TTH Day 2026: Stablecoins, Reforma Tributária e meios de pagamento são temas do evento
Especialistas mostram como esses fatores têm impactado o segmento de Turismo e as travel techs

O Travel Tech Hub Day, realizado hoje (24) em São Paulo, reuniu especialistas do setor para discutir algumas das principais transformações que vêm impactando o segmento de Turismo.
O encontro trouxe três trilhas educacionais, sendo uma delas a Trilha Lead. Ela trouxe temas como stablecoins em pagamentos internacionais, os desafios e oportunidades para investimentos em travel techs, os impactos da Reforma Tributária sobre as empresas e novas soluções para tornar os pagamentos corporativos mais eficientes e rastreáveis.
Confira, abaixo, mais detalhes sobre cada um dos temas apresentados na Trilha Lead:
Stablecoins estão redesenhando o ciclo de pagamentos multimoeda do Turismo

Quando o assunto é câmbio, faltam soluções que tragam previsibilidade para os negócios, ainda mais considerando que, nos últimos 30 anos, o real só perdeu valor. As variações do câmbio foram muitas e as empresas que não tinham uma estratégia definida sofreram.
“Hoje, no mercado, não há sistemas que tratem dívidas em dólar de forma correta. As operadoras acabaram criando, internamente, uma forma de ter esse controle. Muitas têm conta em banco com moeda estrangeira ou uma solução adquirente de cartão de crédito, mas tudo acontece de forma fracionada”, explica Rafael Sola, CEO da Blimboo.
A solução para isso, segundo o executivo, é o uso de stablecoins, criptomoedas projetadas para manter um valor estável, geralmente atrelado a um ativo como uma moeda tradicional (por exemplo, o dólar americano) ou, em alguns casos, ouro ou outros ativos.
Quais as vantagens de usar stablecoins?
O CEO da Blimboo apresentou diversas vantagens no uso das stablecoins, entre elas:
- Pagamentos instantâneos: permitem acesso a meios de pagamento digitais e instantâneos em diferentes países. A stablecoin possibilita realizar um pagamento internacional utilizando os meios de pagamento locais de cada mercado;
- Facilidade nas transações internacionais: o processo pode conectar diferentes moedas de forma simplificada. “Temos o real, que é transformado em moeda digital. A empresa nos Estados Unidos vai receber esse dólar digital e transformá-lo em dólar fiduciário usando stablecoins”, explica Sola;
- Mais rapidez: uma operação internacional pode ser concluída em poucos minutos. “É possível mandar um pagamento e ele chegar ao México em dois minutos, ao contrário do que acontece com o sistema tradicional via Swift;
- Rastreabilidade e segurança: as operações ficam registradas na blockchain, o que permite acompanhar a transação e garante um registro imutável da operação;
- Potencial redução de custos tributários: segundo Sola, atualmente não há incidência de IOF sobre determinadas operações realizadas com moedas digitais, já que o imposto foi criado para operações envolvendo moedas fiduciárias. Ele ressalta, porém, que esse é um cenário regulatório em evolução e pode sofrer alterações;
- Operações 24 horas por dia: como as transações digitais não dependem do horário de funcionamento do sistema bancário tradicional, é possível realizar operações a qualquer momento, inclusive fora do horário comercial.
Por fim, Rafael afirma que a Blimboo está conectada a empresas reguladas (até o final de 2026 serão 60) para fazer operações no Brasil. “E a régua é bem alta na seleção dessas empresas, que terão de reportar todas as operações ao Banco Central”, conclui.
O que atrai ou afasta capital no segmento de travel tech?

A pergunta foi tema do debate entre Gregório Nardini, fundador e CEO da Planne, e Natan Sztamfater, cofundador da Stamina. Segundo Gregório, o setor de Travel Tech atrai investimentos por ter muitos problemas e desafios para resolver.
“Há questões de sazonalidade, demanda, queda de crédito, jornada do cliente e, olhando para esses problemas, vemos que é um setor cheio de oportunidades, afinal, o principal insumo do empreendedor é ter problemas para resolver. E mesmo com todos esses desafios, o setor representa quase 10% do PIB brasileiro, ou seja, há muito dinheiro e muita oportunidade envolvida”
Gregorio Sztamfater, fundador e CEO da Planne
A dinâmica do setor também favorece os investimentos, segundo Gregório. “O Turismo vive ao redor da integração e muitos setores ainda precisam dela”. Ele citou como exemplo a Serra Gaúcha, destino no qual a venda de atividades turísticas não tinha muita tecnologia envolvida, muito menos integração. “Enxergamos a oportunidade de criar essa tecnologia ali”, conta Gregory.
Natan Sztamfater, por sua vez, fez uma comparação do setor de varejo com o Turismo. “No varejo, há um atraso relevante na experiência de compra. Vários produtos, como o tênis, por exemplo, começaram a ser vendidos em um momento no qual ainda não existiam marketplaces como Mercado Livre e Amazon. O lojista era obrigado a desenvolver suas próprias soluções para oferecer uma boa experiência ao consumidor. Aos poucos, os marketplaces foram surgindo e o processo de maturação do lojista aconteceu da loja própria para o marketplace”.
No Turismo, porém, o caminho foi inverso. “Os marketplaces ganharam força muito rapidamente, com empresas como a Booking, e isso acabou deixando pouco espaço para o dono da empresa ou o do hotel operar sem depender dessas plataformas”, afirma o especialista.
Os impactos da Reforma Tributária para as empresas

A Reforma Tributária foi criada com a proposta de simplificar os processos, mas, na avaliação de Aoron Beyer, líder das áreas de Desenvolvimento de ERP e Turismo na Benner Sistemas, e Danilo Gonçalves, diretor de Operações e sócio da Iterpec, o impacto para o Turismo será significativo e exigirá mudanças profundas das empresas.
“Assim como aconteceu com a inteligência artificial, a Reforma Tributária obrigará as empresas a revisitar processos que antes ficavam restritos a determinadas áreas. A área comercial, por exemplo, não poderá mais operar sem compreender aspectos tributários, enquanto os departamentos financeiro, de vendas, de contratação e de tecnologia precisarão atuar de forma integrada”
Aoron Beyer
Como funcionará o IVA?
Danilo Gonçalves explica que o IVA funcionará de maneira não cumulativa. A empresa paga imposto sobre o valor que agrega ao serviço, mas pode receber créditos referentes aos impostos pagos nas etapas anteriores da cadeia.
“Um dos pontos de atenção está na forma como o hotel será tratado dentro da cadeia. Dependendo da operação, o serviço prestado diretamente ao passageiro pode não gerar crédito para o próximo elo”
Danilo Gonçalves
Essa dinâmica pode fazer com que empresas corporativas deixem de negociar diretamente com hotéis e passem a trabalhar com distribuidores, caso isso resulte em uma estrutura tributária mais eficiente e reduza o custo final.
Aoron lembra que a Reforma Tributária vai exigir a interligação entre toda a cadeia. “Se a empresa não conseguir comprovar a operação e os elos anteriores da cadeia, poderá não conseguir recuperar os créditos tributários”, explica.
Além disso, cada operação precisará ter documentação que permita acompanhar o caminho da reserva e identificar os documentos fiscais relacionados a cada etapa.
Tarifa comissionada e tarifa net
A Reforma Tributária exigirá uma distinção entre tarifa comissionada e tarifa net. Na tarifa comissionada, a agência recebe uma comissão acordada com o fornecedor. Por exemplo, em uma operação de R$ 1.000, pode haver uma comissão de R$ 250. Nesse caso, o hotel emite a documentação referente ao serviço e a agência emite sua documentação referente à comissão.
Já na tarifa net, a agência compra uma tarifa líquida, acrescenta seu markup e revende o produto. A dinâmica tributária e de geração de créditos será diferente.
Ainda egundo os executivos, a reforma aumentará a transparência sobre as margens das empresas. Será possível identificar quanto cada elo da cadeia está agregando ao preço final do produto. “O crédito muda a forma como vamos negociar e pensar. Não é mais só o menor preço, mas tudo o que pode ser gerado em cima disso”, conclui Aoron Beyer.
Adicionando mais controle e eficiência nas viagens corporativas

Eduardo Vieira, head comercial da Clara, por sua vez, destacou em sua apresentação que o sistema de reservas das empresas já está muito bem estruturado, mas ainda há gargalos em outras etapas da cadeia, principalmente no fluxo de pagamento, na prestação de contas e conciliação.
“O gargalo acontece porque 64% dos gastos corporativos são feitos com cartões tradicionais, que não têm um fluxo de aprovação estruturado e não oferecem visibilidade em tempo real”, explica Vieira.
Eduardo opina que o processo de conciliação deve ser bem feito e que o melhor controle é aquele que não interrompe a operação. “É importante controlar, mas não podemos parar as áreas para que isso aconteça”.
VCN e cartão para os colaboradores
Para solucionar esses gargalos, o head comercial da Clara sugere algumas soluções, como o cartão VCN, cujo número expira após cada transação, garantindo mais segurança nos pagamentos.
“A conciliação é automática. É possível emitir VCNs para várias transações diferentes e todas elas são conciliadas no mesmo relatório, em tempo real”, afirma o executivo.
Outra solução citada por ele é o cartão de colaboradores. “Os limites de crédito são divididos em cartões físicos e virtuais, que podem ser colocados na carteira digital do celular. É possível estabelecer limites personalizados para cada colaborador e fazer bloqueios por categoria”, conta.
A empresa pode fazer a gestão desses gastos e a conciliação em tempo real. “Tudo o que é gasto pode ser visualizado de forma integrada. Também é possível subir a política de gastos no sistema e fazer com que a plataforma obedeça aos procedimentos da empresa”, conclui Eduardo Vieira.
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