Estamos mostrando que as TMCs são potências também em Mice, diz Douglas Camargo (Abracorp)
Diretor executivo fala sobre a expansão da entidade no segmento, guia de boas práticas, desafios e planos

FOZ DO IGUAÇU (PR) – As agências associadas à Abracorp já são reconhecidas pela gestão de viagens corporativas, mas a entidade está mostrando ao mercado que as TMCs também são grandes organizadoras de eventos, congressos e viagens de incentivo. Essa é uma das prioridades da associação, que realizou em julho seu primeiro Fórum MICE e promove nesta semana, em Foz do Iguaçu, a primeira Missão MICE Abracorp.
Em entrevista à PANROTAS durante o encontro, o diretor executivo da associação, Douglas Camargo, falou sobre essa estratégia e os desafios enfrentados pelas TMCs na organização de eventos. Segundo ele, as associadas realizaram mais de 30 mil eventos em 2025, volume que deverá crescer neste ano.

Um dos principais assuntos da conversa foi o Guia de Boas Práticas para Eventos Corporativos, lançado nesta quinta-feira (29), durante a missão. O documento busca estabelecer referências para a relação entre clientes, agências e fornecedores, desde o início de uma concorrência até o feedback após a realização do evento.
Camargo também explica por que Foz foi escolhida para receber a primeira missão, defende uma atuação mais consultiva das agências e adianta que a Abracorp pretende realizar duas novas missões MICE em 2027, possivelmente ambas internacionais, além de manter o fórum no calendário anual.
Confira:
PANROTAS – Qual é a principal contribuição que o Guia de Boas Práticas pode trazer ao setor de eventos corporativos?
DOUGLAS CAMARGO – Estamos falando desde as primeiras informações que a agência recebe para elaborar um projeto até o feedback após a conclusão de uma concorrência. Muitas vezes, uma agência investe tempo e recursos para preparar uma proposta e nem sequer recebe uma resposta informando que o cliente optou por outro fornecedor.
Também temos questões financeiras. Hoje, muitas vezes, o cliente muitas vezes estabelece um prazo de pagamento de 120 dias. A agência acaba virando um banco. Queremos estabelecer referências mais justas para ambos os lados, desde o briefing inicial até a contratação e o encerramento do processo.
É importante considerar que estamos ouvindo um grupo grande e relevante de agências, que realizam congressos e eventos de grande porte. Elas conhecem as dificuldades do dia a dia e sabem o que precisam para entregar um bom projeto.
Essa e outras iniciativas que estamos desenvolvendo são tentativas de ajudar a melhorar o mercado. É claro que não podemos obrigar ninguém a seguir o guia à risca, mas ele serve como uma referência. Tudo o que colocamos ali vem da percepção dos nossos associados sobre pontos que podem ser melhorados nos processos de contratação e produção de eventos.

PANROTAS – O lançamento do guia pode ser considerado o ponto alto desta primeira Missão MICE?
CAMARGO – Quisemos deixar o lançamento para esta missão justamente por ser a primeira que realizamos com foco em MICE. Também queríamos promover uma reunião de trabalho, como fizemos aqui.
É importante destacar que esta viagem não é um famtour. Não estamos aqui simplesmente para conhecer atrativos. Tudo foi planejado com objetivos profissionais. Queremos que os participantes vivenciem as experiências para depois multiplicar esse conhecimento dentro de suas agências.
Por exemplo, eles puderam experimentar quanto tempo leva para atravessar a fronteira com o Paraguai e agora podem comparar com o processo para chegar à Argentina. Como funciona a travessia? Quais são os procedimentos? Quanto tempo isso leva? Também teremos a experiência nas Cataratas e a visita aos novos espaços para eventos dentro do parque.
Queremos que eles conheçam as possibilidades e as limitações do destino. E, naturalmente, há também o objetivo de estreitar o relacionamento com os fornecedores.

PANROTAS – A Abracorp vem ampliando sua atuação em MICE, com um comitê dedicado, um fórum próprio e agora esta missão. O que motivou esse movimento?
CAMARGO – Temos 23 TMCs associadas, que representam praticamente 80% do volume de viagens corporativas do Brasil. São empresas consolidadas e reconhecidas nesse mercado. Só que muitas vezes uma viagem corporativa está diretamente relacionada a um congresso, uma feira, uma convenção ou uma viagem de incentivo. E nossas associadas também são grandes organizadoras desses eventos. O problema é que o mercado frequentemente associa a imagem de uma TMC apenas à gestão de viagens corporativas.
Queremos reforçar que elas são muito mais do que isso, que possuem um portfólio completo de serviços e uma força muito grande no segmento MICE. Existe ainda uma particularidade importante: muitas vezes, quem contrata a gestão de viagens corporativas dentro de uma empresa não é quem contrata os eventos. O atendimento de viagens pode estar vinculado às áreas de compras ou facilities, enquanto o orçamento de eventos fica com marketing ou recursos humanos.
São centros de custos diferentes, com responsáveis diferentes. Queremos que o contratante dos eventos perceba que, muitas vezes, sua própria empresa já possui uma excelente agência de viagens corporativas capaz de atender também a essa demanda. E o contrário também acontece. Há empresas que não utilizam uma TMC Abracorp na gestão de viagens, mas contratam uma de nossas associadas para organizar seus eventos.

PANROTAS – Qual é o tamanho do segmento MICE dentro das associadas? A Abracorp consegue mensurar seu faturamento e crescimento?
CAMARGO – Ainda não conseguimos apresentar um número preciso de faturamento de MICE por uma questão estatutária. Hoje, nosso BI considera as informações vinculadas ao CNPJ da empresa associada. Muitas TMCs possuem uma operação de eventos com um CNPJ separado e esses dados não são capturados pelo nosso sistema.
Por isso fazemos levantamentos internos. Sabemos que nossas associadas realizaram mais de 30 mil eventos MICE em 2025, considerando congressos, convenções, viagens de incentivo e outros formatos. E temos a expectativa de que esse volume seja maior em 2026.
PANROTAS – No Fórum MICE de julho, muito se falou sobre transformar eventos em ferramentas estratégicas para as empresas. Como as agências podem demonstrar o retorno desses investimentos?
CAMARGO – O principal é entender como medir o retorno sobre o investimento de um evento. E, nesse caso, não estamos falando necessariamente de um resultado financeiro direto. Um evento pode ter diferentes objetivos. Uma empresa pode organizar uma viagem de incentivo e avaliar o impacto na satisfação e na retenção dos funcionários. Outra pode fazer um encontro para apresentar uma nova ferramenta interna e depois medir se a utilização dessa ferramenta aumentou.
Também existem eventos de lançamento de produtos, congressos e ações de relacionamento. Cada um deles possui indicadores diferentes. O importante é que a agência tenha esse papel consultivo. Não basta receber um projeto, executar e entregar. Ela pode ajudar o cliente a definir o que pretende alcançar e como medir o sucesso da iniciativa.
PANROTAS – Voltando ao guia, quais práticas comerciais mais precisam mudar na relação entre clientes e agências?
CAMARGO – Uma das principais questões é a quantidade exagerada de concorrências e de agências participantes de uma mesma RFP. Às vezes, uma empresa quer contratar um projeto e convida 20 ou 30 agências para o BID. Todas precisam dedicar tempo e recursos para elaborar propostas, mas depois o cliente começa a reduzir o grupo até chegar a duas ou três finalistas. Por que não trabalhar desde o início com uma lista de fornecedores pré-selecionados, que tenham o perfil adequado para aquele projeto?
Além disso, muitas agências eliminadas nem sequer recebem um feedback. São práticas que acabam consumindo muito tempo de todos os envolvidos. Não podemos impor mudanças, mas queremos ajudar a educar o mercado. Mostrar que, se todos seguirem algumas boas práticas, o funcionamento de toda essa cadeia pode melhorar.
PANROTAS – Como a reforma tributária entra nessa discussão? Ela pode mudar a relação das empresas com os gastos em viagens e eventos?
CAMARGO – Esse é mais um exemplo da importância do papel consultivo das agências. Ainda existe muita incerteza no mercado sobre os efeitos da reforma tributária. Muitas empresas estão olhando para as mudanças e pensando apenas que sua carga tributária vai aumentar. Só que ainda é difícil medir quanto desse impacto poderá ser compensado por créditos tributários.
É uma oportunidade para as agências orientarem seus clientes. Despesas com serviços como transporte aéreo, locação de veículos e a própria prestação de serviços das agências podem gerar créditos, conforme as regras aplicáveis. Isso muda a maneira de analisar os custos. Uma viagem não deve ser vista simplesmente como uma linha de despesa, porque pode haver também um efeito tributário que precisa ser considerado.
Temos várias associadas promovendo encontros para explicar a reforma aos seus clientes. E isso é especialmente relevante para pequenas e médias empresas, que nem sempre possuem equipes internas dedicadas a estudar essas mudanças. As agências têm uma oportunidade importante de mostrar esse outro lado e ampliar sua contribuição para o cliente.
PANROTAS – O que podemos esperar da Abracorp em MICE em 2027? As missões e o fórum terão continuidade?
CAMARGO – Estamos planejando duas missões MICE para 2027, uma em cada semestre. Existe inclusive a possibilidade de as duas serem realizadas no Exterior, mas ainda estamos trabalhando nesse planejamento.
O Fórum MICE também está mantido e passa a fazer parte do calendário fixo da Abracorp. A próxima edição será novamente em São Paulo. Ainda estamos definindo a melhor data e anunciaremos em breve.
Vamos continuar trabalhando para fortalecer a atuação de nossas associadas no Turismo corporativo e ampliar o reconhecimento de sua capacidade no segmento MICE. Seguimos com uma expectativa positiva, apesar dos desafios que teremos no próximo ano. Queremos continuar crescendo e contribuindo para a melhoria do mercado. Esse é o papel que a Abracorp pretende exercer.
PANROTAS – Por que Foz do Iguaçu foi escolhida para receber a primeira missão? O que mais chamou a atenção da Abracorp?
CAMARGO – Quando começamos a discutir os destinos dentro do Comitê MICE, percebemos que muitos profissionais não visitavam Foz do Iguaçu havia bastante tempo. Ao mesmo tempo, todos ouviam falar das transformações pelas quais a cidade passou nos últimos cinco anos.

Estamos falando de investimentos importantes em infraestrutura, melhorias no aeroporto, ampliação da pista, duplicação de rodovias de acesso, expansão da hotelaria e dos espaços de convenções. Tudo isso sem contar os atrativos naturais que o destino já possui.
Também procuramos reunir diferentes parceiros para oferecer o máximo de informações aos participantes. Temos a hotelaria, o receptivo, o destino, o Viaje Paraná, a companhia aérea e a concessionária do aeroporto. Queremos que os associados tenham condições de avaliar Foz do Iguaçu para futuros projetos.
PANROTAS – Qual foi o critério para selecionar os participantes da missão?
CAMARGO – Tivemos o cuidado de trazer profissionais que ocupam posições de liderança e têm poder de decisão nas áreas de eventos das nossas associadas.
São pessoas que participam diretamente da elaboração dos projetos, que recebem uma RFP, desenvolvem uma proposta e a apresentam ao cliente. Não queríamos simplesmente profissionais responsáveis pela execução de algo que já foi definido.
Algumas associadas possuem departamentos de MICE dentro da própria agência, enquanto outras trabalham com empresas separadas, com outro CNPJ e até outra marca. Independentemente do formato, procuramos reunir quem realmente está à frente dessa atividade.