Falta de mão de obra especializada afeta setores do Turismo

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Há uma nova crise instaurada na indústria de Turismo no Brasil e no mundo. Um desafio que chega a ser risível perto do calvário dos piores períodos de pandemia, mas ainda assim algo a se resolver para que a retomada das vendas e das viagens dê conta de suprir o longo período de seca. Está faltando mão de obra especializada.

PANROTAS / Emerson Souza
Mariana Aldrigui, responsável pelo painel Monitora Turismo, feito para acompanhar a movimentação do setor no Brasil
Mariana Aldrigui, responsável pelo painel Monitora Turismo, feito para acompanhar a movimentação do setor no Brasil
As primeiras queixas foram em relação aos fornecedores, ainda no meio de 2021, quando as fronteiras estavam começando a se abrir e o consumidor, vacinado, se encorajava a curtir as férias fora de casa. Em setembro, Simon Mayle, diretor de duas das principais feiras de Turismo de luxo da região, ILTM Latin America e ILTM North America, já alertava que o serviço nos hotéis, no início da retomada das viagens, estaria aquém do que o viajante de maior poder de consumo está habituado. Pediu paciência e pre viu que essa seca no atendimento se estenderia até pelo menos o fim deste ano.

Agora já deixou de ser surpresa quando empresas registram vendas superiores ao período pré-pandemia, mas a realidade poderia ser ainda melhor se as equipes de operadoras, consolidadoras, agências de viagens e outros segmentos estivessem com a mesma quantidade de funcionários do que em 2019, antes da deflagração da crise. Uma das empresas de maior visibilidade do momento, a BeFly ilustra esse aspecto. Está crescendo, mas sente que poderia acelerar essa escalada. Em janeiro, anunciava mais de 100 vagas para Tecnologia, Vendas, Trade, BI, Suporte ao Cliente, Projetos, Inovação e Customer Success. No mês seguinte, mais 30, para início imediato em Belo Horizonte. Em maio, mais 100 vagas abertas pela Flytour Business Travel e 20 pela Flytour Consolidadora. "Esperamos que este momento de ápice não se vá tão cedo. Todo mundo está com dificuldade em atendimento, com falta de equipe, mas vamos melhorar a cada dia", afirmou o CEO da BeFly.

O Grupo Despegar (Decolar) também foi evidência ao anunciar mais de 100 vagas de uma vez no Brasil, no fim de abril, tal como a Hurb, no fim de maio, que abriu 80. ViagensPromo, Orinter, Diversa, Agaxtur e Interep também foram operadoras com vagas anuncia - das, mas isso só para citar algumas, pois há TMCs, empresas de tecnologia e uma recrutadora para o setor de cruzeiros que oferece mais de 1 mil vagas para a alta temporada.

OFERTAS NÃO ATRAEM O SUFICIENTE
Tantos desligamentos no início da pandemia deixaram desempregados vários profissionais com experiência no Turismo. Experientes e apaixonados. Então, onde eles estão?

“Há muitas vagas abertas, mas tem sido complicado equacionar a competência solicitada com os baixos salários oferecidos", explica a pesquisadora da USP e presidente do Conselho de Turismo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), Mariana Aldrigui, responsável pelo painel Monitora Turismo, feito para acompanhar a movimentação do setor no Brasil. "Bons candidatos têm encontrado melhores opções em outros setores, e esse é um problema sério, pois vai baixar ainda mais nossa produtividade”, alerta a especialista.

Ainda assim, o Monitora Turismo mostra que maio, último mês em que a pesquisa foi feita, foi o melhor mês do ano na geração de empregos no Turismo. Tendo recuperado, em termos numéricos, o índice de vagas formais perdidas como efeito da pandemia (registrado em outubro de 2021), a indústria registra variações importantes desde então, refletindo agora outras questões importantes: o desafio no preenchimento de novas vagas e as incertezas no ambiente econômico.

"Por mim eu não teria saído do Turismo, mas a situação me levou a isso", ilustra Valter Sampaio, que em 2020 estava na Transeuropa. "Chegou a pandemia e, com o cenário ainda nebuloso, eles fecharam o escritório em São Paulo e fomos para o modelo home office. Temendo que o pior acontecesse no Turismo, investi em um utilitário e estou trabalhando no setor de transportes", completa o profissional, que entrou no Turismo em 1990, cresceu com passagens por grandes empresas como a operadora Visual e... sente saudade.

"É um setor com o qual me identifico muito, mas infelizmente tive de correr para algum lado, em busca de sustento para a família. Como o setor de cargas não parou na pandemia, acredito que a solução tenha sido boa. Continuo firme, forte e lucrativo, ainda que o diesel tenha subido tanto. Foi uma decisão acertada, pois não fiquei nenhum momento sem trabalho nesses dois anos, e vejo amigos no Turismo que não se adaptaram a tempo", completa Sampaio, que não pensa duas vezes ao admitir: "uma proposta para voltar ao Turismo me balançaria".

Quem não balançaria é Michael Bonilha, também de São Paulo. Com menos tempo e menos entusiasmo em relação ao setor, o profissional entrou na indústria em 2010, trabalhou na CVC e na Flytour Viagens, de onde saiu como executivo de Produtos na região do Caribe e México.

"O Turismo no Brasil ainda não paga bem comparado a outros setores. Na área de tecnologia paga-se muito bem, e diversas outras áreas são mais estruturadas, com plano de carreira, coisa que muitas vezes não encontramos no Turismo. Planos e perspectivas motivam profissionais", justifica Bonilha, que fez cursos de tecnologia e ingressou na área.

"Estou bem afastado do Turismo. Tenho conversado pouco com as pessoas do setor. É uma área muito prazerosa de trabalhar, mas infelizmente sua volatilidade é muito alta e é um setor muito sujeito a variáveis como crises internacionais, câmbio, questões climáticas. Estou muito bem trabalhando com testes de software. Eu diria que é uma relação de amor e ódio (a que tenho) com o Turismo."

Há dissidências também entre agentes de viagens. Muitos profissionais que se tornaram consultores independentes após a deflagração da crise, mas também tem quem preferiu simplesmente abandonar um setor que se viu em frangalhos pela pandemia.

"Fiquei um ano e meio sem vender nada. Quando fui vender um pacote, veio a segunda onda, seguida de boatos da quebra de grandes empresas, como a Master (operadora de Minas Gerais). Tive um prejuízo de quase R$ 10 mil, que fornecedores não quiseram reembolsar, mas vendo a situação de outros agentes à época, considero que foi até pouco", relata a mineira Lilian Jeronimo, com experiência de duas décadas de Turismo.

"Não é falta de perspectiva, e sim falta de segurança. Não ter a certeza de que as operadoras embarcarão meus passageiros daqui um ano não me deixa dormir tranquila. Trabalhar com couro está me dando mais segurança e dinheiro", afirma a profissional, que se integrou ao negócio da família e começou a fazer produtos em couro.

"Cerca de 90% das amigas da minha idade no Turismo aqui em Minas Gerais estão em home office, trabalhando por conta própria. O salário que estão oferecendo nas empresas é ridículo. Não existe falta de mão de obra, e sim o empregador achando que somos trouxas. Trabalhar das 10 às 22h, fim de semana e feriado... Não se sustenta", conclui Lilian, que já trabalhou na Varig e uma operadora antes de se tornar agente.

Turismo é uma indústria feita de pessoas e, sem talentos disponíveis no mercado, mais chance é dada para que o fator humano seja escanteado na intermediação das vendas, por exemplo. Se a realidade é dura, as perspectivas não são tão aliviadoras. A graduação em Lazer e Turismo é uma das que mais tem evasão de estudantes na Universidade de São Paulo (USP), como conta a estudante Manoella Soares. "Tanto os alunos quanto os empregadores não estão colocando investimento nisso. O sentimento é de desânimo sobre as perspectivas do setor. Vejo muitos colegas inseguros", afirma a graduanda de 22 anos, no quinto semestre, que faz estágio em uma startup do setor.

"Sou uma das poucas que atuo na minha área e levo o Turismo a sério. Muitos colegas que atuam estão trabalhando em outras áreas, assim como muito profissional graduado em outros cursos atuam no Turismo", completa.

Recém-formado no mesmo curso, na mesma universidade, Reynaldo Cesar de Oliveira, de 24 anos, já trabalhou na agência de Mice Incentivare, na Agaxtur e em duas agências de viagens menores, mas hoje atua no setor jurídico, em um grande escritório de advocacia. Não era o que ele sonhava quando passou no vestibular de Lazer e Turismo, mas é onde as circunstâncias (e o bolso) o levaram.

"Saí do Turismo antes mesmo da pandemia, pois tive um problema de saúde que me fez tornar portador de deficiência. A primeira coisa que me fez sair da área foi a falta de engajamento dos empregadores em atender PCDs. Senti que o tratamento que passaram a me dar não era o adequado. Achei fora do Turismo lugares que me acolheram", relata Oliveira. "Ainda assim, considero o Turismo um mercado muito instável e extremamente sensível a crises no Brasil e no mundo. Eu como uma pessoa com deficiência negra, de periferia, preferi optar por algo mais estável e o encontrei no escritório de advocacia onde trabalho."

O jovem profissional, no entanto, não desistiu totalmente do Turismo. "Propostas surgiram no início deste ano, mas foram cobertas pelo meu empregador atual, que me ofereceu uma série de benefícios. Um dia pretendo juntar minhas experiências em um só lugar e trabalhar em algum projeto que discuta o Turismo inclusivo. Vejo o setor de Mice muito focado em luxo e high scale, sem muito debate sobre inclusão."

Por fim, Reynaldo Cesar de Oliveira diz que, dos colegas que continuaram no Turismo, a maioria foi de manutenção de carreira de onde faziam estágio. "A USP tem engajamento forte com empresas como Teresa Perez e Selections. Tenho amigos que desde a faculdade estão lá e lá permaneceram após a formatura. Dos outros que se mantiveram no Turismo, a maioria é na área acadêmica."

MAIO É O MELHOR MÊS DO ANO
Considerando os primeiros cinco meses de 2022, maio apresentou o melhor resultado no número de vagas formais, demonstrando o otimismo em relação às viagens de negócios e eventos, e o atendimento à demanda reprimida em 2021. Foram 39% mais vagas em relação a abril e 4% mais que fevereiro, o segundo melhor mês do ano, até agora. Dados do Monitora Turismo.

Nos destinos com foco específico de lazer, o retorno das atividades escolares diminuiu a presença de famílias, e o efeito da inflação no orçamento de pessoas físicas e jurídicas já está afetando as perspectivas da demanda nos meses de inverno.

Para Mariana Aldrigui, autora da pesquisa, “há um conjunto de informações novas que devem ser consideradas, e a comparação com 2020 e 2021 não nos traz informações relevantes – já que a base de comparação é frágil numericamente, e o contexto é incomparável.”

Destinos com maior oferta de espaços para eventos registram resultados significativamente melhores que aqueles em que o apelo de lazer é mais forte.

REVISTA PANROTAS
Esta matéria faz parte da Revista PANROTAS que circula nesta semana, de número 1.527. Confira os gráficos que contêm nela e as outras reportagens na edição digital logo abaixo.



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