Rodrigo Vieira   |   02/04/2026 09:45

Um ano após o colapso da ViagensPromo: as perguntas que ainda precisam de resposta

Cicatrizes deixada pela operadora ainda são visíveis. Veja a linha do tempo da crise e os questionamentos

PANROTAS / Filip Calixto
Renato Kido
Renato Kido

Em março de 2025, o Turismo brasileiro começou a assistir ao desmoronamento de uma das operadoras de ascensão mais rápida do País. Um ano depois, as cicatrizes deixadas pela quebra da ViagensPromo ainda são visíveis, e o silêncio sobre questões fundamentais continua a ecoar para muitas das agências de viagens, funcionários e antigos parceiros impactados..

O que começou com rumores e suspensões de emissões no início do ano passado rapidamente escalou para uma debandada de executivos (e demissões), cancelamentos de voos fretados e, por fim, a admissão de incapacidade de pagamento. A crise não apenas deixou um rastro de prejuízos financeiros para agências, fornecedores e ex-funcionários, mas também expôs a fragilidade de modelos de negócios baseados em promessas agressivas e falta de transparência. O dono da empresa, Renato Kido, ainda deve muitas respostas ao mercado - além de ressarcimentos.

O Portal PANROTAS volta ao tema não apenas para relembrar os fatos, mas para questionar: o que efetivamente mudou na relação do trade?

As perguntas que ficaram em aberto sobre a ViagensPromo

A poeira baixou, mas as dúvidas estruturais permanecem. Para que o mercado não repita os mesmos erros, algumas respostas ainda precisam ser dadas pelos líderes do setor, ainda que algumas já comecem a ser esboçadas.

  • Como as empresas estão preparadas para evitar novas quebras? Há mais transparência em relação ao caixa das mesmas e justificativas para ações comerciais mais agressivas? Por exemplo, quem pode vender em 15 vezes e quem está desesperado e por isso vendendo em 15 vezes? Como o mercado pode diferenciar o joio do trigo, o aventureiro do empresário sério, o jogador do investidor? Há muitas opiniões, mas pouca concordância ou unanimidade.
  • A criação de fundos garantidores e programas de compliance foi amplamente debatida no calor do momento, mas quais medidas práticas foram efetivamente implementadas e fiscalizadas?
  • Quais práticas comerciais do mercado ainda põem em risco a cadeia turística? Como identificá-las? Onde estão as recomendações das associações do setor sobre saúde financeira e riscos para todos os envolvidos?
  • Aliás, ser associado traz que tipo de garantias ou recomendações para empresas e compradores?
  • O modelo de antecipação agressiva de recebíveis e o parcelamento facilitado sem lastro financeiro continuam sendo utilizados como isca para atrair vendas?
  • A transparência do negócio é um diferencial competitivo ou uma obrigação?
  • Em um setor onde a confiança é a moeda principal, até que ponto as agências têm acesso real à saúde financeira de seus principais fornecedores? E podem confiar em promessas, algumas feitas com lágrimas nos olhos?
  • Os agentes mudaram? Estão mais desconfiados? Mais espertos? Ou continuam acreditando em promoções que dão prêmios em excesso, mais comissão e as famosas promessas com voz embargada?
  • As operadoras mudaram? Estão mais conscientes? O setor é unido?
  • Um ano após a quebra, como estão os afetados? Agências que assumiram os prejuízos de seus clientes conseguiram se recuperar? Muitos funcionários foram recolocados, mas e como estão depois do trauma?
  • Ficou algo de positivo do que a VP fazia ou foi tudo um voo de galinha ou um projeto com bases de cristais?
  • Fornecedores e ex-funcionários lesados tiveram algum tipo de reparação ou o caso se perdeu na burocracia jurídica?
  • O caso VP foi apenas mais um recorrente (ou seja, quebras sempre aconteceram e voltarão a acontecer) ou foi um caso extremo fora da curva?

Se você, leitor, tem resposta para alguma dessas perguntas, ou quer acrescentar mais questionamentos, por favor, entre no debate conosco por meio do redacao@panrotas.com.br. Vamos adorar ouvi-lo.

PANROTAS / Rodrigo Vieira
ViagensPromo
ViagensPromo

Abav vê, sim, aprendizados, ainda que limitados

Na avaliação da presidente da Abav Nacional, Ana Carolina Medeiros, houve sim uma mudança de comportamento por parte dos agentes, ainda que não definitiva.

“Os agentes de viagens passaram a questionar mais a saúde financeira das operadoras e a fugir de promessas milagrosas. No entanto, o Turismo é um setor de margens apertadas e altíssima concorrência. Embora o mercado esteja mais maduro hoje, a pressão por vendas faz com que práticas agressivas nunca desapareçam totalmente"

Ana Carolina Medeiros, presidente da Abav Nacional

Ou seja, o nível de exigência aumentou, mas o risco estrutural segue presente.

Entre os principais pontos de atenção, o parcelamento agressivo segue no centro do debate. Para Ana Carolina, a resposta é direta: “Financeiramente falando, um parcelamento longo não é sustentável sem um lastro financeiro extremamente robusto e real.”

A constatação dialoga diretamente com uma das principais dúvidas do trade: o modelo de vendas com facilidades fora da realidade ainda é utilizado como isca? A resposta, ainda que implícita, preocupa.

Entretanto, admite a Abav Nacional, na prática os avanços ainda são limitados. “Continuamos orientando seus associados sobre como identificar as melhores atuações no mercado para evitar qualquer problema ou prejuízo”, afirma Ana Carolina. E quando o tema avança para soluções estruturais, como fundos garantidores e programas de compliance, o diagnóstico é ainda mais duro: “essas iniciativas não avançaram como o mercado esperava e necessitava. Porém, a Abav tem buscado alternativas que tragam mais segurança para o setor.”

Linha do tempo: a escalada da crise

Retomando rapidamente os marcos que definiram a queda da ViagensPromo:

  • Outubro de 2024: ainda sob os ecos de "Cauã na VP!" dos agentes de viagens que tietaram a tão falada campanha de Cauã Reymond na Abav Expo de Brasília, a ViagensPromo anuncia a saída de Renato Alves, sócio minoritário, de forma "amigável". Renato Kido assume como sócio totalitário, prometendo uma "nova fase" e novidades que iriam "chacoalhar o mercado".
  • Novembro de 2024: A campanha com Cauã Reymond continua rendendo frutos de imagem, com o ator marcando presença também no Festuris Gramado, atraindo multidões ao estande da operadora e passando uma imagem de solidez e investimento pesado em marketing.
  • Dezembro de 2024: Em clima de festa, a operadora recebe centenas de agentes para uma premiação em cruzeiro no Rio Amazonas. Kido reafirma promessas grandiosas, como a criação de um Fundo de Investimento (FIDC), que ninguém no mercado entendia direito como funcionaria, e projetos como a VPPay, em parceria com a FaturePag, e a VP Air, com aeronaves Sideral.

Divulgação/VP
Renato Kido com Alan Barros, da FaturePag
Renato Kido com Alan Barros, da FaturePag
  • Janeiro de 2025: Os primeiros sinais vermelhos acendem. A Clube Turismo suspende temporariamente novas emissões alegando "desacordos comerciais". Dias depois, a Easy Travel Shop (ETS) rompe seu acordo com a operadora. A ETS, por conta das dívidas da VP, viria a fechar em novembro de 2025,-.
  • Fevereiro e março de 2025: A crise se torna pública e agressiva. Uma debandada profissional massiva esvazia a empresa. Saíram dezenas de executivos, incluindo Valter Onishi, diretor de Vendas. Se Renato Alves era o braço direito de Kido, Onishi era o esquerdo. O que chamou a atenção foi a forma como essa saída ocorreu: muitos funcionários deixaram de receber seus salários e saíram sem qualquer tipo de indenização, engrossando a fila de credores. No dia 13 de março, a Gol cancela todos os voos fretados da ViagensPromo saindo de Belo Horizonte.
  • Abril e maio de 2025: A operadora tenta contornar a situação com comunicados que não convencem e ações judiciais. A enrolação da empresa nas respostas oficiais apenas aumenta a desconfiança. Enquanto isso, agências, empresas (como a Unav) e entidades (como Abav e Braztoa) se mobilizam para tentar mitigar os danos. Em maio, a ViagensPromo admite oficialmente que não pode pagar suas dívidas e rompe contratos com prestadores de serviço.
  • Junho a outubro de 2025: Sem respostas, agências negociam sozinhas com clientes. Surge o Movimento dos Agentes de Viagens (MOAV), que aciona o Ministério Público. Em setembro, Renato Kido quebra o silêncio em entrevista à PANROTAS. Risco de quebrar existe em qualquer setor, mas a "sumida" do executivo durante o auge da crise foi o ponto mais criticado. A entrevista gerou uma avalanche de reações indignadas de todo o trade, que rebateu suas declarações e expôs a dura realidade dos prejuízos.

Onde paira o risco estrutural

Fato é que a ViagensPromo não foi a primeira nem a segunda operadora a fechar - algumas de forma mais "organizada" outras nem tanto. Estão aí Mundirama, Viagens Costa, Dimensão, Soletur, Nascimento Turismo, Designer Tours, Flytour Viagens, Turnet, MGM, Nova Operadora, ETS, entre tantas outras, para engrossar essa indesejável e inevitável lista.

"O perigo reside na própria natureza do fluxo de caixa e na falta de controles internos", explica o economista da Planning, Claudio Gonçalves, especializado em Fusões e Aquisições em vários setores, dentre os quais, o Turismo.

Divulgação
O economista Claudio Gonçalves
O economista Claudio Gonçalves

"Uma operadora de Turismo é meramente um intermediário na cadeia de fornecedores. Faz acordos com hotéis, companhias aéreas e locadoras, acrescenta uma margem de ganho (markup) e vende para agências ou consumidor final. Movimentam muito dinheiro, e é aqui que mora o perigo. A maioria se perde, como foi o caso da ViagensPromo. Não têm controles internos para separar os valores que recebem dos clientes das obrigações com os fornecedores", pondera o especialista.

Segundo ele, o risco estrutural desse tipo de modelo está na falta de controles internos associada ao descasamento de fluxo de caixa. Ou seja, vendem pacotes a prazo em 10, 12 ou até mais vezes e, ao mesmo tempo, contraem obrigações com fornecedores no curto prazo.

"Se a venda foi via agência, boa parte do valor à vista fica com ela. A operadora fica com o fluxo do cartão e recorre à administradora para antecipar, pagando juros, o que corrói o ganho. Sem controle para saber quanto deve à hotelaria e ao aéreo, o financeiro se perde com o volume de dinheiro e acha que é recurso da empresa, quando na verdade é para pagar fornecedores", explica.

Então, o que diferencia uma operação saudável de uma com alertas de risco?

Segundo Claudio Gonçalves, uma operadora saudável financeiramente não precisa recorrer ao desconto do fluxo de recebíveis para pagar as contas do dia a dia, como fornecedores, folha de pagamento e comissões.

"Quando a operadora desconta todo o fluxo de recebíveis com as administradoras de cartão de crédito, o sinal vermelho foi ligado. É uma questão de aguardar o momento de queda nas vendas e o embarque dos passageiros para que o problema apareça. Normalmente, os períodos de maior necessidade de recursos são na alta temporada, de dezembro a março, e em julho, quando os clientes vão embarcar e as faturas da hotelaria chegam."

Como os agentes de viagens podem se prevenir de situações como essas?

"Ficar alerta para sinais como: reclamação de fornecedores por falta ou atraso no pagamento da hotelaria; falta ou atraso no pagamento das comissões; comissões elevadas com objetivo de atrair os agentes para centralizar vendas na operadora; campanha de premiação constante... os sinais aparecem. Os agentes precisam ficar alerta por que como diz o ditado americano: não existe almoço grátis", finaliza Gonçalves.

A PANROTAS procurou a Braztoa e o advogado da ViagensPromo para participarem desta matéria. A primeira optou por não participar, enquanto o jurídico da VP prometeu uma resposta, e ainda não a enviou. Esse texto será atualizado caso essas respostas cheguem à Redação ou outros esclarecimentos.

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Sobre o autor

Rodrigo Vieira é jornalista com 12 anos de especialização na indústria de Turismo, todo esse tempo orgulhosamente na PANROTAS. Sua maior satisfação profissional é quando, por meio de seu trabalho, ajuda um agente de viagens a obter êxito. Conhece 30 países e ama viajar para o Exterior, mas jamais moraria fora do melhor destino de todos, o Brasilzão.