso, devido à conectividade que os hubs nacionais e regionais permitiu", afirmou, ressaltando que a tarifa média no Brasil, de aproximadamente US$ 40, se mantém, mas o setor agora compete com outras frentes de consumo, como e-commerce e até apostas on-line (bets).
Foco nas viagens domésticas e custo Brasil

John Rodgerson, CEO da Azul, fez seu apelo clássico de praticamente todas suas aparições públicas: para que o brasileiro valorize mais os destinos nacionais e seja um propagador de seu próprio país tanto aqui dentro quanto internacionalmente. "Vamos aproveitar que estamos falando de incentivos aqui no LIDE? É um absurdo que a maior parte dos gastos do MICE [Meetings, Incentives, Conferences and Exhibitions] brasileiro está em Orlando. Sim, as três companhias que estão aqui têm voos para lá, mas por que não fazer viagens de incentivo no Nordete brasileiro? Por que não conhecer as belezas de cada região deste país tão múltiplo?", questionou.
Rodgerson foi duro ao criticar os custos operacionais no País. Segundo ele, o tributo à aviação no Brasil é "a coisa mais burra que pode ser feita", destacando que o País possui o querosene de aviação (QAV) mais caro do mundo, apesar de ter matéria-prima e capacidade de refino. Ele também criticou o alto índice de judicialização no setor: "Temos 3% dos voos mundiais e 98% dos processos judiciais aéreos do mundo. Quem está ganhando com isso são alguns poucos advogados e quem está perdendo é o restante da população, que tem os custos repassados".
O executivo defendeu que o Brasil precisa, e tem capacidade de triplicar o número de viajantes por habitante para se equiparar a países vizinhos como Chile, Colômbia e México.
"Trabalho medíocre" e reforma tributária

Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil, como de característica, não poupou críticas e adotou um tom ainda mais direto, afirmando ser movido "pela dor".
"Se individualmente nós, companhias aéreas, fazemos todos um trabalho bom, coletivamente o Turismo do Brasil faz um trabalho medíocre", disparou. Ele também comparou o desempenho brasileiro com o do Chile, que possui o dobro de passageiros por habitante, e criticou a fragmentação do mercado.
Cadier também expressou forte preocupação com os impactos da reforma tributária. Segundo o executivo, a Latam, que atualmente paga R$ 2 bilhões em impostos, passará a pagar R$ 6 bilhões com a mudança. "A reforma tributária, quando se aplicou a alguns setores, é uma bomba atômica, um desastre para nós", alertou.
Ele cobrou uma visão de longo prazo para o setor, lembrando que o Brasil teve 20 ministros do Turismo em 20 anos, o que inviabiliza políticas consistentes. "Uma aeronave para operar no Brasil custa de US$ 40 milhões a US$ 200 milhões e só vai se rentabilizar em longo prazo, em sete anos. É impossível evoluir na aviação olhando em curto prazo", concluiu.
Fundo Nacional de Aviação Civil (Fnac)
O debate ganha relevância diante do cenário econômico desafiador enfrentado pelas companhias. Como noticiado mais cedo pelo Portal PANROTAS, Azul, Gol e Latam, junto com a Abaeté Linhas Aéreas, formalizaram o pedido para acessar o crédito do Fnac, operado pelo BNDES.
Os recursos, que chegam a R$ 1,8 bilhão por empresa com mais de 5% de participação de mercado, poderão ser usados para capital de giro, manutenção de aeronaves e aquisição de combustível sustentável (SAF). Em contrapartida, as aéreas terão que ampliar a malha no Norte e Nordeste em 15%.