Travel Techs: o que são? Onde vivem? Do que se alimentam?

|

Marcelo Linhares, CEO da Onfly, startup de gestão 100% digital de viagens corporativas, escreveu artigo exclusivo para a Revista PANROTAS 1.467, já disponível na seção Edições Especiais, falando sobre as Travel Techs, uma tendência na indústria de Viagens e Turismo. No artigo, bastante prático, com exemplos e análises, ele diferencia a Travel Tech das empresas de Turismo que têm usado cada vez mais a tecnologia para seus negócios.

Confira o artigo abaixo e leia a Revista PANROTAS Especial Tecnologia e Turismo clicando aqui.

"TRAVEL TECHS: O QUE SÃO? ONDE VIVEM? DO QUE SE ALIMENTAM?

Por Marcelo Linhares, CEO e fundador da Onfly

Divulgação/Onfly
Marcelo Linhares, CEO da Onfly
Marcelo Linhares, CEO da Onfly
O mundo está passando por transformações profundas, e se você não ficou escondido em uma caverna nos últimos dez anos, presumo que já tenha percebido.

De todo modo, vale reforçar que, hoje, o quarto maior banco do Brasil em valor de mercado já é o Nubank, uma fintech criada em 2013, que conta com aproximadamente 35 milhões de correntistas e não tem agência física.

O PagSeguro, uma empresa que nasceu digital, em menos de dez anos abriu capital em Nova York, possui R$ 80 bilhões em valor de mercado, cerca de nove vezes o valor da Cielo.

O Quinto Andar, uma imobiliária totalmente on-line, com menos de oito anos de existência, já vale R$ 6 bilhões, possui aproximadamente R$ 30 bilhões sob gestão e fecha mais de seis mil novos contratos de locação por mês.

A receita da Netflix no Brasil já ultrapassa a receita dos canais SBT, Record, Band e RedeTV juntos, e graças a ela, seu filho nunca vai saber o que é ficar esperando chegar segunda-feira à noite para ver um filme (Tela Quente, da rede Globo) ou aguardar longos quatro minutos de intervalo entre os comerciais.

Em comum a todas essas empresas, o principal motor de aceleração é o uso intensivo de tecnologia em seus negócios.

Todos os setores estão sendo completamente alterados com o advento da digitalização. A propósito, uma recente pesquisa da KPMG na Austrália mostrou que a transformação digital é prioridade na agenda dos principais CEOs das empresas australianas. Se repetir esta mesma pesquisa no Brasil ou nos EUA, certamente o resultado deve ser o mesmo.

Lembre-se, ninguém quer ser a próxima Kodak do mundo corporativo, ou melhor, trazendo para o nosso setor, ninguém quer ser a próxima Thomas Cook (agência mais antiga do mundo que pediu falência em 2019) do jogo.

E embora muitos acreditem, o setor de Turismo não está ilhado, em meio de tanta inovação.

A digitalização chegou forte no setor, liderada sobretudo pelas travel techs.

Mas afinal, o que são travel techs?

O termo “travel tech” é usado para definir empresas essencialmente de tecnologia que atuam de alguma forma no segmento de Viagens e Turismo, da mesma forma que existem as fintechs no mercado financeiro, as proptechs no mercado imobiliário, as agrotechs no mercado de agronegócio e as edtechs no mercado de educação.

O termo ganha relevância pelo tamanho da importância do setor na economia mundial. Uma pesquisa, realizada pelo Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC) identificou que a atividade turística movimentou cerca de US$ 8,8 trilhões em 2018, este montante é aproximadamente 10% de todo o PIB (produto interno bruto) da economia mundial.

Ademais, o mercado de Turismo é repleto de ineficiências e um terreno fértil para aplicação de tecnologia para melhorar a jornada do viajante e todos os participantes da cadeia.

A convergência entre travel e mobility techs
A Lufthansa Hub, braço de inovação da companhia aérea alemã Lufthansa, defende a convergência entre travel (viagens) e mobility (mobilidade), apoiada no olhar sobre a jornada do viajante no mundo digital, que em uma experiência “end-to-end” transita entre plataformas de Turismo e de mobilidade.

Um exemplo é um viajante que, ao realizar a sua viagem, compra a passagem on-line usando uma OTA (agência de viagens on-line) e depois usa um aplicativo de mobilidade como Uber ou 99 para chegar ao aeroporto, pegar o avião, e que, ao chegar ao aeroporto de destino, utiliza novamente um aplicativo de mobilidade para chegar ao hotel.

Diferentes tipos de travel techs
Existem diversos tipos de travel techs, talvez as mais conhecidas sejam as OTAs que digitalizam a experiência de compra do viajante em um modelo “touchless”, como, por exemplo, Hurb, MaxMilhas e Decolar.com.

Há também travel techs que estão na categoria de “hotel solutions”, que essencialmente ajudam os hotéis a otimizar a distribuição, seja em canais parceiros ou vendendo diretamente mesmo, como Omnibees, Lets Book e HSystem.

Já no mercado corporativo existem travel techs focadas, como OBTs (on-line booking tools) e corporate travels com plataformas self-booking, ou até mesmo plataformas de expense management, que ajudam a resolver o problema de reembolso do viajante.
Em resumo, qualquer empresa de tecnologia que atua na cadeia de Turismo pode ser classificada como uma travel tech, sem distinções.

O que caracteriza uma companhia como travel tech?
Essa é uma dúvida comum, e embora não haja um consenso no que define uma empresa como sendo uma travel tech, é possível inferir olhando a relação da empresa com a tecnologia.

Existem diferenças profundas entre empresas que utilizam tecnologia, versus empresas que detêm os seus ativos de tecnologia.
Principalmente os ativos que influenciam na experiência da jornada do cliente, travel techs detêm estes ativos e possuem times de P&D para mantê-los e evoluí-los.

Em resumo, o fato de uma agência ter um site institucional, onde o cliente entra e submete um formulário de contato, não o transforma em uma travel tech.

O jogo muda, se a agência desenvolve uma plataforma digital, onde o cliente em toda jornada de compra interage com a solução. Basicamente é o que OTAs como 123Milhas, Zarpo e ViajaNet fazem, com um exército de profissionais de tecnologia para manter e evoluir a experiência.

Travel techs e o “trade”
Estamos diante de uma transformação profunda, acelerada de forma intensiva por uso de tecnologias como cloud computing, big data e inteligência artificial.

Dito isso, está claro que profissionais e empresas do setor que querem continuar relevantes nessa nova economia devem entender as novas regras e adquirir novas competências.

Por exemplo, para operadoras e consolidadoras, se há dez anos o que importava no setor era um “bom relacionamento”, crédito e bom atendimento, hoje, além do bom atendimento (que vai ser essencial sempre, independentemente da tecnologia), é importante entregar APIs (interfaces de programação de aplicações) de conectividade para as novas agências carregarem os conteúdos de forma on-line e entregarem plataformas próprias para os seus consumidores.

Aliás, permita-me corrigir, na nova economia, vender passagem aérea, hotel, pacotes e experiências não é mais um privilégio das agências, note como as coisas mudaram. O Banco Inter, que cinco anos atrás essencialmente era apenas um negócio financeiro apoiado em contas correntes, hoje já vende passagem aérea e hotel em seu aplicativo, o mesmo caminho seguiu o Rappi, com o Rappi Travel, e veja que isto é apenas a ponta do iceberg. Nos próximos anos vários grandes players vão entrar neste segmento, de olho em um mercado gigantesco, altamente transacional e de forte recorrência, que é o Turismo.

Ou seja, é provável que daqui a dois anos, o maior concorrente das agências de viagens de hoje não seja uma empresa de Turismo, mas sim uma Magazine Luiza ou Mercado Livre.

Agências corporativas, para continuarem gerando valor, precisarão desenvolver competências de tecnologia, para entender a jornada do cliente (empresas) e tratar assuntos como, por exemplo, integração de dados e processos de reembolsos integrados com o ERP (planejamento de recursos empresariais) da empresa, bem como prover dados em tempo real para as empresas tomarem decisões rápidas.

Agentes de viagens precisam entender e aceitar que a internet democratizou o acesso à informação e que muitas vezes o viajante vai chegar para consultá-lo munido de muito conhecimento, seja de preço, seja sobre o destino, o que naturalmente eleva a régua da exigência do viajante em relação ao agente.

Profissionais da hotelaria precisam entender a cadeia de distribuição (brokers, operadoras, canais diretos), além de práticas de CRM (Customer Relationship Management) para otimizar o lifetime value (quanto o cliente gasta ao longo do tempo) do hóspede e como a tecnologia pode ser utilizada para otimizar a distribuição, elevar a experiência dos hóspedes e, consequentemente, maximizar o retorno dos acionistas.

Walter Longo, ex-presidente do Grupo Abril e grande pensador sobre inovação, recentemente afirmou que as empresas de sucesso são empresas com capacidade de “aprender, desaprender e reaprender”. Estendo esta frase para todos os profissionais do trade, “aprendam a desaprender”, abandonem velhas práticas e se permitam a aprender novas competências.

Conclusão
As mudanças estão acontecendo, e a covid-19 contribuiu para acelerar ainda mais essa transformação. Empresas e profissionais do setor que não entenderem infelizmente seguirão o mesmo caminho da Thomas Cook e serão atropeladas pelas travel techs que existem e pelas centenas que irão surgir nos próximos anos.

A boa notícia é que da mesma forma que a Magazine Luiza, uma empresa tradicional do varejo com quase 60 anos conseguiu se reinventar e se manter relevante no mundo digital, empresas tradicionais do Turismo podem e devem se reinventar.

Travel techs não é um privilégio das nativas digitais, e a discussão “travel tech ou agência de viagens” perde completamente o sentido, pois não há outro caminho, como disse Satya Nadella, presidente da Microsoft: “No futuro, toda empresa será de tecnologia.”

Leia abaixo a Revista PANROTAS Especial Tecnologia e Turismo.

 AVALIE A IMPORTÂNCIA DESTA NOTÍCIA