Pedro Menezes   |   29/07/2026 09:28

Comissão Europeia quer ampliar mercado de carbono para voos internacionais; entenda

Passageiros que utilizam conexões em aeroportos europeus poderão enfrentar aumento indireto de custos


Divulgação
Hoje, o EU ETS já se aplica aos voos realizados dentro do Espaço Econômico Europeu
Hoje, o EU ETS já se aplica aos voos realizados dentro do Espaço Econômico Europeu

A Comissão Europeia apresentou uma proposta para ampliar a aplicação do Sistema de Comércio de Emissões da União Europeia (EU ETS) para parte dos voos internacionais. O mecanismo da União Europeia foi criado para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

O EU ETS funciona com a lógica do "cap and trade" ("limite e comércio"). A União Europeia estabelece um limite máximo (cap) para a quantidade de CO2 que determinados setores podem emitir. Com isso, cada empresa recebe ou compra licenças de emissão, sendo que cada licença dá direito a emitir 1 tonelada de CO2.

A iniciativa, que ainda precisa ser aprovada pelas instituições europeias, é alvo de críticas de entidades do setor aéreo, como a Associação Latino-Americana e do Caribe de Transporte Aéreo (Alta), que afirma que a medida pode aumentar custos, criar sobreposição regulatória e afetar a conectividade entre América Latina e a Europa.

Hoje, o EU ETS já se aplica aos voos realizados dentro do Espaço Econômico Europeu. Como parte do pacote climático "Fit for 55", a União Europeia eliminou gradualmente as permissões gratuitas de emissão para as companhias aéreas. A partir de 2026, as empresas passam a pagar integralmente pelas emissões de carbono geradas nos voos intraeuropeus.

Agora, a Comissão Europeia propõe um novo passo: estender a cobrança de carbono para voos internacionais que partam da Europa Central e tenham como destino aeroportos localizados em um raio de até 5 mil quilômetros. Caso a proposta seja aprovada, a nova regra entraria em vigor em 2029.

Na prática, boa parte dos voos diretos entre a América Latina e a Europa permaneceria fora do alcance da medida devido à distância superior a 5 mil quilômetros. No entanto, rotas que utilizam hubs europeus como conexões, estratégia comum para passageiros latino-americanos que seguem para destinos secundários na Europa, Oriente Médio, África e Ásia, poderiam ser impactadas pelos novos custos.

Entidades criticam sobreposição ao sistema global da Oaci

Caso outras regiões do mundo adotem medidas semelhantes, a aviação internacional poderá enfrentar diferentes sistemas de precificação de carbono
Caso outras regiões do mundo adotem medidas semelhantes, a aviação internacional poderá enfrentar diferentes sistemas de precificação de carbono

A Alta manifestou oposição à proposta e alinhou seu discurso ao de outras entidades internacionais, como Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), Associação Internacional de Transporte Aéreo, Airlines for America (A4A), Airlines for Europe (A4E) e a Arab Air Carriers Organization (AACO).

A principal preocupação é que a iniciativa europeia criaria uma sobreposição com o CORSIA (Carbon Offsetting and Reduction Scheme for International Aviation), mecanismo global aprovado pelos países membros da OACI para compensação e redução das emissões da aviação internacional.

Segundo a entidade, isso obrigaria as companhias aéreas a monitorar, reportar e verificar as mesmas emissões em dois sistemas distintos, elevando custos operacionais e burocráticos sem gerar reduções adicionais de carbono. Além disso, a proposta teria caráter extraterritorial ao considerar emissões ocorridas fora do espaço aéreo europeu, em territórios pertencentes a outros Estados soberanos.

Outro ponto levantado é o risco de criação de um precedente regulatório. Caso outras regiões do mundo adotem medidas semelhantes, a aviação internacional poderá enfrentar diferentes sistemas de precificação de carbono, tornando o ambiente regulatório ainda mais complexo.

Conectividade pode perder competitividade

Pixabay
 Alta alerta que passageiros que utilizam conexões em aeroportos europeus poderão enfrentar aumento indireto de custos
Alta alerta que passageiros que utilizam conexões em aeroportos europeus poderão enfrentar aumento indireto de custos

Embora os voos diretos entre América Latina e Europa devam permanecer isentos pela limitação geográfica da proposta, a Alta alerta que passageiros que utilizam conexões em aeroportos europeus poderão enfrentar aumento indireto de custos. Na avaliação da associação, isso pode reduzir a competitividade das companhias aéreas latino-americanas e afetar a conectividade internacional da região.

"Para a Alta, o rumo é claro. Estamos comprometidos com as metas globais de redução de emissões e com o caminho rumo ao net zero, mas fortalecendo o marco regulatório que já existe, e não duplicando-o. Com a mesma determinação, estamos comprometidos em proteger a conectividade e a sustentabilidade econômica de uma indústria que precisa ser rentável para continuar sendo um motor de desenvolvimento e bem-estar para a América Latina e o Caribe. São dois objetivos igualmente importantes: o desafio não é escolher entre eles, mas encontrar o equilíbrio"

CEO da Alta, Peter Cerdá

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Sobre o autor

Natural do Rio de Janeiro, Pedro Menezes é bacharel em Comunicação Social/Jornalismo e atua há 12 anos na imprensa especializada em Turismo. Atualmente, é editor do maior portal brasileiro voltado a profissionais do setor, com base em São Paulo. O jornalista tem experiência em cobertura nacional e internacional de feiras, congressos e eventos, além de pautas de política e economia ligadas ao Turismo.