Crise no Oriente Médio leva operadoras e consolidadoras a rever rotas e estratégias
Empresas relatam aumento na busca por voos via Europa e EUA, além de reacomodações e dúvidas crescentes

A escalada de tensões no Oriente Médio, como temos visto no Portal PANROTAS, está provocando efeitos diretos na operação do Turismo, com mudanças de rotas, cancelamentos, reacomodações, aumento no preços das passagens aéreas, impactando todo o setor, assim como os passageiros.
Com hubs estratégicos como Dubai e Doha sob incerteza e companhias aéreas revisando suas malhas, empresas do setor, entre operadoras e consolidadoras, relatam aumento na demanda por alternativas via Europa e Estados Unidos, além de dúvidas crescentes por parte dos viajantes.
Para entender como o mercado está reagindo e quais estratégias estão sendo adotadas neste cenário, ouvimos companhias que atuam diretamente na gestão dessas mudanças. Veja, também, as recomendações da Abav, Braztoa e do advogado especialista Marcelo Oliveira neste link.
Confira algumas análises a seguir.
Ancoradouro
O diretor comercial da Ancoradouro, Daniel Castanho, destaca que a empresa tem atuado de forma próxima às companhias aéreas que operam para os destinos impactados pelo conflito, acompanhando diariamente as atualizações sobre voos e políticas de remarcação e reembolso.
Segundo ele, a consolidadora mantém autonomia para agir diretamente nas reservas emitidas, o que permite dar suporte ágil aos agentes de viagens. “Nosso papel é compartilhar com os clientes todas as atualizações sobre as operações, além de orientar sobre as questões de segurança”, afirma.

Castanho ressalta ainda que a empresa também atua em parceria com as aéreas no gerenciamento das contingências, contribuindo para a resolução de eventuais problemas operacionais.
Apesar de reconhecer um impacto inicial na demanda, com maior cautela por parte dos viajantes em relação aos destinos envolvidos no conflito, ele avalia que o cenário está sendo conduzido com responsabilidade pelo setor. “Existe um certo receio no mercado, o que afeta momentaneamente as vendas, mas estamos trabalhando para minimizar os impactos tanto para os passageiros quanto para os agentes de viagens”, diz.
A expectativa, de acordo com o executivo, é de que a situação seja normalizada em breve, permitindo uma retomada mais consistente da demanda.
Kangaroo Tours
Segundo Celso Tsunashima, diretor regional da Kangaroo Tours, o cenário ainda é de ajustes constantes, especialmente por conta das restrições operacionais em hubs estratégicos do Oriente Médio. Hoje, destinos como Dubai e Doha praticamente saíram do radar da operadora no curto prazo, diante da redução ou suspensão de voos – caso da Qatar Airways – e da política limitada de flexibilização das companhias aéreas.
“Os cancelamentos e reembolsos estão acontecendo por janelas. A Emirates, por exemplo, tem liberado remarcações gratuitas apenas para embarques próximos. Não há uma regra clara e isso muda com frequência”
Celso Tsunashima, diretor regional da Kangaroo Tours
Na prática, a instabilidade afeta diretamente a malha para a Ásia, já que Dubai e Doha são dois dos principais pontos de conexão utilizados pelos brasileiros. Com isso, clientes têm optado por remarcar viagens ou buscar rotas alternativas.
No caso das Maldivas, um dos produtos mais vendidos pela operadora, há desde passageiros que remarcam até aqueles que optam por manter a viagem, adaptando o roteiro. “Tem cliente indo via Istambul, por exemplo, para evitar o Oriente Médio. Em alguns casos, preferem até estender a estada no hotel a cancelar”, afirma.
Já destinos como Japão enfrentam um cenário mais delicado. Apesar de não haver restrições diretas, muitos viajantes acabam solicitando cancelamentos por conta da dependência das conexões via Oriente Médio. Ainda assim, a operadora tem trabalhado alternativas, como voos via Europa ou Estados Unidos.

Diante do cenário instável, a operadora tem tratado cada caso de forma individual. “Não temos uma regra para guerra na Kangaroo. E cada companhia aérea e cada hotel trabalha de uma forma. Quando o fornecedor devolve 100%, a gente também devolve integralmente a comissão ao cliente”, destaca.
Apesar do momento desafiador, Tsunashima reforça que a demanda não parou. Há, inclusive, movimento para viagens futuras, com embarques previstos para o segundo semestre. “Muita gente ainda está comprando para setembro e outubro, apostando que a situação vai melhorar”, afirma.
Ao mesmo tempo, a crise tem impulsionado a busca por destinos alternativos. A África, especialmente a África do Sul, aparece como uma das principais apostas, beneficiada também pelo aumento de voos da Latam Airlines, com os novos para Cidade do Cabo. Austrália, com rotas via Santiago, e até a própria Europa seguem no radar.
“Está ruim, mas não chega nem perto de uma pandemia. O Turismo não parou. A gente precisa se adaptar, ajustar rotas e continuar oferecendo alternativas”
Celso Tsunashima, da Kangaroo Tours
Primetour
A CEO da Primetour, Marina Gouvêa, afirma que, desde o início das tensões no Oriente Médio, a operadora adotou uma atuação rápida e preventiva para dar suporte aos clientes. Já no primeiro fim de semana após a escalada do conflito, a empresa mapeou passageiros em viagem e com embarques próximos, especialmente em voos de Emirates e Qatar Airways, propondo alternativas imediatas.
A principal estratégia tem sido a reitineração de rotas via Europa, garantindo mais tranquilidade aos viajantes e evitando cancelamentos. “Quem tinha viagens para Japão, Indochina ou outros destinos da Ásia seguiu viagem normalmente, apenas com mudança de rota”, explica.
Para embarques futuros, a partir de 45 dias, a abordagem é mais cautelosa. Em alguns casos, a Primetour recomenda até a emissão de um segundo bilhete via Europa, mesmo com custo mais alto, como forma de manter flexibilidade diante das incertezas. Assim, o cliente pode optar posteriormente pelo reembolso de uma das passagens, conforme a evolução do cenário.

No comportamento de demanda, há uma migração para destinos mais distantes do conflito, enquanto novas viagens de longa distância perderam força momentaneamente. “Nas últimas semanas, não tivemos solicitações para o Japão, que costuma ter alta procura, por exemplo”, diz. Em contrapartida, destinos no Brasil e na América do Sul ganharam espaço, e a demanda pelo verão europeu segue aquecida, praticamente sem impacto.
Embora não haja retração significativa no volume total de viagens, há efeitos pontuais. Destinos como Dubai e Turquia registraram cancelamentos, assim como alguns casos isolados para os Estados Unidos. Ainda assim, segundo Marina, o impacto está longe de crises como a pandemia de covid-19 ou o 11 de setembro, sendo mais concentrado em reacomodações.
A executiva também destaca o efeito indireto sobre o setor, já que o Oriente Médio é um importante hub global de conexões. Diante do cenário incerto, a orientação da Primetour tem sido atuar de forma proativa, antecipando soluções e oferecendo alternativas aos clientes. “Nosso papel agora é mitigar riscos, ser proativos, estarmos disponíveis e trabalhar com todas as possibilidades”, conclui.
TP Group
O vice-presidente daTeresa Perez, Leonardo Mignani, afirma que os primeiros dias após o agravamento do conflito, em 28 de fevereiro, foram os mais desafiadores para a empresa – especialmente no trabalho de assistência aos passageiros.
Segundo ele, a prioridade inicial da consolidadora TP Air foi a repatriação de clientes que estavam na região. “A operação foi bem-sucedida, principalmente com rotas via Europa e Estados Unidos. Esses primeiros 15 dias foram os mais críticos, mas já superamos essa fase”, explica.
Com a normalização gradual das operações, Mignani destaca que as viagens para destinos asiáticos, como Japão e China, seguem ocorrendo, ainda que com ajustes pontuais. Em alguns casos, passageiros que tinham conexões via Oriente Médio optaram por reembolsos ou reemissões por outras rotas, como Europa ou EUA.

Ele ressalta ainda o papel das companhias aéreas nesse processo, citando o suporte de empresas como Emirates e Qatar Airways. “As políticas adotadas foram corretas e ajudaram bastante. Tivemos poucos problemas operacionais, e quando surgiram, conseguimos resolvê-los com o apoio das aéreas”, afirma.
Já na operadora, o impacto foi mais limitado. De acordo com Mignani, houve cancelamentos pontuais para a Europa, mas sem grande impacto geral, já que os destinos diretamente afetados pelo conflito costumam ser apenas pontos de conexão, e não finais.
“O mercado não parou”, resume. Ele avalia que, enquanto o conflito permanecer concentrado no Oriente Médio, os efeitos tendem a ser controlados. No entanto, alerta que uma eventual escalada para regiões na Europa, como a Turquia, poderia gerar reflexos mais significativos.
Por fim, ele aponta uma mudança no comportamento da demanda. Há uma migração de passageiros para destinos europeus, impulsionada tanto pelo contexto geopolítico quanto pelos altos preços das viagens para os Estados Unidos, especialmente no período que antecede a Copa do Mundo. “Estamos vendo muitos clientes optando pela Europa, principalmente em viagens pré-Copa, como em maio”, conclui.