"Turismo do Brasil faz trabalho medíocre", dispara CEO da Latam, Jerome Cadier
No painel no LIDE, Cadier alerta para riscos da reforma tributária na aviação e mostra esperança no Fnac

O CEO da Latam Brasil, Jerome Cadier, foi o dono do discurso mais contundente do seminário LIDE Turismo, realizado nesta quarta-feira (10), na Faria Lima. Sem meias palavras, o mandatário da companhia aérea líder em passageiros no Brasil classificou o desempenho coletivo do Turismo brasileiro como "medíocre" e cobrou um plano de longo prazo para o setor, alertando que a reforma tributária pode triplicar a carga de impostos da companhia.
"Se individualmente nós, companhias aéreas, além das empresas de outros segmentos do setor, fazemos um trabalho bom, coletivamente o Turismo do Brasil faz um trabalho medíocre. Temos de reconhecer isso", apontou Cadier a uma plateia composta por tomadores de decisão da indústria. Uma de suas comparações foi com o Turismo do Chile, que tem o dobro de passageiros aéreos por habitante em comparação com o Brasil.
Sem plano, sem crescimento
Jerome Cadier, como de hábito em seus discursos públicos, foi enfático ao afirmar que o setor não precisa de "esmola", mas de previsibilidade. "Não vou nem falar de viagens de incentivo público, pois fica a impressão de que estamos pedindo dinheiro. O que precisamos é de um plano de longo prazo. E simplesmente não existe plano de longo prazo no Turismo do Brasil", afirmou Cadier.

Em um cálculo rápido, ele pondera que uma aeronave custa entre US$ 40 milhões e US$ 200 milhões para operar no Brasil e só vai ter o retorno sobre o investimento em cerca de sete anos. "Ou seja, é impossível evoluir na aviação e no Turismo olhando em curto prazo. Em 20 anos, o Brasil teve 20 ministros do Turismo. Desta forma, que ministro consegue pensar em longo prazo se cada um que entra refaz tudo?"
Reforma tributária é bomba atômica para aviação, diz CEO da Latam
Outro ponto duro e preocupante da fala de Cadier foi sobre a reforma tributária. Segundo ele, a Latam paga hoje R$ 2 bilhões em impostos por ano. Com a nova legislação, esse valor saltará para R$ 6 bilhões, e quem absorverá este impacto é o passageiro.
"A reforma tributária é necessária para o País e para outros setores, mas para a aviação, da maneira que está posta, é uma bomba atômica, um desastre. E vale dizer que não é a companhia, não é a Latam que vai pagar por isso. A Latam só repassa os custos, é o cliente que voa com a Latam que vai pagar a conta", afirmou. "Não estamos pedindo redução de impostos. Estamos pedindo que não aumentem a carga como ela é hoje."
Presente na plateia, o fundador e presidente da Copastur, Edmar Bull, questionou como as companhias aéreas estão trabalhando para minimizar o impacto da reforma sobre clientes e empresas. Jerome Cadier reforçou que falta um trabalho integrado do setor e que o convencimento político tem sido difícil. "Tem sido muito difícil o trabalho de convencimento de que essa reforma vai impactar diretamente no bilhete aéreo", disse.
O CEO da Latam detalhou que, nos voos internacionais, a tributação atual é praticamente zero, mas passará a cerca de 13% com a nova regra, colocando o Brasil em desacordo com toda a regulamentação internacional.
"O Brasil vai se tornar um pária mundial nesse sentido. E, em relação aos voos domésticos, a alíquota cheia será aplicada com um redutor por cotas regionais, mas mesmo assim a carga sobe significativamente. Hoje pagamos 9%. Veja, reforço que não estamos discutindo redução de imposto, e sim manutenção. Essa carga será três vezes o que arrecadamos hoje. Confesso que não estou otimista com o desfecho das negociações."
Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil
Esperança com o Fnac, mas com ressalvas
Questionado sobre o pedido de crédito do Fnac, formalizado nesta mesma quarta-feira junto ao Ministério de Portos e Aeroportos, Cadier reconheceu a importância do fundo, mas lembrou que ele nunca foi efetivamente utilizado para o desenvolvimento da aviação desde sua criação.
"O que estamos discutindo há quase dois anos é que esse fundo seja utilizado para ajudar em períodos de crise. Não foi possível durante a pandemia, mas agora, nessa crise do combustível, a utilização do Fnac para ajudar o financiamento das companhias é uma muito boa ideia"
Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil
A linha de crédito de R$ 5,5 bilhões, operada pelo BNDES, permite que empresas com mais de 5% de participação no mercado doméstico contratem até R$ 1,8 bilhão cada. Como contrapartida, as aéreas deverão ampliar em 15% a malha no Norte e Nordeste.
Desafio insistente com combustível
Cadier também detalhou o impacto do querosene de aviação nos custos da operação. Ele conta que o preço do barril saltou de US$ 90 para US$ 180. "A Latam continua crescendo na comparação com o ano passado, mas crescendo um pouco menos, repensando frequências. Ainda não tiramos nenhuma rota, mas os preços vêm subindo para compensar parte desse efeito combustível", explicou.
O tom geral do executivo foi de convocação ao mercado. "Sou movido pela dor. A dor de ver países inferiores a nós, com hospitalidade muito abaixo da nossa, e que estão muito melhores em turismo. O convite aqui é para encontrar solução."