Recuperação da hotelaria no Brasil é otimista, mas cautelosa

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Unsplash/Marten Bjork
Índices básicos como demanda e ocupação já dão a impressão de recuperação do setor
Índices básicos como demanda e ocupação já dão a impressão de recuperação do setor
Com otimismo, mas cauteloso. O presidente executivo do Fohb (Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil), Orlando de Souza, adotou esse tom quando perguntado sobre a recuperação do setor de viagens no País. “Acreditamos que há, sim, uma retomada sustentada do Turismo em geral e da hotelaria, mas ainda não sabemos bem quando os resultados serão equivalentes ao que tínhamos antes da pandemia”.

A ponderação do executivo leva em consideração tanto os bons índices de ocupação, que os hotéis já têm no País, como também as projeções mais conservadoras, responsáveis por revelar um longo caminho até que os resultados do segmento sejam compatíveis com os que havia antes da pandemia. Segundo Souza, índices básicos como demanda e ocupação já dão a impressão que o setor experimenta bons ventos novamente. Mas a análise ideal precisa considerar outros fatores. Se por um lado os índices de ocupação já começam a chegar a patamares de 2019, outros indicadores não têm acompanhado essa performance, o que cria um descompasso quando se fala em recuperação de fato.

O detalhamento da observação feita pelo líder do Fohb está em uma recente pesquisa feita em parceria com a HotelInvest. Recolhendo dados de estabelecimentos ligados às 19 redes associadas ao fórum hoteleiro, o levantamento “Orçamento 2022 e Recuperação” aponta que 21 das 26 principais praças hoteleiras do Brasil tiveram, em setembro, média de quartos ocupados superior a 50%, o que é bem significativo para um ramo que chegou a ter nesse mesmo recorte, porcentagens de um dígito em alguns meses no ano passado.

PANROTAS / Emerson Souza
Orlando de Souza, presidente executivo do Fohb
Orlando de Souza, presidente executivo do Fohb
O dado positivo, contudo, não se repete quando a análise é feita a partir do valor cobrado pelas diárias. No mesmo mês de setembro, 23 das cidades analisadas cobraram, na média, tarifas mais baixas do que aquelas que eram praticadas em 2019 no mesmo mês. Com isso, apenas seis dos mercados analisados na pesquisa conseguiram ter índices de revpar (indicativo que calcula a receita gerada por apartamento disponível) superiores aos de 2019, comparando setembro dos dois anos.

Já no recorte das capitais brasileiras observadas, a comparação entre fevereiro de 2020, um mês antes do decreto de pandemia, e setembro deste ano mostra recuo de 26 pontos percentuais na média das tarifas praticadas.

A partir desses índices fica mais fácil compreender que, embora os quartos desses hotéis voltem a ser ocupados, é preciso mais que isso para decretar que a retomada é uma realidade, pelo menos do ponto de vista da rentabilidade e da sustentabilidade do negócio. “O importante mesmo para esses meios de hospedagem é o balanço que se faz entre ocupação e diária média para que comecemos a ter resultados parecidos com os de antes da pandemia”, esclarece Souza.

O mesmo relatório também fez uma projeção de recuperação do revpar, conforme apontou o dirigente do Fohb. Nessa observação, o estudo elencou três cenários: otimista, moderado e conservador. Na conjuntura otimista, os índices voltam ao pré-pandemia em setembro de 2022. No cenário moderado esse momento chega em maio de 2023 e no horizonte conservador (ou pessimista) o índice só volta a ser parecido com o visto em 2019 no prazo de quatro a cinco anos.

E NO LAZER?
Em outra vertente do cenário hoteleiro do Brasil, as impressões são bem parecidas. Presidente do Conselho da Resorts Brasil (que tem 55 propriedades associadas), Sérgio Souza, faz questão de salientar que nos empreendimentos que atendem o Turismo de lazer as operações como eram antes estão cada vez mais próximas. Souza, que além de líder associativo também é diretor Comercial do Casa Grande Resort, no Guarujá (SP), conta que, desde a segunda metade do ano passado, quando boa parte dos resorts brasileiros reabriram, após algum tempo fechados em virtude da pandemia, os empreendimentos desse tipo vivem um ciclo crescente na chegada de viajantes. Esse movimento, tal qual uma espiral crescente, vive agora o seu melhor momento e passará pelo seu maior teste, com a chegada da temporada de verão.

PANROTAS / Emerson Souza
Sérgio Souza, da Resorts Brasil
Sérgio Souza, da Resorts Brasil
A associação espera chegar até o fim do ano para apresentar o balanço de 2021, mas a impressão, segundo comenta a liderança, é de movimentação bem parecida com o que era visto há dois anos.

Os resorts, nesse sentido, tiram proveito do seu apelo com os turistas de lazer, que é quem sustenta a volta das viagens no Brasil. “Sabemos que o Turismo de lazer é fundamental nesse momento e a tendência, principalmente levando em conta o cenário atual, é que na temporada de verão consigamos alcançar índices que indiquem o caminho para 2022”, aponta.

O cenário citado pelo representante da Resorts Brasil leva em consideração o câmbio desfavorável, com a moeda brasileira pouco valorizada frente ao dólar, e as restrições sanitárias que alguns países ainda impõem para viajantes vindos do Brasil. Essa conjuntura, segundo aponta o executivo, tende a fazer o público que viajaria ao Exterior procurar resorts brasileiros e se somar aos que geralmente já preferem o Turismo doméstico.

Dessa maneira, segundo prevê Souza, a alta temporada deve gerar boa movimentação e suprir a lacuna deixada pela falta de eventos corporativos em resorts, até que esse voltem com mais força, depois de fevereiro do ano que vem.

HOTELARIA INDEPENDENTE E NACIONAL
Um outro ponto de vista ainda mais abrangente vem da ABIH Nacional (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis) que representa empreendimentos de rede e independentes de todos os Estados brasileiros. De acordo com o presidente da associação, Manoel Cardoso Linhares, apesar da recuperação nos últimos meses, os números na maioria dos destinos do País ainda estão abaixo dos níveis pré -pandemia e a previsão é que os resultados obtidos em 2019 sejam alcançados somente daqui a um ano.

“Segundo levantamento feito pela ABIH Nacional, há destinos que estão com ocupação hoteleira semelhante ao período de antes da pandemia, com alguns lugares chegando a registrar até 90% de unidades reservadas. Mas outros, anos anteriores”, sintetiza Linhares.

O executivo pondera que nos hotéis vinculados à ABIH a lógica da hotelaria de lazer estar à frente também se repete, principalmente em destinos menores, com destaque para aqueles próximos aos grandes centros, acessíveis pela malha rodoviária.

O presidente da associação hoteleira considera ainda que esse momento pode ser visto como uma janela de oportunidades para que o segmento seja mais ouvido e representado politicamente. “Estamos diante da oportunidade de finalmente fazer o Turismo e a hotelaria ocuparem o lugar de destaque que merecem em nosso País”, afirma.

O QUE ESPERAR DE 2022?
Já pensando no que se apresenta para o ano que vem, os líderes ouvidos pela PANROTAS apontaram algumas ações que podem ser necessárias para hoteleiros e demais profissionais do setor. Nesse sentido, Orlando de Souza, do Fohb, aconselha que um gestor hoteleiro em 2022 precisará avaliar com mais cuidado as ações e os números gerados pelo empreendimento. “Os gestores seriam avaliados pela capacidade de geração de resultados para o hotel. Isso vai falar sobre a competência desse profissional”, diz.

Já para o representante da Resorts Brasil as chaves do momento são a flexibilidade e a capacidade de prestar bom serviço. “Hoje é importante entendermos que precisamos nos adaptar em velocidade maior, considerando que o público mudou e tem mais informações e opções. O viajante quer agora um bom atendimento e qualidade na experiência, desde a reserva com o agente de viagens até durante a estada, já dentro do hotel ou resort”, aponta.

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