Brasil voa menos que países de renda semelhante, aponta estudo; entenda
Pesquisa compara oferta aérea e propõe superar uma viagem por habitante até 2030

O Brasil apresenta a menor frequência de viagens aéreas por habitante entre os países selecionados no estudo Voa Brasil 2030, elaborado a partir de uma comparação internacional do mercado aéreo. Enquanto o País registra 0,56 viagem aérea por habitante ao ano, o índice chega a 0,91 no México, 1,07 na Colômbia e 1,53 no Chile. Em mercados como Estados Unidos e Espanha, a relação alcança pelo menos 2,89 e 5,32 viagens, respectivamente.
A comparação faz parte do whitepaper "Voa Brasil 2030 - Uma Agenda para Multiplicar o Mercado Aéreo Brasileiro" e foi repercutida por Kleber Meira, diretor-executivo do Aeroporto de Congonhas da Aena Brasil, em uma série de publicações nas redes sociais. No último post da sequência, publicado como um "manifesto final", Meira afirma que renda, geografia e câmbio ajudam a explicar o tamanho de um mercado, mas não seriam suficientes para justificar a diferença observada entre o Brasil e outros países.
A análise usa como referência países com características bastante distintas em população, território e PIB (Produto Interno Bruto). O Brasil, por exemplo, aparece com população de 212 milhões, área de 8,5 milhões de quilômetros quadrados e PIB de US$ 2,17 trilhões. Mesmo sendo um dos maiores mercados da amostra, registra apenas 1,4 operador aéreo relevante por 100 milhões de habitantes, o menor índice entre os países comparados.
Oferta e competição
É justamente nessa diferença entre tamanho potencial e oferta que o estudo concentra parte da discussão. O benchmark mostra que o México tem 4,6 operadores relevantes por 100 milhões de habitantes; a Colômbia, 7,5; o Chile, 20; o Canadá, 14,6; e a Austrália, 25,9.
O estudo relaciona a maior presença de operadores a mercados nos quais diferentes empresas e modelos de negócio disputam passageiros e desenvolvem novas rotas. No caso brasileiro, o mercado doméstico é apresentado com três principais companhias: Gol, Latam e Azul. Já o quadro mexicano reúne Aeroméxico, Volaris, Viva e Mexicana; o chileno, Latam, SKY e JetSmart; e o espanhol, entre outras, Iberia, Vueling, Ryanair, Air Europa, Binter e easyJet.

Para Meira, portanto, a questão não seria apenas redistribuir entre as empresas existentes os passageiros que já utilizam o transporte aéreo, mas criar condições para incorporar novos consumidores. "A maior oportunidade da aviação brasileira não está apenas em disputar quem transporta os passageiros de hoje", escreveu em uma das publicações da série. "Está em criar as condições para que milhões de novos brasileiros possam começar a voar", completou.
A publicação anterior à conclusão do estudo já havia colocado essa questão: renda, população, geografia e Turismo explicam parte do tamanho de um mercado, mas condições de competição, custos, liberdade comercial, infraestrutura, conectividade e segurança jurídica também influenciam o acesso ao transporte aéreo.
Quatro frentes para ampliar o mercado
No manifesto final, Meira resume em quatro frentes as condições que, segundo o estudo, poderiam favorecer a expansão do mercado brasileiro:
- Competição e previsibilidade: abertura de mercado, entrada de novos operadores, diversidade de modelos de negócio e segurança jurídica;
- Equação econômica: redução de custos estruturais, QAV competitivo e maior eficiência operacional;
- Capacidade e conectividade: expansão da aviação regional, conexão entre cidades, infraestrutura e evolução do espaço aéreo;
- Governança e execução: coordenação entre governo federal, Ministério de Portos e Aeroportos, Anac, Decea, companhias aéreas, aeroportos e setor privado.
A questão dos custos aparece em outros capítulos da série. Em publicação anterior, Meira apontou o combustível de aviação (QAV) como um dos principais componentes dos custos operacionais e defendeu que a discussão sobre sua estrutura de preços seja considerada dentro de uma agenda mais ampla de competitividade.

Meta é passar de uma viagem por habitante
A partir desse diagnóstico, o Voa Brasil 2030 propõe como ambição superar uma viagem aérea por habitante por ano e chegar a 140 milhões a 150 milhões de passageiros domésticos até 2030, além de ampliar a conectividade, a competição e a diversidade de modelos de negócio.
Meira ressalta, porém, que os números não são apresentados como uma previsão de mercado, mas como metas propostas para orientar a discussão sobre o futuro da aviação brasileira.
A diferença entre o indicador brasileiro e os demais benchmarks ajuda a dimensionar o espaço apontado pelo estudo. Para chegar a uma viagem por habitante, o Brasil teria de praticamente dobrar o índice atual de 0,56. No Chile, país com apenas 20 milhões de habitantes na amostra, a relação já chega a 1,53; na Colômbia, com 53 milhões, a 1,07.
O estudo, assim, desloca o debate sobre crescimento da aviação de uma discussão exclusivamente sobre demanda para outra sobre como transformar demanda potencial em demanda efetiva. Na avaliação apresentada por Meira, o desafio não é apenas encontrar passageiros para a oferta existente, mas construir as condições para que mais pessoas passem a utilizar o transporte aéreo.