Opinião: Nomeação de Bruno Reis na Embratur é histórica, mas não resolve desafios do setor
Pesquisadora Mariana Aldrigui fala sobre a necessidade de articulação entre diferentes atores da sociedade

A chegada de Bruno Reis à presidência da Embratur é apresentada como um marco simbólico e prático e, como destaca a pesquisadora e professora Mariana Aldrigui, pela primeira vez o órgão passa a ser liderado por alguém formado em Turismo e com trajetória no próprio setor, o que representa uma correção histórica.
Em artigo, Mariana afirma que os desafios do Turismo brasileiro vão além da liderança, exigindo articulação entre atores e uma gestão coordenada, além de uma atuação que una discurso e prática em diversidade e inclusão.
Leia o artigo de Mariana Aldrigui na íntegra:
Do setor ao comando – e do comando ao exemplo
"A nomeação de Bruno Reis para a presidência da Embratur marca um ponto de inflexão que o setor de Turismo brasileiro aguardou por décadas. Pela primeira vez, a principal agência de promoção internacional do país passa a ser liderada por alguém formado em Turismo — e, mais do que isso, por um profissional cuja trajetória foi construída integralmente dentro do próprio setor.
Bacharel em Turismo, com mais de 20 anos de atuação e uma carreira iniciada como estagiário na própria Embratur, Bruno percorreu praticamente todas as etapas da estrutura institucional até chegar ao topo. Em um país onde a condução do turismo frequentemente orbitou entre interesses políticos e agendas paralelas, esse movimento não é apenas simbólico — é uma correção de trajetória histórica, em que conhecimento técnico e experiência acumulada passam a ocupar o centro das decisões.
Esse é, sem dúvida, um avanço. E deve ser reconhecido como tal. Mas seria um equívoco imaginar que a transformação do Turismo brasileiro depende apenas de quem ocupa a cadeira principal. A Embratur — como toda política pública relevante — é, por definição, um organismo coletivo. Sua efetividade está condicionada à articulação entre governo federal, estados, municípios, setor privado e uma ampla rede de atores que, historicamente, operam de forma fragmentada. Nenhuma liderança, por mais preparada que seja, substitui a necessidade de coordenação sistêmica.
É nesse ponto que reside o verdadeiro desafio. O Brasil vive hoje um momento de reposicionamento internacional, com resultados expressivos e uma narrativa mais sofisticada sobre sua imagem no exterior. A continuidade desse processo exige consistência estratégica, mas também abertura à pluralidade de visões.

O Turismo, enquanto política pública, não se sustenta em modelos únicos — ele se constrói a partir de múltiplas leituras de território, mercado e sociedade. E há uma dimensão adicional que se impõe com cada vez mais força às lideranças contemporâneas: a cultura institucional.
Em um setor que se apresenta ao mundo como diverso, acolhedor e plural, é natural que esse mesmo compromisso se reflita internamente. Liderar o turismo brasileiro no cenário internacional implica, também, liderar pelo exemplo na construção de ambientes profissionais mais inclusivos, com maior participação de mulheres e inclusão efetiva de pessoas com deficiência em toda a sua competência e diversidade.
Isso não se constrói apenas com diretrizes ou discursos, mas com escuta, repertório, sensibilidade e a disposição permanente de ampliar perspectivas. Em um campo como o Turismo — que depende diretamente da capacidade de compreender o outro — essa dimensão não é acessória: ela qualifica decisões, fortalece estratégias e aproxima o setor do próprio Brasil que se pretende promover.
Há aqui, inclusive, um diferencial importante. Quem percorreu a trajetória completa dentro de uma instituição — do estágio à liderança — conhece, como poucos, o impacto que gestos cotidianos têm sobre equipes, carreiras e ambientes de trabalho. Sabe que a inspiração não se constrói apenas em discursos estratégicos, mas na forma como decisões são tomadas, como pessoas são tratadas e como oportunidades são distribuídas no dia a dia.
O Turismo brasileiro já viveu momentos em que discursos avançados não se refletiram plenamente na prática. A nova etapa que a nomeação de Bruno Reis inaugura, no entanto, reúne as condições para que essa convergência finalmente se estabeleça — com respeito à experiência acumulada, valorização das trajetórias que vieram antes e a capacidade de aprimorá-las com consistência, escuta e gentileza.
Sucesso, meu amigo! #vamosjuntos".