Filip Calixto   |   26/08/2026 14:10
Atualizada em 26/08/2026 14:35

Veja o perfil do cruzeirista brasileiro e quais os gargalos do setor no País

Temporada 2025/2026 teve retração de 21% no impacto, mas próxima prevê recuperação da frota

Lucas Meneses/Setur-AL
No total, o setor sustentou pouco mais de 72 mil postos de trabalho e gerou R$ 217,45 milhões em tributos na temporada\n\n
No total, o setor sustentou pouco mais de 72 mil postos de trabalho e gerou R$ 217,45 milhões em tributos na temporada\n\n

BRASÍLIA (DF) - A temporada brasileira de cruzeiros marítimos 2025/2026 movimentou R$ 4,76 bilhões na economia nacional, considerando as operações de cabotagem e os navios internacionais de passagem. O resultado representa uma queda de 21% em relação ao ciclo anterior, em um período marcado pela redução da oferta de embarcações.

Os dados fazem parte do Estudo de Perfil e Impactos Econômicos de Cruzeiros Marítimos no Brasil, realizado pela FGV (Fundação Getulio Vargas) em parceria com a Clia Brasil e apresentado durante o 8º Fórum Clia Brasil 2026, em Brasília. A parceria entre as duas instituições completa 15 anos de levantamento sobre a atividade de cruzeiros no País.

No total, o setor sustentou pouco mais de 72 mil postos de trabalho e gerou R$ 217,45 milhões em tributos na temporada.

Cabotagem responde pela maior parte do impacto

A operação de cabotagem, que envolve os navios que realizam cruzeiros com embarques e desembarques no Brasil, recebeu 602,8 mil cruzeiristas em 2025/2026. A atividade movimentou R$ 4,28 bilhões, sustentou 64,5 mil empregos e gerou R$ 166,3 milhões em tributos.

O resultado, porém, foi menor que o do ciclo anterior. Foram dois navios a menos em operação e uma redução de 28% no número de passageiros, que ficou 235.232 abaixo do registrado em 2024/2025.

A retração também apareceu no impacto econômico, que caiu 21%, e nos postos de trabalho sustentados pela atividade, com redução de 24%.

Segundo Marco Ferraz, presidente executivo da Clia no Brasil, os números mostram a relação direta entre a quantidade de navios disponíveis e o impacto gerado pelo setor.

"Os resultados mostram de forma muito clara que a oferta determina o tamanho do impacto gerado pelo setor. Tivemos dois navios a menos e uma redução de 28% no número de passageiros, o que significou menos recursos movimentados, empregos e tributos para o país”

Marco Ferraz

Dos R$ 4,28 bilhões movimentados pela cabotagem, R$ 2,28 bilhões vieram das despesas das companhias de cruzeiros no Brasil, enquanto R$ 2 bilhões foram gerados pelos gastos de passageiros e tripulantes durante a viagem, fora dos navios.

PANROTAS / Filip Calixto
Marco Ferraz apresentou os dados do estudo no Fórum Clia Brasil 2026
Marco Ferraz apresentou os dados do estudo no Fórum Clia Brasil 2026

Outro indicador do estudo mostra o efeito dessas despesas sobre a economia: para cada R$ 1 investido pelas companhias marítimas para viabilizar a temporada, R$ 3,89 foram movimentados na economia brasileira.

Na prática, o dinheiro circula por uma cadeia que inclui portos, transporte, hotéis, restaurantes, comércio, passeios turísticos, abastecimento, logística, operadoras e agências de viagens.

Onde os cruzeiristas gastam

O impacto não fica concentrado nos portos. Parte relevante dos recursos chega aos destinos visitados pelos passageiros.

Nas cidades de escala, cada cruzeirista gerou um impacto econômico de R$ 800,98, considerando os efeitos diretos, indiretos e induzidos. Já nos destinos de embarque e desembarque, onde os passageiros costumam permanecer e consumir por mais tempo, o valor chegou a R$ 962,55 por pessoa.

Entre os principais gastos de passageiros e tripulantes estão:

  • Alimentação e bebidas: R$ 627,1 milhões
  • Comércio varejista: R$ 605,5 milhões
  • Transporte antes ou depois da viagem: R$ 294,6 milhões
  • Passeios turísticos: R$ 248,1 milhões
  • Transporte durante a viagem: R$ 127,6 milhões
  • Hospedagem antes ou depois do cruzeiro: R$ 92,1 milhões

Alimentação e comércio, juntos, concentraram R$ 1,23 bilhão em gastos.

O estudo considera apenas as despesas realizadas no Brasil pelas companhias e o consumo de passageiros e tripulantes fora dos navios. O valor pago pelo cruzeiro e os gastos feitos a bordo não entram no cálculo do impacto econômico.

O tíquete médio da viagem foi de R$ 6,1 mil por passageiro, e a duração média dos cruzeiros ficou em 4,2 dias.

Empregos vão além dos navios

A atividade também gera empregos em setores que não estão diretamente ligados à operação das embarcações.

Dos 64.529 postos de trabalho sustentados pela temporada de cabotagem, 1,2 mil eram de tripulantes dos navios. Os outros 63,3 mil estavam distribuídos entre empregos diretos, indiretos e induzidos em diferentes segmentos da economia.

Isso significa que a movimentação provocada pelos cruzeiros chega a empresas e profissionais envolvidos em transporte, alimentação, hospedagem, comércio e serviços turísticos, entre outras atividades.

Navios de passagem somam mais R$ 480 milhões

Além dos cruzeiros de cabotagem, o Brasil recebeu 21 navios de passagem na temporada 2025/2026, pertencentes a 18 companhias.

Essas embarcações fizeram escalas em 35 destinos brasileiros, contabilizando 293,5 mil visitas de passageiros e 139,1 mil de tripulantes.

A operação acrescentou R$ 480,94 milhões à economia brasileira, cerca de 18% menos que no ciclo anterior. Também foi responsável por aproximadamente 7,5 mil postos de trabalho e R$ 51,15 milhões em tributos.

Somando cabotagem e navios de passagem, o setor chegou aos R$ 4,76 bilhões de impacto econômico.

Próxima temporada terá oito navios

A redução da oferta registrada em 2025/2026 deve ser parcialmente revertida no próximo ciclo. Entre 31 de outubro de 2026 e 9 de abril de 2027, oito navios estão previstos para operar na costa brasileira:

  • Costa Diadema
  • Costa Serena
  • Corazul Buenavista
  • MSC Virtuosa
  • MSC Splendida
  • MSC Divina
  • MSC Musica
  • MSC Seaview

A capacidade total prevista chega a 817,5 mil leitos, aproximadamente 24% acima da temporada anterior. Também estão programados 187 roteiros, contra 160 em 2025/2026, e 675 escalas, ante 617.

Os embarques e desembarques serão realizados em sete portos: Santos, Rio de Janeiro, Salvador, Maceió, Itajaí, Balneário Camboriú e Paranaguá.

Os roteiros também passarão por destinos como Angra dos Reis, Búzios, Ilha Grande, Ilhabela e Recife, além de incluir Buenos Aires, Montevidéu e Punta del Este.

Recuperação ainda depende de competitividade

A recomposição da frota acontece em um cenário internacional que favoreceu o reposicionamento de navios na região, mas a expansão da oferta brasileira ainda depende de fatores estruturais.

Entre os pontos que influenciam as decisões das companhias estão custos de operação, infraestrutura portuária, regras do setor, carga tributária e segurança jurídica.

Para Ferraz, a recuperação prevista para 2026/2027 precisa ser transformada em um movimento mais duradouro.

"A próxima temporada traz uma recomposição importante, mas precisamos trabalhar para que ela se transforme em tendência. Os navios disputados pelo Brasil também podem operar em outros mercados”

Marco Ferraz

Na avaliação da Clia, a manutenção e ampliação da presença de navios no País dependerão de maior previsibilidade para as empresas, infraestrutura adequada, custos competitivos e um ambiente regulatório alinhado ao mercado internacional.

A reportagem da PANROTAS viaja a convite da Clia Brasil

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Sobre o autor

Integrante da equipe PANROTAS desde 2019, atua na cobertura de Turismo com olhar tanto para as tendências do mercado quanto para histórias que movimentam o setor. Formado em Comunicação Social com ênfase em Jornalismo e também em Processos Fotográficos, formações que permitem colaborar de forma dupla com a redação - entre textos e imagens. Fora do trabalho, encontra inspiração no samba, no cinema, na literatura e nos esportes