Cinco principais riscos que irão marcar o setor aéreo em 2026, segundo a Iata
Em termos de lucro por passageiro, o resultado líquido esperado para o setor equivale a US$ 7,90 em 2026

Em artigo, a Iata destaca os riscos que irão afetar o setor em 2026. Mesmo com um 2025 que se iniciou desafiador para o transporte aéreo, a associação aponta que as companhias registraram lucros líquidos recordes de US$ 39,5 bilhões.
Para este ano, a expectativa é de 3,9% de crescimento, posicionando, segundo a entidade, como um dos setores com as margens mais baixas.
Confira destaques abaixo:
"Em janeiro de 2025, a indústria de transporte aéreo enfrentava ventos contrários significativos, principalmente a ameaça de tarifas e a possível retaliação que elas poderiam provocar.
Neste ambiente desafiador, ainda assim as companhias aéreas registraram lucros líquidos recordes de US$ 39,5 bilhões. É importante destacar, no entanto, que em um único ano uma única empresa petrolífera pode obter tanto lucro quanto todo o nosso setor de aviação. Ao observar as margens líquidas, o quadro parece ainda mais frágil. Com uma expectativa de 3,9% em 2026, o setor aéreo continua sendo um dos setores com as margens mais baixas, nunca tendo registrado uma margem de lucro líquido acima de 5%. Em termos de lucro por passageiro, em dólares, o resultado líquido esperado para o setor equivale a US$7,90 - abaixo do que a Apple ganha com a venda de uma única capa para iPhone.
Cenário de riscos
Em 2026, os riscos são abundantes. Ter uma visão clara do que eles podem acarretar é fundamental para o planejamento e a tomada de decisões, bem como para compreender o impacto que podem ter sobre as companhias aéreas. Cinco áreas se destacam de forma especial no próximo ano:
1. Fragmentação de políticas
O sistema multilateral pós-Segunda Guerra Mundial está enfraquecido, com a fragmentação talvez mais visível ocorrendo no comércio internacional. Políticas do tipo “eu primeiro” estão sendo adotadas com pouca preocupação com seu impacto nas redes globais, sejam cadeias de suprimentos ou setores específicos, como o transporte aéreo.
As instituições internacionais também estão sendo contornadas, o que ameaça desfazer os 80 anos de harmonização global promovidos pela Organização da Aviação Civil Internacional (OACI). Diferentes arcabouços agora competem para determinar como lidar com as emissões de CO2 do transporte aéreo. Políticas tributárias fragmentadas introduzem graves distorções competitivas que se espalham por toda a rede global, mesmo quando a medida parece ter um foco local. Essas políticas arrecadam pouco para os governos, têm pouco ou nenhum impacto sobre as emissões e tornam o transporte aéreo mais caro.
2. Interrupções na cadeia de suprimentos
Há um backlog persistente e em nível recorde de encomendas de aeronaves. Embora a situação tenha começado a melhorar, o descompasso entre as necessidades das companhias aéreas e a capacidade de produção não deve ser resolvido antes de 2031-2034. Isso limita negativamente o crescimento do setor, mas ao mesmo tempo protege as receitas unitárias, à medida que os fatores de ocupação das aeronaves atingem os níveis mais altos da história da aviação. De forma mais preocupante, essa situação interrompeu os avanços na melhoria da eficiência de combustível em toda a frota global e desacelera a descarbonização do setor.
3. Disrupções relacionadas às mudanças climáticas
Perturbações como eventos climáticos extremos e oscilações nos preços das commodities podem afetar a agricultura, a infraestrutura, o comércio global e os fluxos de investimento. Uma transição energética bem-sucedida para as companhias aéreas que buscam alcançar emissões líquidas zero de carbono até 2050 requer políticas estáveis e financiamento confiável. A redução do compromisso de enfrentar as questões climáticas de maneira coordenada em nível global certamente vai desacelerar o progresso em todas essas frentes.
Os riscos associados incluem maior insegurança alimentar e hídrica e, consequentemente, aumento da migração. No entanto, o mundo se tornou mais hostil à imigração. A decisão dos países de acolher ou não os migrantes pressionará as fronteiras e os sistemas de apoio, impactando os passageiros do transporte aéreo internacional.
4. Ameaças cibernéticas e inteligência artificial
As ameaças cibernéticas estão crescendo tanto em frequência quanto em relevância . Também observamos uma convergência de riscos e vulnerabilidades com a inteligência artificial (IA) aumentando as capacidades dos invasores, a instabilidade geopolítica proporcionando um terreno fértil e a dependência digital expondo as cadeias de suprimentos e as organizações a riscos maiores.
A dependência da indústria aérea em infraestruturas críticas torna a rede global de transporte aéreo particularmente exposta, assim como ocorre com outros setores baseados em redes. A IA acrescenta riscos relacionados à desinformação, à perda de privacidade e à erosão da confiança, além daqueles que podem gerar perturbações econômicas, deslocamento de empregos e maior desigualdade. Evidências de que a IA gera lucros substanciais e aumento da produtividade ainda são escassas e podem levar anos para se materializar.
5. Perspectivas macroeconômicas
O valor externo do dólar americano é importante para a economia global devido à sua participação dominante nos pagamentos transfronteiriços. No muito longo prazo, o dólar americano é uma moeda com tendência à desvalorização. Atualmente, o Federal Reserve está em um ciclo de corte de juros, e a incerteza global tem favorecido, de forma bastante singular, outros ativos de refúgio, como o ouro e o franco suíço. Somando-se a isso a falta de dinamismo da economia dos EUA, os persistentes déficits orçamentários e em conta corrente e possíveis maiores reservas em relação às avaliações do mercado acionário americano, o dólar americano parece muito mais propenso a continuar sua desvalorização em 2026.
Um dólar mais fraco tende a beneficiar todos os países cuja base monetária não é o dólar, pois eles pagarão menos, em moeda local, por suas dívidas e transações denominadas em dólares. Isto é particularmente importante para o transporte aéreo, onde mais de 50% da estrutura de custos é faturada em dólares americanos.
Ao mesmo tempo, o mercado do petróleo está passando por uma grande mudança estrutural, à medida que a demanda está mudando em resposta à eletrificação e ao maior uso de gás natural liquefeito (GNL) no transporte rodoviário. As mudanças geopolíticas também terão um papel importante. A oferta está se expandindo mesmo com a desaceleração da demanda, levando ao aumento dos estoques e pressionando os preços para baixo - o que, mais uma vez, é uma boa notícia para as companhias aéreas.
O risco de uma desaceleração econômica severa em 2026 parece limitado, a menos que tenhamos subestimado o efeito combinado desses riscos e vulnerabilidades convergentes mencionados acima ou que ocorram eventos imprevistos. Ainda assim, este não é um ambiente particularmente favorável ao crescimento e é improvável que o crescimento do PIB global acelere. Além disso, dada essa convergência de riscos, a margem de manobra é menor, o que torna erros de política econômica mais prováveis"