Inteligência artificial: da promessa à realidade, quanto custa inovar?
Entrevista com Alexandre Cordeiro, fundador do Travel Tech Hub, é conteúdo da Revista PANROTAS

Estamos no olho do furacão, vendo as plataformas de Inteligência Artificial (IA) concorrentes lançarem algo novo a cada semana, e ainda tentando digerir este universo tão impactante, promissor e revolucionário que se aproxima. Como resultado, a IA deixou de ser uma promessa distante para se tornar uma ferramenta presente no dia a dia das empresas de Turismo.
Se há um ano o foco era tirar os projetos do papel, o debate agora amadureceu e mira em uma questão central: quanto custa, de fato, implementar e sustentar uma operação baseada em IA? A busca por eficiência em um setor de margens apertadas encontra na tecnologia um caminho promissor, mas que exige planejamento, intencionalidade e uma boa dose de pragmatismo.
Não à toa o Travel Tech Hub Day, principal evento de tecnologia para o setor de viagens da América Latina, traz como tema em 2025 Desenvolvendo o futuro. Hoje. Tecnologia, inteligência e colaboração para transformar o Turismo.
Em busca de esclarecer esse cenário, a Revista PANROTAS conversou com Alexandre Cordeiro, fundador da comunidade Travel Tech Hub, e ele explica que a empolgação com a inteligência artificial é justificável, mas também coloca asteriscos necessários para pensarmos nessa verdadeira revolução vivida por nós, seres humanos, consumidores e profissionais.
O custo da transformação
A promessa de eficiência, agilidade e transformação estrutural da IA mobilizou líderes em todas as áreas do negócio. Mas como tudo, a passagem da teoria para a prática trouxe questionamentos inevitáveis.
"Tínhamos uma promessa de aumento da eficiência operacional, mas será que estamos usando mesmo o real potencial da IA? E qual o custo disso?", questiona Cordeiro. "Ainda há uma nuvem cinza sobre essas respostas."
O aumento vertiginoso da oferta de plataformas IA aliado a falta de uma tabela de preços ou de um manual de implementação torna o cenário complexo. A cada semana, uma nova ferramenta é lançada, aumentando o leque de opções, mas também a incerteza sobre o investimento.
"Não existe uma cartilha. O que temos certeza é de que estamos praticamente juntos: quem tem mais recurso testa mais coisas simultaneamente, quem tem menos, investe e testa menos, de olho em como o mercado reage, em busca de oportunidades", explica o fundador do Travel Tech Hub.
Cordeiro faz uma comparação com o boom da migração de dados para a nuvem, quando muitas empresas buscaram eficiência e escalabilidade, mas se depararam com faturas imprevisíveis. Com a IA, o risco se intensifica, pois é um tema que envolve não apenas a camada técnica, mas também a decisória e criativa, o que amplia a complexidade operacional e exige nova governança.
Expertise humana: não precisamos temer os robôs

O medo de que a inteligência artificial substituísse os profissionais de Turismo não precisa aterrorizar o mercado. O futuro aponta para um modelo de inteligência híbrida, no qual a expertise humana se une à capacidade de automação das máquinas.
"Avançamos para um cenário em que não é de substituição total. Estamos indo para um caminho de inteligência híbrida, pois tem muito ajuste, muito processo deficiente sendo substituído, mas continuamos acreditando na máquina com a ajuda das pessoas", afirma Cordeiro.
Ele acrescenta que o setor de Turismo é caracterizado por uma complexa rede de sistemas que muitas vezes não se comunicam de forma eficiente. Essa fragmentação gera atritos e consome recursos preciosos. “A capacidade de entender como a IA pode diminuir essa ineficiência vai resultar em um resultado melhor, e não vejo outra maneira de fazer isso do que com profissionais experientes e habilitados tecnicamente na dinâmica do Turismo supervisionando o que é ganho de eficiência e o que é desperdício.”
BackOffice: onde a eficiência faz a diferença
Enquanto grande parte da atenção no Turismo está voltada para a reserva e a experiência do cliente, os processos de backoffice representam um campo fértil para a aplicação da inteligência artificial. "Falo principalmente sobre todo aquele emaranhado de processos de pagamento, conciliação de cartão de crédito, reembolsos e comissionamentos muito complicados, muito ineficientes", aponta Cordeiro. "No Turismo, temos muita preocupação com o pré e com a reserva. Depois, é o que está no backoffice, são vários andares de um prédio para fazer dar tudo certo", brinca.
Aprendendo com outros mercados
Para superar seus desafios, o Turismo pode se inspirar em setores que já passaram por transformações semelhantes. Cordeiro cita o mercado financeiro como um exemplo de setor altamente regulado e burocrático que conseguiu se reinventar.
"O mercado financeiro no Brasil é altamente regulado, extremamente burocrático, com legislação pesada, mas foi onde a inovação aconteceu. Temos inúmeras fintechs, e o Pix é um caso de sucesso explorado largamente fora do Brasil", comenta.
Outro exemplo é o mercado publicitário, que também travou longas discussões sobre o impacto da tecnologia e hoje colhe os frutos da automação e da inteligência de dados. A lição, segundo Cordeiro, é que a união e o diálogo são fundamentais para a evolução do setor.
O que fazer agora: recomendações práticas
1. Autoconhecimento
Diante de tantas possibilidades e incertezas, qual o caminho para o profissional de Turismo? Para Alexandre Cordeiro, o primeiro passo é o autoconhecimento. "Antes de escolher a ferramenta A, B ou C, que é uma questão subjetiva, o principal é ver o que você precisa mudar, o que precisa evoluir. Fazer esse diagnóstico corretamente e não adicionar ferramentas de IA por que são moda", aconselha.
2. Assumir pequenos riscos
O fundador do Travel Tech Hub ressalta que estamos vivendo um momento único, uma revolução conduzida pela inteligência artificial, e que o profissional precisa ser protagonista de sua própria transformação. "Feito um diagnóstico de seu negócio, não espere muito para implementar as ferramentas que fazem sentido. Claro que temos que aprender com os grandes, mas também temos que tomar o risco controlado de testar juntos e entender que, eventualmente, pode não dar tão certo", diz.
3. Intenção de mudar
A atitude é, para Cordeiro, mais importante do que a escolha da ferramenta em si. "O que vai influenciar muito é a intenção de mudar, buscando cursos, buscando mudanças, abrindo a cabeça para fazer isso. Os negócios menos eficientes vão sofrer", alerta.
O futuro é hoje

O Travel Tech Hub Day 2025 é palco para aprofundar essas discussões, com casos de uso e debates sobre como a tecnologia, a inteligência e a colaboração podem, de fato, transformar o Turismo. Neste sentido, Cordeiro ilustra o tema do evento. "Desenvolvendo o futuro hoje. A tecnologia não pode ser apenas uma vitrine, precisa ser um meio de resolver questões concretas, seja na experiência do cliente, na distribuição, na gestão de canais, no pós-venda ou no ROI de cada viagem".
A matéria acima faz parte da Revista PANROTAS Especial Tecnologia, confira na íntegra abaixo:
Travel Tech Hub Day 2025
No dia 15 de setembro, os profissionais de Tecnologia para o Turismo têm um encontro marcado no Travel Tech Hub Day 2025. A segunda edição do principal evento da América Latina voltado ao segmento acontece no Cubo, em São Paulo, com uma programação que concentra insights acionáveis, conectando executivos, provedores de tecnologia, startups e líderes de mercado.
Veja a programação completa aqui e inscreva-se em traveltechhubday.com.br/inscricoes