Análise: O que esperamos do Lula IV para o Turismo brasileiro?
Terceiro mandado deixou a desejar, especialmente no Ministério do Turismo

Para ser bem objetivo: que ele volte a acertar a mão no Ministério do Turismo e continue no caminho virtuoso da Embratur. Mais ainda: que o Turismo seja uma pasta forte e estratégica e não moeda de troca política (pedido que não é recente).
Mas até voltarmos a esse ponto, vamos contextualizar, para não ficarem circulando apenas recortes por aí.
Todos já sabem que virou fato anedótico (triste, triste) a rotatividade de titulares no Ministério do Turismo. Em 23 anos foram 17 ministros (sem contar o interino Alberto Alves por duas vezes), o que dá uma média assustadora de um ano e três meses por mandato. O que mostra as frágeis bases de um ministério meio Viúva Porcina, a que foi sem nunca ter sido.
Mas é “nossa voz” em Brasília e tivemos nomes importantes comandando a pasta.
Alguns deles mostraram que a força política é fundamental para resolver entraves do setor (de Marcelo Álvares Antônio a Henrique Alves, com menção ao primeiro ministro do MTur, Walfrido dos Mares Guia); em outras vezes, a força técnica compensou a falta de traquejo político (como com Luiz Barretto). No caso de Marta Suplicy, um nome midiático deu visibilidade ao ministério. Mas um ministro inesquecível e inovador? Ainda está por vir.
No geral o MTur serviu de pagamento político do governo, com pouco impacto real no dia a dia do setor, que vive de apagar incêndios, pois Turismo nunca é ouvido em pautas importantes, como na recente formulação da Reforma Tributária, por exemplo. Nessas horas o ministro político com bom trânsito no Legislativo ajuda e muito. Mas o ideal é participar de todo o processo e não apenas atuar como bombeiro em defesa de nossa indústria.
A continuidade do MTur é salva por seus colaboradores técnicos fixos, que tocam os programas independentemente do titular. Programas que muitas vezes carecem de orçamento e de estrutura. Como no caso do Cadastur, que bate recorde de empresas cadastradas, mas que sofre com a falta de fiscalização. Não são raras as denúncias do trade de empresas atuando sem Cadastur. Ou do Salão do Turismo, que, reeditado, ainda não disse a que veio. E não entendemos por que foi ressuscitado.
Ou seja, temos uma máquina com orçamento pequeno, que, dependendo do ministro, tem maior ou menos proximidade e protagonismo na relação com a iniciativa privada e a sociedade e que não oferece abundância de resultados concretos pelo setor. Como bons exemplos (de resultados concretos) podemos citar todos os benefícios obtidos durante a pandemia (mas dada a emergência não havia muita alternativa) e os números de turistas estrangeiros, que dispararam depois da mudança de mindset e estratégia na Embratur.
Quais foram os últimos três ou quatro ministros do Turismo? Poucos saberão. O atual ministro sequer foi à Abav Expo este ano. Não sei se por problema pessoal, agenda política... Mas em três dias de feira, não deu as caras na maior feira de... Turismo ... do País.
Não é pequeno o número de parlamentares ligados ao Turismo ou que representam destinos turísticos e, portanto, sabem da importância dessa indústria. Diversos secretários estaduais e municiais são mais que peças decorativas. Falta unir todo mundo e esse papel de articulador é do MTur – na promoção internacional a Embratur fez isso muitíssimo bem na era Freixo (que segue com Bruno Reis). Será que o papel do político é apenas ser...político? Recebe pessoas, faz promessa, vai a eventos, em seu discurso faz promessas, dá entrevistas, mais promessas, vai a inaugurações e festas, mais promessas, mais discursos... e quando vê lá se foram um ano e três meses e é hora de dar o lugar para o outro.
Voltando ao começo do texto, que Lula acerte a mão no nome do novo ministro, para chegar com uma nova mentalidade e, se preciso, mudar tudo. Lendo o X, vi Ricardo Freire sugerindo Eduardo Paes, que lá atrás, já foi secretário de Turismo do Rio e dispensa apresentações. Revitalizou a imagem do Rio com os grandes eventos. Um ótimo nome, como há outros por aí. Marcelo Freixo foi conquistado mesmo pelo Turismo? Voltaria? Secretários que deixarão seus cargos também são boas fontes de nome e não citarei qualquer um deles (apesar de tentado a fazer), para não ser injusto ou esquecer um ou outro. Mas tem nome bom disponível...
Precisamos chacoalhar o Turismo, ter um Janones na nossa política de Turismo. Ou um grande vendedor sentado na pasta. Com brilho nos olhos, boa articulação, e o marketing que só os bons vendedores dominam.
Unir o Turismo a outra pasta forte, como Economia/Fazenda, pode ser uma saída, se a reestruturação não der certo. Vai ter orgulho ferido, parecer downgrade, mas dependendo do projeto pode ser até melhor. Se o presidente quer mais pessoas viajando, é preciso que a economia ajude e crie o ambiente para isso. 95% da receita do Turismo brasileiro vem das viagens domésticas.
É glamuroso destacar os números internacionais (e importante, sem dúvidas), mas é preciso ter uma política mais ampla e de resultados, tendo como metas estimular o Turismo interno, investir em infraestrutura (por exemplo, visitamos projetos ousados em Alagoas, Paraíba e os aeroportos locais continuam acanhados), facilitar essas viagens, conscientizar sobre a importância do Turismo, gerar empregos e capacitar, continuar apostando nos grandes eventos (culturais, esportivos, de nicho...), garantir orçamento, viabilizar promoção interna e externa... Resta saber se ainda em voo solo ou fazendo parte de outro ministério. O presidente reeleito já disse que criará novo ministério, da Segurança, então pode ser que precise otimizar a atuação dos demais.
Precisa decidir e fazer acontecer. Muito criticado e com altos e baixos, o terceiro mandato do presidente Lula precisa de um salto de qualidade. No caso do Turismo, quase de um milagre. Já estamos rezando para que Lula olhe para nosso setor com sangue nos olhos, com vontade de mudar e de fazer acontecer. Seja com nova estrutura, com novos nomes, com um novo projeto para o Turismo do Brasil. É preciso mexer. É a última chance de Lula, que criou o Ministério do Turismo, em 2003, para isso.
Esperamos que Lula acerte com o Turismo. Está devendo. Não fosse pela Embratur, teria sido um tempo perdido.