Artur Luiz Andrade   |   24/01/2026 18:40
Atualizada em 24/01/2026 18:58

Constantino de Oliveira Jr. Inaugurou a aviação moderna brasileira

Fundador da Gol faleceu nesse 24 de janeiro, aos 57 anos

PANROTAS / Emerson Souza
Constantino de Oliveira Jr.
Constantino de Oliveira Jr.

Constantino de Oliveira Jr., que nos deixou neste final de semana, depois de longa luta contra o câncer, foi o fundador da era moderna da aviação brasileira, a que o século 21 pedia. O nascimento da Gol, em janeiro de 2001, contribuiu para novos ares na aviação do País, que viria a ser desregulamentada e gerida pela esfera civil, e que precisava de uma nova postura de seus players – muitos acostumados ao abraço paternalista e regulador do governo.

Empresário ousado, que amava as pistas de corrida de carro, Júnior apostou em um novo modelo, e sua postura cordial, elegante e educada cativou logo de cara os colaboradores, parceiros e amigos da Aviação e Turismo.

A Gol chegou com gás, inspirada na JetBlue de David Neeleman: low cost, low fare, sem papel, com serviço de bordo enxuto, frota padronizada e fidelizada na Boeing, e, já que o nome era disrupção, focada na venda direta – afinal, a internet era a grande oportunidade no começo do novo milênio. Foi um sopro de inovação em um setor pesado e careta, com resistência a mudanças. E que foi duramente impactado também pela falta de estratégia dos governos – que não enxergavam na aviação um setor...estratégico.

Muita coisa deu certo no novo modelo trazido pela Gol, outras tiveram de ser ajustadas, como o afastamento inicial dos distribuidores do trade. Constantino Jr. e seu time imaginaram que conseguiriam, com tecnologia e novos processos, vender sem intermediação, mas logo perceberam que o melhor era ter esses distribuidores a seu lado. E isso foi feito, iniciando uma parceria de mais de duas décadas com consolidadores, agentes de viagens, operadores, OTAs... A correção de rumo foi rápida e sem orgulho ferido – esse era o jeito de Júnior à frente da Gol. Ágil, correto, sempre buscando a direção certa e com diálogo.

Em 2003, quando José Guillermo C. Alcorta cria o Fórum PANROTAS, foi Constantino Júnior um dos mentores e conselheiros do evento, que a Gol patrocina desde a primeira edição, apostando na ideia e na sinergia com a indústria. Júnior viu que a união do setor era sua força e a Gol era parte de um novo Turismo. Uma nova aviação. Desde então, os CEOs das empresas aéreas nacionais se reúnem no palco do Fórum PANROTAS para debater, conversar, aprender, mostrar ao trade para onde estamos indo.

Arquivo PANROTAS
Constantino Jr. no primeiro Fórum PANROTAS, no Grand Hyatt São Paulo, em 2003
Constantino Jr. no primeiro Fórum PANROTAS, no Grand Hyatt São Paulo, em 2003

E a cada ano, nós da PANROTAS íamos até a sede da Gol no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, para um bate-papo com Júnior, sempre o pontapé inicial de inspiração para o Fórum que se aproximava. Foi o fundador da Gol que nos indicou e apresentou a David Neeleman, que, então CEO da JetBlue, esteve no Fórum PANROTAS, em 2005, pela primeira vez. Em 2008, Neeleman criaria a Azul Linhas Aéreas e virou concorrente da Gol de Júnior.

De 2001, e o ano de fundação da Gol coincidiu com uma das maiores crises globais, causada pelo 11 de setembro, a 2007, a Gol cresceu aos poucos e se consolidou como uma força importante no mercado doméstico. Em 2007, a novata compra a que havia sido a embaixadora do País no mundo. A Gol compra a Varig e muda seu curso. E o da aviação brasileira uma vez mais.

A low cost, low fare flerta com o modelo de legacy carrier, chega a assumir as rotas internacionais da Varig, mas corrige o rumo e volta a seu modelo. Custos controlados sem a inconstância dos voos de longa distância ao Exterior e tarifas não tão mais baixas, já que o tamanho da malha dava outra robustez à empresa.

Constantino Júnior passa a presidir o Conselho Administrativo em 2012 e deu importante passo para uma geração de grandes executivos na aviação brasileira, tendo sido sucedido por Paulo Kakinoff e Celso Ferrer. Nas empresas congêneres, também novos nomes surgiram e a aviação brasileira, entre um engasgo e outro, seguiu mais forte e profissional. Nenhuma outra iniciativa de uma nova empresa deu certo depois de Gol e Azul e hoje apenas três companhias voam dentro do Brasil: além das duas, a Latam.

Enquanto a concorrente Latam enfrentou uma fusão com a chilena Lan e depois fez aliança com a então parceira internacional da Gol, a Delta, Constantino não ficou para trás e foi um dos fundadores do Grupo Abra, ao qual a Gol hoje faz parte, além de ter investido em outras parcerias internacionais, como Air France-KLM e American Airlines. Assim como a Latam enxergou a necessidade do fortalecimento regional e internacional, Júnior também fez suas apostas, e o Grupo Abra ainda tem muito a revelar à frente. Há grande expectativa em relação a novas rotas internacionais do grupo - incluindo a Gol.

Nos últimos anos, especialmente na ocasião dos 50 Anos da PANROTAS, voltamos a falar com Júnior para que ele retornasse ao Fórum PANROTAS e isso quase aconteceu em 2024, mas o tratamento não permitiu que ele estivesse com a gente naquela ocasião. Depois vieram a entrada e saída do Chapter 11, data última que celebramos com Ferrer, Júnior e o time da Gol.

O carinho, a gentileza e a disponibilidade se mantiveram, mesmo em trocas de e-mails ou mensagem enviadas via diretoria da Gol. Acompanhamos o nascimento da Gol e Júnior foi decisivo no nascimento do Fórum PANROTAS. Uma relação de mais de duas décadas, com amizade, respeito e admiração.

Depois da criação da Gol, por uma soma de fatores (da tecnologia à desregulamentação do setor e à estabilidade econômica), mas também por causa do modelo trazido por Júnior ao Brasil, a aviação brasileira nunca mais foi a mesma.

  • De tempos em tempos presenciamos esse sopro de empreendedorismo e inovação (no seu caso na Aviação e no Turismo e na vida de tantas águias que passaram pela empresa);
  • De tempos em tempos temos o privilégio de acompanhar de perto momentos de brilhantismo e ousadia de grandes empresários e empreendedores;
  • Quando isso vem acompanhado de gentileza e um sorriso sincero, fica para sempre.
  • Sempre que voarmos nas asas da Gol lembraremos do sonho de um jovem lá na virada do milênio. Um sonho que hoje é orgulho nacional.

Nossa homenagem a Constantino de Oliveira Jr., um dos pioneiros da aviação brasileira na era moderna.


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Sobre o autor

Artur Luiz Andrade é editor-chefe da PANROTAS, jornalista formado pela UFRJ e especializado em Turismo há mais de 30 anos.