Abeoc debate saúde mental no setor de eventos e atualização da NR-1; leia o artigo
Entidade defende que mercado adote jornadas equilibradas e suporte emocional às equipes

Prazos curtos, múltiplas demandas e alto nível de responsabilidade sempre fizeram parte da rotina do setor de eventos. Agora, com a atualização da NR-1 e a exigência de um olhar mais atento à saúde mental no ambiente de trabalho, o segmento é chamado a rever processos e culturas internas. Cinara Cardoso, vice-presidente de Convênios da Abeoc Brasil, destaca a relevância do tema e estimula a preparação das empresas.
Leia o artigo na íntegra:
NR-1 e saúde mental nos eventos: Abeoc coloca o tema no radar do setor
"O setor de eventos sempre operou sob alta pressão. Prazos curtos e inegociáveis, múltiplos stakeholders, segurança dos envolvidos e a responsabilidade civil e criminal, alta exposição pública, infindável legislação aplicada, a incumbência direta sobre o encantamento e a experiência dos participantes e o retorno obrigatório do investimento de promotores e patrocinadores fazem dessa indústria uma das mais intensas do ponto de vista operacional e emocional. Agora, com a atualização da NR-1, o grande potencial de abalo à saúde mental, quase normalizado como inerente à atividade, ganha um novo enquadramento: na gestão estruturada de riscos — incluindo, de forma mais evidente, os riscos psicossociais.
No contexto de eventos, essa mudança é particularmente sensível. Diferentemente de outros setores, a produção de eventos envolve uma complexidade única: são operações temporárias, com equipes multifuncionais, fornecedores diversos, ambientes variáveis e, muitas vezes, grandes públicos. As empresas de eventos podem experimentar uma responsabilidade subsidiária e solidária e uma hierarquia cruzada, uma vez que acabam direcionando, dando orientações e supervisionando fornecedores, o que amplia a possibilidade de situações de assédio e riscos compartilhados.
Relatórios da empresa CareerCast, amplamente repercutidos pela Forbes, já apontaram a organização de eventos entre as atividades mais estressantes do mundo, figurando entre as dez primeiras posições em rankings, entre 2016.-2019 quando era publicado o relatório “Jobs Rated Report”. Após a pandemia, a publicação passou a analisar as profissões mais estressantes sem um ranking formal. Em algumas edições, o nível de estresse atribuído à função “Event Coordinator” se aproxima — e até supera — o de profissões tradicionalmente reconhecidas pela alta pressão, como as da área de saúde, aviação e forças de segurança.
É importante destacar que a NR-1 não é uma norma nova, mas uma evolução de uma base já existente. O que muda é a profundidade e a abrangência. A exigência de implementação do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) amplia o olhar das empresas, que deixam de atuar apenas de forma corretiva e passam a estruturar uma lógica preventiva e integrada – com data para enquadramento até 26 de maio deste ano.
Com esse parâmetro, a atualização da NR-1 se torna não apenas uma exigência legal, mas uma oportunidade estratégica. Ao incorporar a gestão de riscos psicossociais, as empresas do setor são convidadas a repensar seus modelos de operação, liderança e cultura organizacional.
Do ponto de vista estratégico, isso significa estruturar processos claros de gestão de risco, preparar lideranças para ambientes de alta pressão, desenvolver equipes com maior suporte emocional e organizacional e integrar segurança, estratégia e experiência desde o planejamento.
Na prática, ações efetivas para além de cumprir a legislação, são: monitorar as jornadas de trabalho e evitar os períodos prolongados, cuidar do ambiente e questões ergonômicas – se possível, com áreas de descompressão, conhecer e monitorar a Classificação Internacional de Doenças (CIDs) relacionados, com observação direta de histórico ou pré-existência de doenças neuropsiquiátricas como ansiedade e depressão, proporcionar assistência, convênios ou parcerias com atividades relaxantes ou neuroprotetoras como academias, terapias e hobbies.
Nesse movimento, iniciativas institucionais ganham relevância. A Abeoc Brasil vem atuando na preparação de seus membros, incluindo a temática da gestão de riscos, saúde organizacional e a adequação à NR-1, entre outros temas, em seus programas de desenvolvimento, a exemplo da Jornada de Líderes, onde quinzenalmente convidados são trazidos para orientar e proporcionar discussões sobre a complexidade da atividade e a necessidade de uma atuação mais estruturada e consciente.
Esse tipo de iniciativa sinaliza um avanço importante: o reconhecimento de que o sucesso de um evento não depende apenas da execução impecável, mas da sustentabilidade da operação — incluindo as pessoas que a tornam possível.
A atualização da NR-1, portanto, não deve ser vista somente como mais uma obrigação, mas como um marco de evolução. Ela coloca luz sobre um aspecto historicamente negligenciado: o impacto da operação no ser humano e o seu bem-estar. Mais do que cumprir uma norma, trata-se de elevar o nível de maturidade do setor.
E, em um setor cuja essência é gerar experiências memoráveis, talvez a maior transformação seja esta: cuidar de quem produz a experiência como parte da própria estratégia".