Armadoras veem espaço para o Brasil crescer na disputa global por cruzeiros
Executivos destacam mercado brasileiro, operação e retorno como fatores para a expansão

BRASÍLA (DF) - A decisão de onde posicionar um navio de cruzeiro envolve uma série de variáveis, do potencial de passageiros ao custo da operação. Esse foi o ponto de partida do painel que reuniu executivos de MSC Cruzeiros, Costa Cruzeiros, NCL (Norwegian Cruise Line) e Royal Caribbean no Fórum Clia 2026, em Brasília.
Adrian Ursilli, da MSC; Renê Hermann, da Costa; Estela Farina, da NCL; e André Pousada, da Royal Caribbean, discutiram como as companhias avaliam os mercados e quais características podem fazer o Brasil ganhar espaço no planejamento global das armadoras.
Uma decisão que começa anos antes
Adrian Ursilli explicou que o posicionamento dos navios é definido com bastante antecedência. Segundo ele, as companhias trabalham com planejamento de dois a quatro anos, período necessário para organizar tanto a operação quanto as vendas.

A antecedência também explica por que mudanças regulatórias ou tributárias próximas da temporada podem ser especialmente problemáticas. Quando uma nova regra entra em vigor, o roteiro pode já estar amplamente comercializado.
"Nós, empresas, também começamos a vender dois anos antes. Se eu recebo algum impacto ou uma surpresa hoje, para começar em seis meses a vigência de uma nova lei, uma nova norma, de um novo imposto, ou de um novo documento que tem que ser emitido, lembre-se: a temporada, em muitos casos, já está 60%, 85% vendida"
Adrian Ursilli
Para Ursilli, a previsibilidade é importante não apenas para as companhias, mas também para os destinos. Com a programação definida com antecedência, portos, terminais e fornecedores conseguem saber quando o navio chegará, quantos passageiros serão transportados e como a operação deverá ser preparada.
O retorno está no centro da decisão
Renê Hermann levou a discussão para a dimensão financeira da escolha. Segundo ele, um navio novo representa um investimento de US$ 1 bilhão a US$ 1,5 bilhão, e o retorno desse capital é uma variável central para os investidores das companhias.
Por isso, o Brasil não disputa navios apenas com outros destinos da América do Sul. As mesmas embarcações podem ser direcionadas ao Caribe, à Europa, a Dubai ou às Ilhas Canárias, por exemplo.

"Por trás desses navios, por trás das empresas, Costa, Royal, NCL, MSC, tem investidores. E esses investidores querem ver eficiência no retorno", aponta o executivos da Costa Cruzeiros.
Hermann citou a própria movimentação da frota da Costa como exemplo de como essa conta influencia o posicionamento. Segundo ele, navios que estavam no Brasil foram posteriormente destinados a outros mercados.
Nesse cálculo entram diferentes componentes:
- demanda e capacidade de vendas;
- custos trabalhistas e portuários;
- infraestrutura;
- impostos;
- segurança jurídica;
- previsibilidade da operação;
- capacidade dos destinos;
- potencial de retorno do itinerário.
Mercado brasileiro e suas vantagens
Apesar da comparação internacional, Estela Farina destacou que o Brasil tem características que o tornam relevante para as armadoras. A executiva citou o tamanho da população, a existência de uma classe média com demanda por viagens e a variedade de destinos como fatores que sustentam o potencial de crescimento.
Na avaliação de Estela, porém, o país precisa combinar esses atributos turísticos com condições que permitam às empresas operar e investir com previsibilidade. A executiva também apontou a segurança jurídica e a estabilidade política como elementos considerados por companhias internacionais na escolha dos mercados.
A América do Sul ainda ganhou um argumento adicional no painel. Ursilli destacou que, em um momento marcado por guerras, conflitos e instabilidades em diferentes regiões, o continente apresenta uma posição relativamente favorável em termos de segurança e estabilidade.
Para ele, essa característica pode ser uma vantagem competitiva da região na disputa por navios.

Navios cresceram mais que a infraestrutura
A evolução da frota também mudou a escala da operação. Hermann lembrou que a Costa trabalhava, décadas atrás, com navios muito menores do que os atuais. Segundo ele, embarcações que no passado transportavam algumas centenas de passageiros deram lugar a navios com capacidade muitas vezes multiplicada.
"A evolução dos nossos portos, a nossa infraestrutura, não é compatível com a evolução dos novos padrões de navios", aponta.
Ao mesmo tempo, o executivo ressaltou que o Brasil desenvolveu uma capacidade operacional que pode ser considerada uma vantagem.
Hermann citou uma operação realizada em Santos, na qual um navio com cerca de 5 mil a 6 mil passageiros concluiu o desembarque pela manhã e, em aproximadamente dez minutos, teve o mesmo espaço preparado para receber novos passageiros.
Para ele, esse tipo de operação mostra que o país também acumulou experiência e capacidade de adaptação ao longo dos anos.
Royal Caribbean avalia o mercado global
A ausência de um navio da Royal Caribbean dedicado à operação brasileira também foi questionada durante o painel. André Pousada explicou que o posicionamento é definido globalmente e que a companhia precisa comparar as oportunidades disponíveis em diferentes regiões.
O executivo lembrou que o grupo já possui atuação na América do Sul e realiza escalas no Brasil, mas que manter um navio em determinada região exige uma análise de longo prazo.

A lógica, portanto, não é apenas decidir se o Brasil é um mercado interessante. É avaliar se aquele navio específico terá melhor desempenho no país do que teria em outra região do mundo.
Uma cadeia que vai além do navio
Os executivos também destacaram que a operação de cruzeiros envolve uma cadeia muito maior do que as próprias companhias marítimas.
Ursilli ressaltou a importância da mão de obra brasileira e dos fornecedores locais para o funcionamento das temporadas. Segundo ele, quando uma companhia opera no Brasil, a atividade gera trabalho para profissionais envolvidos direta e indiretamente com os navios.
O debate também abordou a experiência dos passageiros em terra. Para as armadoras, não basta que o navio funcione bem: o destino precisa oferecer condições para que o visitante tenha uma boa experiência, com segurança, organização e estrutura para receber grandes volumes de pessoas.
A reportagem da PANROTAS viaja a convite da Clia Brasil