Iata: impostos e gargalos impedem Brasil de liderar aviação comercial na América Latina
País tem potencial para liderar conectividade na América Latina, mas esbarra em altos custos operacionais

RIO DE JANEIRO – O Brasil tem o maior mercado doméstico da América Latina, movimenta mais de 100 milhões de passageiros por ano e reúne condições únicas para impulsionar o Turismo e a conectividade regional. Mas tudo isso "vai por água abaixo" justamente pelo País não aproveitar todo este potencial.
A avaliação é quase uma lamentação e foi feita pelo vice-presidente regional da entidade para as Américas, Peter Cerda, durante entrevista coletiva realizada neste sábado (6), primeiro dia da 82ª Assembleia Geral Anual da Iata (AGM), que volta ao Rio de Janeiro após 26 anos.
Ao apresentar um panorama da aviação latino-americana, Cerda destacou que a região como um todo possui grandes ativos para crescer, mas continua limitada por fatores como alta carga tributária, ambiente regulatório complexo, infraestrutura insuficiente e políticas públicas consideradas contraproducentes.
"Aviação não é um luxo. É um serviço essencial que conecta pessoas, impulsiona o comércio e cria oportunidades. Em países continentais como o Brasil, ela é indispensável para o desenvolvimento econômico e social. O setor sustenta atualmente cerca de 8,3 milhões de empregos na América Latina e Caribe e gera aproximadamente US$ 240 bilhões para o PIB regional"
Peter Cerda, vice-presidente regional da Iata para Américas
Brasil lidera mercado doméstico, mas perde força na conectividade

Peter fez uma comparação entre Brasil e México, os dois maiores mercados da região. Enquanto o México recebeu 47,8 milhões de visitantes internacionais em 2025, o Brasil recebeu apenas 9,3 milhões. Por outro lado, o mercado doméstico brasileiro ultrapassou a marca de 100 milhões de passageiros, contra pouco mais de 63 milhões no mercado interno mexicano.
Para a Iata, o contraste mostra tanto a força quanto o potencial ainda não explorado do Turismo brasileiro. "O Turismo continua sendo uma oportunidade enorme para a região. Muitos governos falam sobre o setor como motor econômico, mas é preciso criar condições para que ele cresça", disse Cerda.
Outro dado apresentado pela entidade revelou que o Brasil ainda não recuperou totalmente os níveis pré-pandemia. Entre 2019 e 2025, o número de rotas operadas no País caiu de 859 para 774, retração de 9,9%, enquanto as frequências diminuíram 4,5%. O aumento veio apenas na oferta de assentos, que passou de 139,7 milhões para 145,3 milhões, alta de 4%.
"Políticas públicas e condições de mercado fazem diferença. Neste caso, alguns países estão crescendo mais rapidamente porque criaram ambientes mais favoráveis ao investimento e à expansão da conectividade", afirmou Cerda, citando Colômbia e República Dominicana nesta recuperação.

Por fim, Cerda frisou que o Brasil reúne todos os elementos para se consolidar como uma potência global da aviação e do Turismo, mas isso exigirá coordenação entre governo e iniciativa privada. Na visão da Iata, o País precisa evitar aumentos tributários, reduzir a insegurança jurídica, ampliar investimentos em infraestrutura e criar um ambiente regulatório mais previsível para atrair novas rotas e companhias aéreas.
"O potencial brasileiro existe. O desafio é remover barreiras que ainda impedem a aviação de cumprir plenamente seu papel como motor do desenvolvimento econômico e do Turismo"
Peter Cerda, vice-presidente regional da Iata para Américas
América Latina já lidera em custos operacionais

A preocupação é ainda maior porque a América Latina já aparece como a região mais onerada do mundo em tributos e taxas cobrados dos passageiros. Segundo dados da Iata, impostos e encargos representam, em média, 29% do valor de uma passagem aérea na América Latina e Caribe.
O percentual supera, por exemplo, as regiões de Europa (25%), África (17%), Ásia-Pacífico (17%), Oriente Médio (15%) e América do Norte (15%). Além disso, a América Latina ainda lidera o ranking mundial de tributos e taxas cobrados por passageiro, com média de US$ 44 por bilhete.
"Quando você aumenta os custos, reduz a demanda. E quando reduz a demanda, há menos voos, menos conectividade e menos oportunidades econômicas. Não estamos pedindo tratamento especial. Estamos tentando evitar políticas que tornem as viagens ainda mais caras para os consumidores", finalizou Peter Cerda, vice-presidente regional da Iata para Américas.
Infraestrutura e planejamento de longo prazo

Cerda também chamou atenção para a necessidade de ampliar investimentos em infraestrutura aeroportuária. Segundo ele, mais da metade dos voos da região opera em aeroportos congestionados, incluindo aeroportos brasileiros como Congonhas, Santos Dumont, Guarulhos, Salvador e Recife.
"Precisamos planejar os próximos 30 ou 40 anos na questão infraestrutural. Em muitos casos, os terminais são inaugurados e rapidamente já operam próximos da capacidade máxima. É por isso que a Iata defende uma adesão ainda maior aos padrões globais de gestão de slots e planejamento aeroportuário, utilizando modelos já consolidados em mercados como Singapura, Hong Kong e Dubai"
Peter Cerda, vice-presidente regional da Iata para Américas
A PANROTAS viaja a convite da Iata, voando Latam Airlines.