Artur Luiz Andrade   |   25/08/2026 11:07
Atualizada em 25/08/2026 11:10

Como devemos ver o alerta (corajoso) da Braztoa? Copo meio cheio ou meio vazio?

Falta de um nome na denúncia de Fabiano Camargo gera insegurança ou faz parte do jogo rumo à ética?

pNa semana em que foi anunciado o fechamento da operadora Machu Picchu Brasil (não associada Braztoa), uma vez mais deixando agentes de viagens sem saber como lidarão com reembolsos, parcelas de cartão de crédito e as viagens de seus clientes, a Braztoa, associação que reúne algumas (mas não todas) das principais operadoras de viagens do País, achou por bem abrir os olhos do mercado em relação a duas práticas arriscadas, para não dizer perigosas:

  • a primeira, se entendemos bem o texto original, se refere à venda por “plataformas eletrônicas” de viagens sem data e especificações – somente com o destino “certo” – e nesse caso ela citou nominalmente depois a empresa Aeriva, que, ainda segundo a entidade, sequer é cadastrada no Cadastur do Ministério do Turismo;
  • a segunda prática nociva se refere à venda pouco transparente, “por uma operadora nacional”, de viagens para 2027 e 2028, incluindo bloqueios aéreos, ou seja, em datas em que não há garantia de passagem aérea, já que as companhias abrem a reserva e venda em seus sistemas com menos de um ano de antecedência. Então como ter bloqueios para daqui a dois anos?

Entrevistamos o presidente da Braztoa, Fabiano Camargo, para explicar melhor os dois casos, e no segundo chegamos ao impasse de uma denúncia sem nome, que é boa para alertar o mercado (mas não os consumidores), mas pode acertar em quem a Braztoa não está vendo.

A denúncia sem alvo nominado de algo que Camargo classifica como imoral (não ser transparente com o viajante de que ainda não há aéreo confirmado e usar a palavra bloqueio), mas não ilegal (sim, pode-se vender uma viagem para 2028 especificando que o aéreo será confirmado mais perto da viagem, por causa da política das companhias aéreas), pode transformar essa empresa pouco ética em qualquer uma.

Se eu não sei quem é o foco da denúncia, ele pode ser qualquer um, gerando um clima de certa desconfiança para o mercado como um todo. Faltam provas? É "apenas" uma questão de ética? Se fosse um associado o Conselho de Ética resolveria o caso?

As empresas aéreas nacionais, segundo nossas fontes, teriam sido avisadas e demandaram a retirada da propaganda pela tal operadora anônima. Provas, nesse caso, ajudariam.

Para o consumidor, então, a confusão pode ser maior. Como não é especialista e não sabe o que é Braztoa, se tem uma operadora vendendo gato por lebre (ou um gatinho que ainda vai crescer), a sua insegurança pode atingir o canal de intermediação como um todo. “E então, diante dessa confusão entre operadoras, não seria melhor eu comprar diretamente na empresa aérea ou no hotel?”, indagaria um consumidor, sem saber o papel de cada um na denúncia Braztoa. É um risco.

Além da denúncia com alvo anônimo gerar essas indagações, ainda cria ambiente fértil para teorias e boatos, alguns propositais, e nomes avulsos começam a circular. A bolsa de apostas nociva do Turismo volta a ficar agitada e os concorrentes ficam cada vez mais atiçados. Já vimos esse filme antes, nos sinais de fumaça (de crise) de outras empresas, operadoras ou não, em que os concorrentes dão uma assopradinha para o fogo pegar mais rapidamente.

Mas há o copo com a metade cheia nessa atitude (ou posicionamento) da Braztoa.

As entidades de classe do Turismo sempre foram criticadas por fazerem vista grossa aos problemas comerciais e às más práticas do mercado e até de seus associados. Volta e meia são acusadas de omissas, focadas apenas em eventos, corporativistas e moradoras do mundo de Alice, Nárnia e afins.

Pois bem, a Braztoa se posicionou sobre dois temas importantes e que podem afetar a experiência do viajante e concorrer de forma desleal com agentes de viagens e demais fornecedores.

Por omissão, não será condenada nesses casos e mostra uma inteligência de gestão que há muito não se via no setor. Coragem e discernimento. Não só nesse caso específico, mas em outros posicionamentos e no investimento em dados e pesquisas (e já que ninguém perguntou, por incrível que pareça sentimos falta do evento Braztoa, que dava uma identidade positiva à entidade).

A associação viu uma prática antiética no mercado, mas não teve a quem recorrer oficialmente. Tudo ficou no extraoficial. Pelo que sabemos, a publicidade foi retirada do ar (a pedido das empresas aéreas) e nenhum cliente foi lesado, a princípio. Mas é uma luta eterna contra práticas abusivas.

Sabemos, também, que, em casos de falta de ética, mas não de ilegalidade, qualquer nominação da Braztoa poderia resultar tão somente em um processo de difamação.

Então a entidade deveria ter falado com as empresas aéreas, mas não com a imprensa? Resolvido tudo nos bastidores? Acho que não. Pois foi um passo importante para a moralidade e a ética no setor como um todo. E a denúncia também envolveu a tal empresa sem Cadastur.

E o governo?

Caímos então em um player que está sendo pouco citado: o governo. Que é quem deveria estar mediando tudo isso. Não está na hora de haver fiscalização nessa indústria? A Braztoa cita que a plataforma de pacotes flexíveis sequer tem Cadastur. Como pode isso? Não seria o momento de o Ministério do Turismo entender mais sobre... Viagens e Turismo? Se existe uma pasta, ela precisa funcionar de fato, pelo setor, para o setor, e para proteger os viajantes.

O copo da Braztoa está mais cheio que vazio, eu diria. E é aquela velha história: se não fala é criticada, se fala (mesmo que pela metade) também é criticada. Que isso não iniba mais posicionamentos e ações. E que o mercado se sinta cada vez mais seguro - com transparência e relações saudáveis.

Vem aí nova eleição na Braztoa. Quem vai querer o desafio? Antigamente, ser presidente de Abavs e Braztoas gerava disputas bem acirradas. Hoje em dia, por motivos já citados e outros, a busca por quem se interessa é mais difícil. Será que a nova Braztoa está mudando isso? Ainda insisto na versão tupiniquim da US Travel, que olhe o macro de nosso setor e lute por ele. Mas isso é pauta para outro editorial - "Brasil Travel Associação - sonho ou necessidade?".

Por ora, denúncias pela metade podem sim causar mais estragos do que se espera, mas são os efeitos da guerra (pela ética, por um setor melhor). E também dá uma chacoalhada necessária em todos os players e revigora o papel de uma entidade de classe. Por mais Braztoas na indústria.

Por fim, mas talvez o mais importante, está na hora de o fiel da balança, o governo, entrar no jogo e começar a encher o seu copo. Ou morreremos de sede abraçados e sorrindo para as fotos.

Artur Luiz Andrade

Editor-chefe e CCO



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Sobre o autor

Artur Luiz Andrade é editor-chefe da PANROTAS, jornalista formado pela UFRJ e especializado em Turismo há mais de 30 anos.