Por que o Brasil está na moda e o que muda para agências e operadoras?
Revista Tendências do Turismo 2026 identifica 18 movimentos estruturais que moldam o comportamento atual

O Turismo mundial entra em 2026 em plena transformação estrutural. Mais do que um período de retomada e consolidação pós-pandemia, o setor passa por uma reorganização profunda das motivações de viagem, dos interesses dos viajantes, das experiência ofertadas e das estratégias de promoção internacional.
Nesse cenário, o Brasil surge como protagonista, não apenas como destino em crescimento, mas como um dos países mais alinhados às principais tendências globais do setor. É o que constata a 7ª edição da revista Tendências do Turismo 2026, elaborada pelo Ministério do Turismo em parceria com Embratur e Braztoa.
O documento identificou 18 movimentos estruturais que moldam o comportamento do viajante atual e orientam decisões estratégicas de destinos e empresas. A análise reúne dados internacionais, inteligência de mercado e leitura direta do setor privado brasileiro, consolidando uma visão integrada do futuro do Turismo.
Síntese possível para 2026: o Brasil virou tendência

A combinação entre diversidade cultural, natureza preservada, autenticidade territorial e expansão da conectividade aérea colocou o País no radar estratégico internacional. Apenas em 2025, o Brasil recebeu 9,3 milhões de turistas estrangeiros, crescimento de 38%, considerado o maior avanço global segundo a ONU Turismo e um recorde histórico para a indústria.
Paralelamente, a malha aérea internacional cresceu 34%, com aumento de 37,5% na oferta de assentos. Esse movimento muda o papel do País no mapa turístico mundial, segundo a publicação, já que o Brasil deixa de ser destino de nicho para tornar-se plataforma estratégica de experiências.
Outro indicador relevante reforça essa percepção internacional positiva: 90% dos visitantes estrangeiros afirmam que recomendariam o Brasil, enquanto apenas 2% relatam avaliação negativa da experiência. Isso em meio a um momento em que o viajante atual é mais estratégico, informado e emocionalmente orientado do que nunca. Ao mesmo tempo em que utiliza inteligência artificial e plataformas digitais para planejar viagens, busca experiências autênticas, conexão cultural e bem-estar durante o deslocamento.
Segundo a publicação, essa aparente contradição entre tecnologia e autenticidade no dias de hoje não trata-se de um conflito, mas de uma complementaridade. Isto porque, o Turismo de 2026 combina planejamento digital avançado, experiências presenciais profundas, viagens com propósito, contato com cultura local e valorização do tempo e da saúde mental.
Lógica da cadeia turística alterada

Nesta nova lógica do setor, destinos deixam de competir apenas por preço ou infraestrutura e passam a disputar significado. A publicação organiza as tendências em três grandes eixos: experiências no destino, fatores que influenciam a escolha da viagem e comportamento e planejamento do viajante.
- Entre os principais destaques está a alta do Turismo de saúde e bem-estar, segmento que deixou de ser nicho e virou comportamento dominante. Com isso, as viagens passaram a incluir spas naturais, terapias integrativas, yoga e meditação, trilhas e natureza terapêutica, experiências de desaceleração e reconexão emocional.
- Operadoras também relataram crescimento de roteiros estruturados com foco em pausa mental, permanência prolongada e experiências holísticas. Trata-se de uma mudança profunda: viajar deixa de ser fuga e passa a ser reorganização pessoal.
- O Turismo esportivo também segue em expansão, impulsionado tanto por grandes eventos quanto por experiências ligadas ao universo esportivo. Além de assistir competições, o viajante busca visitar arenas, museus temáticos, participar de provas de corrida e ciclismo, explorar roteiros premium de golfe e tênis e viver experiências com clubes e comunidades esportivas.
- A gastronomia também assume papel central na decisão de viagem. A comida deixou de ser complemento e virou protagonista. O turista de 2026 quer comer como local, visitar mercados, conhecer produtores, participar de oficinas culinárias, explorar vinícolas e experimentar ingredientes regionais.
- Outra tendência relevante é o set-jetting, fenômeno em que destinos ganham visibilidade a partir de filmes e séries. Produções audiovisuais continuam influenciando decisões de viagem e impulsionando novos fluxos turísticos, além de reposicionar regiões já consolidadas no mercado internacional.
- O turismo nostálgico também ganha força. Esse movimento inclui hospedagens históricas, roteiros genealógicos, viagens multigeracionais, experiências vintage e reconexão com origens familiares. Trata-se de uma resposta ao excesso de digitalização da vida cotidiana e à busca por pertencimento.
- A natureza permanece como um dos principais ativos turísticos globais, mas com uma nova abordagem. Não se trata apenas de paisagem, mas de contemplação, silêncio, autoconhecimento, observação de fauna, trilhas estruturadas e turismo climático, conhecido como turismo de última chance, voltado a locais ameaçados por mudanças ambientais.
- Eventos também se consolidam como importantes motivadores de viagens, já que 65% das datas e cidades mais pesquisadas no Airbnb coincidem com grandes eventos culturais, esportivos ou musicais. Isso reforça o papel estratégico dos calendários urbanos como motores de fluxo turístico.
- Outro conceito relevante identificado é o chamado Brazilcore. Trata-se de uma estética global inspirada em elementos culturais brasileiros como cores vibrantes, música, futebol, moda urbana, tropicalidade e diversidade cultural, que está super na moda entre os estrangeiros.
Nesses cenários e tendências, o Brasil apresenta vantagem competitiva evidente para seguir crescendo nos próximos anos.
Aumento espontâneo do interesse global pelo destino Brasil

A conectividade aérea segue sendo fator decisivo para o crescimento sustentável do Turismo internacional. Nos últimos três anos, a malha aérea internacional brasileira cresceu 34%, enquanto a oferta de assentos aumentou 37,5%. Também foram realizadas mais de 100 ações cooperadas com o setor aéreo, ampliando a competitividade do destino e reduzindo riscos comerciais para companhias.
Outro fator estratégico é o papel da geração Z no futuro do Turismo global. Estudo citado na revista Tendêndias do Turismo projeta que o Turismo mundial pode dobrar até 2050, com Índia, China e Estados Unidos liderando como mercados emissores. Nesse cenário, a geração Z estará no auge do poder de consumo. A recomendação é clara: destinos precisam construir vínculo emocional com esse público desde agora.
Outro ponto central da estratégia brasileira para 2026 é mudar o perfil do visitante internacional. Com isso, o foco passa a ser maior permanência média, maior gasto no destino, dispersão regional, viagens fora da alta temporada e fortalecimento do turismo responsável.
Mas, na prática, o que muda para destinos, operadoras e agentes?

Para os destinos, a principal mudança é estratégica. A promoção turística deixa de focar apenas em atrativos e passa a trabalhar narrativas. Natureza, cultura e gastronomia não são mais diferenciais isolados, e sim plataformas de experiência.
Isso exige investimento em posicionamento, calendário de eventos, qualificação de produtos regionais e integração entre municípios e Estados. Destinos com identidade clara e experiências estruturadas tendem a capturar maior permanência média e maior gasto por visitante.
Outro impacto direto é a valorização da regionalização do Turismo. Com o crescimento do interesse por experiências autênticas e menos massificadas, cidades médias e destinos fora do circuito tradicional passam a ganhar espaço na estratégia nacional e internacional de promoção. Isso amplia oportunidades para o interior do País e fortalece o Turismo como ferramenta de desenvolvimento territorial.
Para operadoras e agências de viagens, a mudança é ainda mais profunda. O produto turístico tradicional, baseado apenas em transporte e hospedagem, perde protagonismo. O viajante de 2026 vai além e busca curadoria, personalização e propósito. Isso abre espaço para roteiros temáticos, experiências gastronômicas, Turismo de natureza estruturado, viagens com foco em bem-estar e itinerários ligados a eventos.

Sendo assim, as operadoras que incorporarem storytelling, experiências locais e produtos autorais tendem a ampliar margem e diferenciação competitiva. Já o agente de viagens passa a atuar menos como intermediário e mais como consultor de experiências, como um organizador de decisões.
Outra oportunidade relevante está na expansão do Turismo de eventos e do chamado Turismo de calendário. Shows, festivais, feiras e eventos esportivos se consolidam como motivadores de viagem, criando novas janelas de comercialização ao longo do ano e reduzindo a dependência da alta temporada tradicional.
Para o viajante, as mudanças aparecem principalmente na forma de planejar e viver a viagem. A tecnologia passa a ocupar papel central na escolha do destino, mas a decisão final continua sendo emocional. Ferramentas digitais ajudam na comparação de preços e roteiros, enquanto experiências autênticas e contato com a cultura local definem o destino escolhido.