Especial Rio 2016: o raio-X da hotelaria na cidade

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Alexander Landau
O Hilton Barra Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca

Em outubro de 2009, o Rio de Janeiro ganhou o direito de sediar os Jogos Olímpicos de 2016, que acontecerão de 5 a 21 de agosto. Nos anos seguintes, inúmeros investimentos foram sendo realizados na hotelaria da cidade para atender às necessidades do Comitê Olímpico Internacional (COI), que, na época, solicitava 42 mil quartos para atender apenas os clientes credenciados aos Jogos (Comitê Olímpico Internacional, Comitês Olímpicos dos países, federações esportivas, jornalistas, patrocinadores e organizadores dos próximos Jogos Olímpicos de Verão e Inverno).

Segundo números da Associação Brasileira da Indústria de Hospedagem do Rio de Janeiro (ABIH-RJ), em 2009, a cidade do Rio contava com 25 mil quartos em operação. Para atender às necessidades do COI, a prefeitura do Rio criou um plano de incentivo para construção de novos hotéis. Em contrapartida, esses empreendimentos deveriam reservar até 90% dos seus quartos para o Comitê Olímpico, que poderia usar ou não. O resultado é o crescimento do parque hoteleiro em 140% - a previsão é chegar ao início dos jogos com 60 mil quartos.

Cada hotel assinou seu próprio contrato com o Rio 2016 e o prazo de devolução dos quartos variou de acordo com cada rede. Segundo a ABIH-RJ, até novembro do último ano foram “devolvidos” aos hotéis 125 mil diárias que estavam pré-reservadas para o Comitê e não seriam usadas. Este número dá uma média de 1.737 quartos por dia liberados, segundo cálculos da própria ABIH-RJ.

Divulgação
O NCL Getaway, da Norwegian Cruise Line, está fretado para o evento

O Comitê Rio 2016 garante que estão sendo usados 33 mil quartos, dos quais 25 mil em redes hoteleiras de três a cinco estrelas. Soma-se a este número outros dois mil quartos do navio NCL Getaway, da Norwegian Cruise Line, que está fretado especialmente para o evento, além de seis mil residências que serão usadas como hospedagem. O Comitê Rio 2016 explica que essas residências não se referem à Airbnb, patrocinadora dos Jogos. “São prédios que estão sendo construídos para serem usados como residências. No entanto, a primeira utilização será feita nos Jogos Olímpicos Rio 2016”, diz o comunicado do Comitê Rio 2016.

Em relação à vinda do navio, o gerente de Acomodações Hotéis e Clientes da Rio 2016, Ernesto Gubert, garante que as conversas com a Norwegian Cruise Line começaram ainda em 2010, embora o contrato só tenha sido assinado em 2013, quando a oferta hoteleira do Rio já estava toda planejada. “Em 2008, quando fizemos dossiê de candidatura, tínhamos uma demanda superior à oferta e precisávamos nos cercar de todas as possibilidades. Na época tínhamos acordo com três empresas de cruzeiros e com algumas construtoras. Já diante deste novo cenário da hotelaria, fechamos com apenas este navio e com um conjunto de prédios residenciais”, explicou.

Não consta nesta lista de 33 mil unidades habitacionais os dez mil quartos da Vila dos Atletas. Espalhados em 31 prédios, a Vila será ocupada pelos treinadores e atletas dos Jogos em sistema de rodízio. Embora não seja classificada como hotel, sua operação (alimentação, arrumação, limpeza, entre outros) será feita por uma série de empresas terceirizadas, incluindo redes hoteleiras.

Levando-se em conta o número de quartos na cidade e o total utilizado pelo Rio 2016, ainda restam 36 mil quartos para serem comercializados durante os jogos, que deverão ser usados pelos turistas – o Ministério do Turismo prevê cerca de 400 mil visitantes internacionais somente no período olímpico.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro (ABIH-RJ), Alfredo Lopes, acredita que neste período os hotéis de três a cinco estrelas estarão 100% ocupados. “Esta época não nos preocupa”, disse. Para aqueles que ainda não têm reservas, ele aconselha a procurar hotéis menores e menos estrelados, hostels ou hotéis em cidades vizinhas, como Niterói e Duque de Caxias.

Lopes não teme o Airbnb, e garante ser normal este tipo de hospedagem durante grandes eventos. “Embora estejamos falando de uma empresa relativamente nova, esta prática é antiga e mesmo no Rio ela já acontece. Quando o Papa João Paulo II veio em sua primeira visita muitos fiéis vieram ao Rio e alugaram casas por temporada. Esta é uma prática antiga, e sabemos que em eventos de grande porte alugar casas por temporada se torna uma opção”, concluiu.

ADMINISTRAÇÃO NAS RESIDÊNCIAS
Do total de 33 mil quartos que estão sendo usados pelo Rio 2016, seis mil são de residências que, temporariamente, serão transformadas em hotéis. O Comitê explica que são prédios construídos para fins de moradia e que, no entanto, terão seu primeiro uso dedicado aos Jogos Olímpicos. Será uma espécie de homestay, algo parecido com apart-hotel.

Os prédios ficarão na Barra da Tijuca e serão usados por jornalistas convidados para cobrirem o evento. A administração ficará a cargo da ITC Hotelaria, empresa de João Nagy, que cuidará de todos os serviços dedicados à hotelaria, desde arrumação dos quartos à alimentação, passando ainda pela recepção dos jornalistas (portaria, mensageiro, encarregado, entre outras funções).

CRITÉRIO UTILIZADO
Dilvugação
Ernesto Gubert e Nilton Cambé, ambos do Comitê Organizador dos Jogos Rio 2016

Ao todo estão sendo usados pela Rio 2016 cerca de 200 hotéis entre três e cinco estrelas apenas na cidade do Rio. Os empreendimentos estão divididos em quatro zonas: Maracanã (incluindo empreendimentos no bairro homônimo e arredores, Centro e Engenho de Dentro - Estádio Nilton Santos – Engenhão), Deodoro, Barra (incluindo Jacarepaguá e Recreio) e Zona Sul. Em uma primeira avaliação, empreendimentos de Niterói, cidade vizinha ao Rio, entraram na lista de possíveis hotéis a serem usados, mas, com o investimento privado feito na malha hoteleira, a Rio 2016 retirou os hotéis do evento.

No começo de 2009, a Rio 2016 utilizou como critério de seleção todos os hotéis de três a cinco estrelas. Em 2013, foi feita uma nova avaliação, já incluindo os novos investimentos hoteleiros. “Na primeira análise não deu para selecionar muito. Como havia poucos hotéis na cidade, escolhemos todos dentro daquele padrão. Depois fizemos uma seleção mais apurada e revisamos nossa lista”, disse Gubert.

Segundo explicou o gerente geral de Acomodações da Rio 2016, Nilton Cambé, cada cliente pôde escolher qual hotel quer utilizar durante os jogos. “Cada cliente nos informa o que precisa em termos de qualidade e distância e nós tentamos encontrar uma solução. Mas antes da assinatura do contrato, as empresas vêm e conhecem o hotel para ver se atendem as necessidades. Algumas redes, por exemplo, optaram por não ficar em empreendimentos ainda em construção, outros escolheram ficar no Hilton ou Hyatt antes mesmo de estarem prontos, pois já conhecem a qualidade e atendimento destas redes”.

Um dos hotéis listados pela Rio 2016, o Rio Othon Palace já tem 100% dos quartos reservados, dos quais 70% apenas para os patrocinadores – outros 30% para contratos já assinados, como companhias aéreas e empresas. O Rio Othon Palace é um dos hotéis que faz parte do portfólio da Rio 2016 desde 2009. Na época a unidade (e todos os hotéis credenciados) havia assinado um acordo com o comitê organizador e fixado uma tarifa, que foi revista em 2013. Na época, o dólar valia R$ 2,3. Três anos depois, a moeda norte-americana vale R$ 3,7. No entanto, o pagamento é feito em três parcelas e em cada pagamento é levado em conta o câmbio atual. Dos três pagamentos, dois já foram realizados e o último será feito perto dos jogos.

“É uma medida justa, independente da oscilação da moeda. Naquela época não poderíamos prever este aumento. Mas revimos este valor de acordo com o Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M)”, afirmou o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro (ABIH-RJ), Alfredo Lopes.

EVOLUÇÃO DA HOTELARIA
Mais do que crescer a quantidade de hotéis e de leitos, os Jogos Olímpicos estão fazendo uma revolução e evolução no parque hoteleiro da cidade. Com a escolha do Rio para receber um dos mais importantes eventos esportivos do planeta, o Rio de Janeiro ganhou uma gama de investimentos no setor e viu nascer algumas das mais importantes redes internacionais de hotelaria do mundo, como Hilton, Hyatt, Trump, entre outras.
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Os investimentos fizeram também redes já baseadas na cidade investirem mais e construírem novos hotéis, como J.W. Marriott e Accor. Hoje, o Rio de Janeiro é a maior aposta da Accor no mundo. Somente no Estado, o número de empreendimentos saltou de oito, em 2012, para 25, em 2015. E até 2020 serão 45 hotéis na região. “Nenhuma outra cidade ou Estado no mundo, nem mesmo a França, está recebendo tantos investimentos quanto o Rio de Janeiro”, afirmou o presidente da Accor para América do Sul, Patrick Mendes. Entre os novos hotéis está um novo Sofitel (antigo Caesar Park), localizado em Ipanema, e que está passando por uma ampla reforma para se adequar à marca.

“A hotelaria do Rio estava parada. Não havia nenhum tipo de investimento e a cidade não recebia nenhum hotel novo de rede internacional. A partir de 2010, o Rio foi ganhando notoriedade, vieram importantes eventos, como Jogos Mundiais Militares, Rio+20, Jornada Mundial da Juventude, Copa e, por fim Jogos Olímpicos, e, a reboque destes eventos, surgiram novos hotéis e novas redes. A hotelaria do Rio não tem com o que se queixar”, afirmou o gerente de Acomodações, Ernesto Gubert.

“O que o Rio está vivendo é uma revolução. Ninguém esperava esta quantidade grande de hotéis e, principalmente, a chegada de novas bandeiras internacionais. Antes estes investimentos se concentravam em São Paulo e agora o Rio passou a ser o foco”, afirmou Alfredo Lopes, que além da ABIH-RJ também preside o Rio Convention & Visitors Bureau. “E se não fosse a crise da Lava Jato, que trouxe problemas políticos e econômico, e a ‘quebra’ do Eike Batista, que investia muito no Rio, estaríamos ainda melhor”, concluiu fazendo referência a quase vinda da Four Seasons ao Rio. “Eles iriam administrar o antigo Hotel Gloria, que agora está abandonado”, lamentou.

JOGOS OLÍMPICOS E PARALÍMPICOS EM NÚMEROS
Os números dos Jogos Olímpicos Rio 2016
5 a 21 de agosto de 2016
10,5 mil atletas
206 países
42 campeonatos mundiais
45 mil voluntários

Os números dos Jogos Paralímpicos Rio 2016
7 a 18 de setembro de 2016
4.350 atletas
178 países
23 campeonatos mundiais
25 mil voluntários

O Rio na vitrine
4,8 bilhões de pessoas assistirão os Jogos pela TV
Serão 5,6 mil horas de transmissão ao vivo, várias delas com esportes sendo disputados ao ar livre em regiões como Copacabana e Lagoa
7,5 milhões de ingressos para cerca de 700 sessões foram colocados à venda no Brasil e no mundo
25 mil profissionais de imprensa virão para os Jogos Olímpicos e sete mil profissionais de imprensa para os Jogos Paralímpicos

Os números da hotelaria
33 mil apartamentos
25 mil em hotéis de três a cinco estrelas
6 mil em residências com serviços
2 mil em navio

Vila dos Atletas
31 edifícios
3.604 apartamentos
10,5 mil atletas nos Jogos Olímpicos e 4.350 nos Jogos Paralímpicos
5 mil lugares no restaurante principal

Fonte: Rio 2016
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