Setor de eventos precisa apresentar demandas e propostas aos governos, defende Abeoc
Segundo Enid Câmara, agenda deve ser construída de forma coletiva, oferecendo soluções

Como transformar relevância econômica em reconhecimento institucional? Este é o trabalho dos setores produtivos para este pós-eleição, dentre eles, o setor de eventos.
Para Enid Câmara, presidente da Abeoc, o setor não pode esperar que os políticos eleitos incorporem suas demandas de forma orgânica. "É preciso apresentá-las, demonstrar sua importância e contribuir com propostas e essa interlocução deve ocorrer independentemente de partidos ou posicionamentos políticos", destaca em artigo.
Confira o artigo na íntegra abaixo:
Da força econômica à influência institucional: o próximo desafio do setor de eventos
As eleições terminam quando as urnas são apuradas. Mas, para os setores produtivos, é justamente nesse momento que começa uma etapa fundamental que é transformar relevância econômica em reconhecimento institucional e participação nas decisões que influenciam o presente e o futuro.
O setor de eventos brasileiro precisa aproveitar essa janela de oportunidades. Governadores, senadores, deputados federais e estaduais eleitos ou reeleitos terão a responsabilidade de tomar decisões que impactarão o ambiente de negócios, os investimentos e a geração de empregos. Não podemos esperar que nossas demandas sejam espontaneamente incorporadas às prioridades dos novos mandatos. Precisamos apresentá-las, demonstrar sua importância e contribuir com propostas e essa interlocução deve ocorrer independentemente de partidos ou posicionamentos políticos.
A dimensão econômica do setor de eventos brasileiro é inquestionável, mas ainda temos o desafio de transformar essa força em maior representatividade e influência institucional. O III Dimensionamento Econômico do Setor de Eventos, um amplo esforço de cooperação liderado pela ABEOC, realizado com a chancela e atuação direta do Sebrae Nacional e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), por meio do Observatório da Indústria do Ceará, reunindo 16 instituições do setor (ALAGEV, IFEA Latin America, Academia Brasileira de Eventos e Turismo, ANPPE, ABRAPE, AMPRO, UNEDESTINOS, EMBRATUR, UBRAFE, ABRAFESTA, ABRACE, ABEFORM, SINDIPROM, FBHA e CETUR/CNC) revelou que nossa atividade movimentou R$ 813,5 bilhões em 2024, o equivalente a 4,6% do PIB brasileiro, e esteve relacionada a 12,7 milhões de empregos.
Os números demonstram uma atividade que vai muito além da realização de congressos, feiras e convenções. Movimentamos hotéis, restaurantes, transportes, tecnologia, comunicação, montagem, alimentação e uma extensa rede de fornecedores, além de gerarmos oportunidades para grandes empresas, pequenos negócios e milhares de profissionais em todo o país.
Entretanto, precisamos reconhecer uma realidade: a importância econômica de um setor não se transforma automaticamente em influência nas decisões públicas. Representatividade exige organização, articulação, informação qualificada, propostas consistentes e presença permanente nos espaços de diálogo com o poder público. Não basta demonstrar quanto movimentamos, mas precisamos mostrar por que as decisões que afetam nosso setor também impactam o desenvolvimento econômico do Brasil.
Um dos desafios da representação empresarial é superar a cultura da atuação reativa. Frequentemente, procuramos autoridades quando uma mudança tributária ameaça as empresas, uma nova regra gera insegurança ou uma decisão administrativa compromete a realização de eventos. É legítimo agir nessas circunstâncias, mas não podemos construir nossa interlocução institucional apenas em momentos de dificuldade. Precisamos estar presentes antes das crises, pois a melhor oportunidade para estabelecer relações com o poder público é quando ainda não existe uma demanda urgente a ser apresentada.
É importante e relevante conhecermos as prioridades dos novos mandatos, compartilhar estudos, apresentar dados, convidar autoridades para conhecer nossa atividade e demonstrar como os eventos podem contribuir para o desenvolvimento dos estados e municípios. Mais do que apresentar reivindicações, precisamos oferecer soluções. Segurança jurídica, simplificação tributária, acesso ao crédito, infraestrutura, qualificação profissional, inovação, sustentabilidade e captação de eventos nacionais e internacionais são temas que precisam integrar uma agenda estruturada de desenvolvimento do setor.
Essa agenda, entretanto, deve ser construída coletivamente. As entidades representativas têm a responsabilidade de identificar os desafios, organizar prioridades e transformá-las em propostas capazes de contribuir para o debate público. Esse é um dos compromissos da ABEOC Brasil, porém nenhuma entidade consegue exercer plenamente sua missão sem a participação das empresas que representa.
O associativismo precisa transformar nossa importância econômica em voz coletiva, e não pode ser uma relação em que a empresa apenas espera que sua entidade fale por ela. É uma construção de mão dupla: a entidade precisa representar, mas o associado também precisa participar, informar, propor e contribuir para a definição das prioridades.
O próximo ciclo político começa agora e a Abeoc Brasil seguirá trabalhando para fortalecer uma agenda nacional que reconheça a importância estratégica dos eventos. Mas quero deixar uma reflexão aos empresários e profissionais do nosso setor: não podemos esperar que os governantes reconheçam nossa importância se não fizermos da organização, da participação e da representatividade prioridades dentro do próprio setor.
Temos números, empresas, profissionais qualificados e uma contribuição extraordinária para oferecer ao Brasil. Nosso próximo desafio é transformar essa força econômica em presença institucional e capacidade de contribuir para as decisões que afetam nossa atividade.
Porque não basta sermos grandes e relevantes na economia, precisamos ter uma voz à altura da nossa importância.