Filip Calixto   |   04/03/2026 11:03
Atualizada em 04/03/2026 11:04

Geopolítica pressiona o Turismo e muda rota de destinos globais

Especialista Tanguy Baghdadi aponta como a desglobalização afeta confiança, custos e escolhas de viagens


PANROTAS/Gute Garbelotto
Tanguy Baghdadi abriu o segundo dia de Fórum PANROTAS 2026
Tanguy Baghdadi abriu o segundo dia de Fórum PANROTAS 2026

O segundo dia do Fórum PANROTAS 2026 começou com um alerta claro ao mercado: a geopolítica deixou de ser pano de fundo e passou a influenciar, de forma direta, as escolhas de viagem e a dinâmica do Turismo global.

Mestre em Relações Internacionais e comentarista de política internacional, Tanguy Baghdadi fez uma leitura histórica para explicar como o mundo saiu do auge da globalização, nos anos 1990, para um cenário de tensões crescentes, protecionismo e instabilidade. E foi categórico: "A geopolítica impacta bastante no Turismo", afirmou o palestrante, ao abrir a programação. Segundo ele, o setor está diante de um cenário de maior instabilidade, custos crescentes e, principalmente, de uma nova variável central: confiança.

Impacto no Turismo

Se durante décadas o Turismo operou em um ambiente de integração crescente e previsibilidade, hoje a lógica mudou.

O primeiro impacto é direto: confiança.

"Qual é o tamanho da confiança para ir para lá?", provocou o palestrante referindo-se a regiões em conflito, como no caso mais recente do Golfo Pérsico, com ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã.

Viagens planejadas com seis meses ou mais de antecedência agora convivem com o risco de escaladas militares, sanções econômicas ou bloqueios em regiões estratégicas. Mesmo que o conflito não atinja diretamente o destino final, a percepção de risco pode ser suficiente para frear reservas.

Entre os efeitos mais imediatos para o mercado estão:

  • Oscilação de custos, especialmente ligados à energia e ao transporte;
  • Pressão sobre tarifas aéreas, em função de instabilidade em rotas e combustíveis;
  • Redirecionamento de fluxo para destinos considerados mais estáveis;
  • Aumento da cautela do consumidor, que pesquisa mais e exige mais informação.


Destinos do Golfo, que nos últimos dez a 15 anos investiram fortemente em imagem e infraestrutura, voltam a ser analisados sob a lente da segurança regional. Emirados Árabes Unidos, Catar e Arábia Saudita construíram uma narrativa de modernidade e hospitalidade que, segundo Baghdadi, chegou a "fazer o mundo esquecer que eles estão no Oriente Médio". Mas tensões envolvendo grandes produtores de petróleo e o controle de rotas estratégicas recolocam a região no centro das preocupações.

O impacto, porém, não se limita ao Oriente Médio. Energia mais cara encarece toda a cadeia: aviação, hotelaria, transporte terrestre e operação turística.

Tendência a um Turismo mais tradicional

O prognóstico apresentado no Fórum é de uma possível volta a um Turismo mais tradicional – com maior peso para Estados Unidos, Europa Ocidental e América Latina – destinos percebidos como mais previsíveis.

Mas há um detalhe fundamental: o viajante mudou.

"Cada vez mais as pessoas querem entender para onde elas estão indo. O que significa esse lugar? Qual é a história desse lugar?"

Tanguy Baghdadi

A escolha deixa de ser apenas logística ou aspiracional. Passa a ser também contextual.

O cliente quer saber:

  • O que está acontecendo politicamente naquele país;
  • Qual é a posição daquele destino no cenário internacional;
  • Por que faz sentido ir para Lima e não para Dubai;
  • Que história e que identidade estão por trás da experiência.


Para o mercado, isso representa uma oportunidade estratégica: oferecer mais do que produto, oferecer completude. Traduzir cenário internacional em argumento de venda. Incorporar contexto geopolítico ao roteiro.

"Não é desespero, é aprender a lidar", resumiu.

Da globalização ao mundo mais caro

Para explicar como o setor chegou a esse ponto, Baghdadi fez uma digressão histórica.

A década de 1990, após o fim da Guerra Fria, foi o auge da globalização. O mundo operava sob a lógica da eficiência econômica: produzir onde é mais barato, comprar de quem oferece melhor custo. Questões geopolíticas ficaram em segundo plano.

Esse ambiente favoreceu o Turismo:

  • Mais integração aérea;
  • Câmbio relativamente mais estável;
  • Ampliação de rotas;
  • Diversificação de destinos.


O brasileiro passou a viajar mais – e para lugares antes pouco acessíveis, como Ásia e Oriente Médio.

As "rachaduras" começaram a surgir com os atentados de 11 de setembro de 2001, aprofundaram-se com a crise financeira de 2008 e ganharam novo fôlego em 2016, com a eleição de Donald Trump e o Brexit. A partir daí, a globalização passou a ser questionada abertamente.

O crescimento acelerado da China, tensões comerciais, tarifas, sanções e, mais recentemente, a invasão da Ucrânia pela Rússia, consolidaram o que o palestrante chamou de processo de desglobalização.

PANROTAS/Gute Garbelotto
Geopolítica global foi o tema de abertura do segundo dia de Fórum PANROTAS 2026
Geopolítica global foi o tema de abertura do segundo dia de Fórum PANROTAS 2026

Empresas passaram a rever cadeias produtivas. Países reforçaram barreiras. A energia encareceu. A instabilidade aumentou.

E o Turismo, setor altamente sensível à percepção de risco e ao custo operacional, sente esse movimento de forma quase imediata.

Geopolítica como ferramenta de negócio

Ao encerrar, Baghdadi reforçou que a geopolítica deixou de ser um debate distante, restrito a governos e chancelerias.

"O mundo é tão integrado que isso já chega até nós de forma direta", afirmou.

Para o Turismo, isso significa, segundo o especialista, assumir que cenário internacional é variável estratégica. Destinos podem ganhar ou perder atratividade conforme o tabuleiro global se movimenta. Clientes exigem mais informação e querem se sentir seguros, não apenas fisicamente, mas também na escolha que fazem.

As pessoas não vão parar de viajar. Mas vão escolher diferente, pontuou o palestrante. E, nesse novo contexto, entender o mundo pode ser tão importante quanto conhecer o destino.

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Sobre o autor

Integrante da equipe PANROTAS desde 2019, atua na cobertura de Turismo com olhar tanto para as tendências do mercado quanto para histórias que movimentam o setor. Formado em Comunicação Social com ênfase em Jornalismo e também em Processos Fotográficos, formações que permitem colaborar de forma dupla com a redação - entre textos e imagens. Fora do trabalho, encontra inspiração no samba, no cinema, na literatura e nos esportes