Além do embarque: qual o papel estratégico do gestor de viagens em 2026?
Travel manager enfrenta um cenário geopolítico complexo, com guerras e ataques entre nações

A cada ano que passa aumentam os desafios e as atribuições do gestor de viagens corporativas. Em 2025, equilibrar custos com a experiência e segurança do viajante, além de estar alinhado às metas e expectativas da empresa foi um dos principais motes. Já em 2026, embalado com os acontecimentos do ano passado, o travel manager enfrenta um cenário geopolítico complexo, com guerras e ataques entre nações.
Qual o raio-x da função deste profissional neste ano e além? Mais responsabilidades e menos autonomia? A antiga premissa de ser cada vez menos operacional para se tornar mais estratégico se mantém? De acordo com a gerente de Gestão de Mobilidade da Hypera, Michele Moraes, há mais atribuições, sim, mas isso não significa que este profissional tenha menos independência para tomar decisões.
“O que mudou foi o tipo de autonomia. Deixei de ter uma visão mais focada dentro da minha área e passei a compartilhar melhor os dados do departamento de gestão para outras áreas que tomam decisão. E é por meio desses dados, do benchmark, que a empresa faz escolhas. É todo um trabalho analítico, de análise de risco. Hoje, é menos feeling e mais o histórico”, diz.

Para ela, a profissão “gestor de viagens” está em constante evolução e quem está na liderança das viagens não pode ficar dentro de uma caixinha. É preciso ter uma visão do todo, pensar, projetar, ser visionário. O que antigamente era regular uma viagem ou ter o menor valor, agora é ser mais estratégico, mais analítico, usar os dados disponíveis como bússola transversal.
A gestora de Viagens da Arcos Dourados, Viviane Parrini de Moraes, acredita que há muito tempo a profissão deixou de estar atrelada basicamente à atuação de resolução de conflitos, focada no cliente interno e fornecedor. O papel do gestor hoje é arquitetar a estratégia de viagens com investimento, atrelando também receita, cultura e inovação.
“Por isso, vejo grande necessidade de trazer ROI tanto para as viagens corporativas quanto para as de eventos. Governança e compliance também têm atuação muito forte do gestor, porque a política é muito dinâmica, precisa ser integrada com várias áreas da empresa”, conta Viviane.

A gestora cita também o quanto o duty of care se transformou. Hoje é fundamental ter uma padronização de avaliação de riscos pré-viagem, monitoramento em trânsito e resposta incidente pós-viagem. Inclui-se aí ainda a saúde mental, que exerce um papel gigante no desempenho dos deslocamentos. Bleisure, ESG, tecnologia e dados também não podem ficar de fora.
“Diante disso tudo, é necessário cada vez mais ter um protagonismo maior no dia a dia. O protagonismo abre portas, faz com que você traga à tona aquele tema, que pode ser sensível, que mexe em todos os viajantes da companhia. Essa atuação de liderança gera oportunidades para que reflexões sejam causadas nos líderes, nos gestores e a gente encontre juntos uma forma de atuar”, afirma.
Mais tecnologia... Gestor substituível?
O avanço de tecnologias facilita – e muito – a rotina do gestor de viagens. Automações, dados, BI, relatórios. Com tudo facilitado por meio dos recursos tecnológicos, como fica a atuação do gestor? Este profissional continua sendo insubstituível no bom andamento da viagem a negócios?
“O ser humano na questão de viagens será necessário por muito tempo ainda. A inteligência artificial não acabará com nossa profissão. É preciso um olhar humano para analisar as próprias relações humanas, como de fornecedores e parceiros, e vai ter coisa que o humano precisa fazer até para ver se a máquina está ok”, pontua a secretária executiva da HT Micron, Evelyn Haddad.
De acordo com ela, que faz a gestão das viagens de estrangeiros e C-Level de sua empresa, o “carinho” e cuidado com o viajante é fundamental. E isso só um ser humano é capaz de entregar.
“Entre os viajantes, haverá aquele que não sabe fazer a reserva, que não gosta de computador... E ele vai precisar da nossa ajuda. Para mim, o gestor precisa ser ‘o cara da vez’”, completa Evelyn.

Em momentos de problemas, de intercorrências, então, é aí que o travel manager se torna extremamente indispensável. Para Michele, quando está tudo caminhando na normalidade, é até possível deixar de lado a parte humana. Mas quando há fragilidade, não é com a máquina que o passageiro quer falar.
“Em caso de problemas, de overbooking, algo que o viajante não se sinta amparado, é essencial a pessoa ter um meio de contato para falar com um humano. Para se sentir acolhida. É sobre dar conforto e trazer segurança para quando o cliente interno se sente desamparado”, reforça a gestora da Hypera.
Parceria com fornecedores é chave
O relacionamento com os fornecedores, que muitas vezes acabam se tornando mais do que parceiros, é uma construção diária. É também desafiadora, pois é necessário entender se aquele fornecedor de fato atende as necessidades e objetivos da empresa.
“Tenho por hábito olhar meu BI, entender se tenho volume para a cidade em questão para saber se haverá demanda para o hotel que estamos em negociação, por exemplo. Porque seria improdutivo para ambos os lados caso não haja esse volume de viagens. Por isso que filtrar é algo que otimiza. E o que a nossa jornada diária mais precisa é ser otimizada”, comenta Viviane, da Arcos Dourados.
Para Evelyn Haddad, o fornecedor precisa ser parceiro e, mais que isso, um verdadeiro amigo. “Mais que parceria, é importante ter até amizade. Porque é na hora do perrengue, principalmente, que ele vai te ajudar da melhor maneira. Preciso de um fornecedor que atenda assim que eu ligar, que não me veja somente como um número”, acrescenta.
Pois, segundo Evelyn, ter um bom relacionamento com o fornecedor ajudará a ter um bom relacionamento com outras partes. “Eu sendo conhecida por alguns deles, eles me ajudam a ser conhecida por outros. Tem de ser uma boa relação dos dois lados, preciso ser uma cliente querida e fazer a minha parte. É uma via de mão dupla”, conclui.
O que o gestor de viagens precisa ter em 2026 (e além) - de acordo com Michele Moraes, Evelyn Haddad e Viviane Parrini de Moraes:
- Paciência
- Empatia
- Buscar conhecimento
- Bom relacionamento
- Tecnologia na palma da mão
- Protagonismo
- Resiliência
- Flexibilidade e agilidade
- Ser comunicativo
- Influência dentro da organização
- Estratégia
O conteúdo acima é parte integrante do Anuário PANROTAS de Viagens Corporativas e Eventos 2026, edição especial que reúne análises, dados, entrevistas e listas estratégicas para os profissionais do segmento. Confira abaixo: