Artur Luiz Andrade   |   30/06/2026 13:25
Atualizada em 30/06/2026 13:39

Conheça a história de Nati Felli, brasileira que fundou o Guarda Golf Hotel, na Suíça

De Bauru para o topo dos Alpes Suíços, a empresária apostou em Crans-Montana antes do hype

CRANS-MONTANA, Suíça – A delegação brasileira que participou da primeira edição do STM Luxury, em Crans-Montana, nos Alpes Suíços, já chegou com a expectativa de conhecer ou rever a brasileira que criou um dos hotéis mais icônicos do país, o Guarda Golf Hotel & Residences, que reúne clientes fieis amantes do golfe, no verão, e do esqui, no inverno, com o toque suíço-brasileiro de Nati Felli.

A diretora e fundadora do Guarda Golf se fez presente do jantar de abertura aos eventos sociais do STM Luxury e cuidou pessoalmente da hospedagem da delegação brasileira, brindada com mimos como brigadeiro, pão de queijo no café da manhã e coxinha de frango.

Sentamos durante uma hora para ouvir um pouco da história de Nati e descobrimos o que já desconfiávamos: uma brasileira empreendedora, que ama encantar e cuidar de seus hóspedes e que não se contentou em “disputar o dinheiro da família” (que tem negócios no agro e no setor imobiliário) ou “depender do dinheiro do marido suíço”. Pelo contrário, sempre empreendeu em sua cidade natal, Bauru (SP), e decidiu morar na Suíça para implementar seu sonho de ter um hotel. Encontrou no marido, Giancarlo Felli, o parceiro ideal para construir esse projeto juntos.

Mas não são poucas as vezes em que Nati ouve (e ouvirá ainda) comentários machistas dizendo que ela chegou aonde chegou por causa do marido e seu dinheiro. Mas sua história, os empréstimos pagos aos bancos, e a parceria com Giancarlo provam o contrário. O encontro de almas (e negócios) poderia não ter acontecido, e Giancarlo provavelmente continua o sucesso de sua clínica de fisioterapia nos Alpes, e Nati estaria com seu hotel no Brasil ou em outra joia escondida no planeta.

Diminuir o talento e o tino empreendedor de uma mulher usando o casamento para isso não é novidade no Brasil nem nos Alpes Suíços, e Nati segue em frente, com novos projetos depois de construir o hotel e os residenciais que funcionam à frente do setor de hospedagem. O novo projeto deve incluir o golfe, com mais serviços para os jogadores e hóspedes. O futuro da hotelaria e do Turismo passa pelo serviço, e o casamento Brasil-Suíça cria o melhor dos mundos nesse quesito.

Nati Felli se orgulha de ter apostado em Crans-Montana antes de sua redescoberta por investidores (Vail Resorts comprou a montanha do ski resort há dois anos e redes hoteleiras de grife estão chegando) e de ter criado um produto como ela queria, desde jovem, no interior de São Paulo.

PANROTAS / Artur Luiz Andrade
Guarda Golf Hotel & Residences tem o cinema Roger Moore, que foi amigo e hóspede de Nati Felli
Guarda Golf Hotel & Residences tem o cinema Roger Moore, que foi amigo e hóspede de Nati Felli

De Bauru para o mundo

A história de Nati Felli começa muito antes do Guarda Golf Hotel em Crans-Montana. Nascida em Bauru, interior de São Paulo, entre exemplos familiares de empreendedorismo, hospitalidade e muito trabalho, ainda adolescente ela já demonstrava uma inquietação incomum. Enquanto muitos jovens buscavam apenas concluir os estudos, ela já pensava em negócios.

Aos 17 anos fundou a Criarte, escola complementar voltada para arte, literatura, música e desenvolvimento criativo, inspirada em modelos educacionais que conheceu durante um intercâmbio nos Estados Unidos. A instituição existe até hoje e é um dos legados de Nati para sua cidade. “Eu queria que os estudantes de Bauru tivessem, na Criarte, uma segunda casa para, de tarde, complementarem os estudos da manhã e aprenderem sobre arte, cultura...”, conta ela.

Pouco depois vendeu sua parte na sociedade (para que a escola crescesse como o sócio gostaria) e criou uma das primeiras operações de fast-food de Bauru, inspirada no conceito de autoatendimento que havia observado também na América do Norte. Enquanto administrava seus empreendimentos, cursava Economia à noite no ITE Bauru.

Mas existia uma paixão ainda maior, incubada, mas pronta para florescer. A hospitalidade.

“Eu sempre fui fascinada por receber pessoas. Cresci vendo minha família acolher parentes e amigos, em uma casa grande, sempre preparada para receber. A hospitalidade fazia parte da nossa vida”, recorda ela, que cita também uma experiência, quando tinha cerca de dez anos, no Grande Hotel São Pedro, também no interior de São Paulo. “Fiquei fascinada que a gente pagava para dormir em um lugar. Aquilo ficou na minha cabeça – era a hospitalidade já tomando forma nas minhas ideias.”

Foi essa vocação que a levou à Suíça no início dos anos 1990 para estudar hotelaria na tradicional Escola de Hotelaria de Les Roches. O plano era simples: adquirir conhecimento com os melhores do mundo e voltar ao Brasil para construir um empreendimento hoteleiro. O destino, porém, tinha outros planos – mas ela ainda retornou ao Brasil para uma temporada.

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Guarda Golf Hotel & Residences recebeu a delegação brasileira no STM Luxury
Guarda Golf Hotel & Residences recebeu a delegação brasileira no STM Luxury

Independência como filosofia de vida

Desde muito jovem, Nati desenvolveu uma convicção que a acompanha até hoje: a independência financeira. Mesmo vindo de uma família com dinheiro, nunca quis depender de heranças ou estruturas familiares. “Eu queria conquistar minhas próprias coisas. Sempre tive essa necessidade de construir meu caminho.” Essa determinação marcou todas as suas decisões, calculando riscos, mesmo quando recorreu aos bancos suíços para empréstimos.

Vendeu seus negócios no Brasil para financiar os estudos na Suíça, enfrentou desafios sozinha e acumulou experiências em diferentes segmentos da hospitalidade. Quando voltou ao Brasil, depois da Les Roches e de estágios em hotéis suíços, participou da expansão de restaurantes e empresas de catering de luxo, trabalhou em projetos hoteleiros com o grupo Othon em São Paulo e assumiu desafios considerados ousados para uma mulher de pouco mais de 20 anos. Conviveu com poderosos, de famílias renomadas, e “descobriu” que os relacionamentos com esses potenciais clientes e investidores é outro trunfo que precisava cultivar.

Em 1994, durante um encontro de ex-alunos de hotelaria em Crans-Montana, Nati conheceu Giancarlo Felli. Suíço, ex-atleta de esqui e fisioterapeuta renomado na região dos Alpes, ele se tornaria seu marido e principal parceiro de vida. Ou seja, Giancarlo não trabalhava com hospitalidade (sua renomada clínica de fisioterapia era a principal atividade), nem pensava em abrir um hotel de luxo.

“O casamento nunca foi um atalho. Nós construímos tudo juntos.” Ela apresentou a ele sua visão do projeto de um hotel e ele acreditou em embarcou junto.

Segundo ela, o atual marido admirou justamente aquilo que muitos homens da época consideravam excessivo em uma mulher — sua independência, determinação e ambição.

“Foi a primeira vez que encontrei alguém que admirava exatamente esse meu lado empreendedor”, conta. Em vez de julgamento, admiração e parceria. Há mais de três décadas juntos, eles seguem compartilhando projetos e decisões.

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Guarda Golf Hotel & Residences
Guarda Golf Hotel & Residences

Sonho nos Alpes

Quando decidiu permanecer na Suíça, Nati encontrou algo que a marcou profundamente: confiança. Ao negociar a compra de seu primeiro terreno, diz ter percebido uma diferença cultural que influenciaria toda a sua trajetória. “Na Suíça, a palavra ainda tem valor e eles confiaram em mim.”

O primeiro empreendimento foi um edifício residencial em frente ao campo de golfe de Crans-Montana. Depois vieram outros. Ela comprava terrenos, desenvolvia projetos, construía e vendia unidades para reinvestir em novos empreendimentos.

O objetivo era um só: criar um hotel de luxo que refletisse tudo o que acreditava sobre hospitalidade. Mostrar que aquela jovem de Bauru, que decidiu investir em conhecimento e hospitalidade, podia criar algo realmente diferenciado, que fidelizasse hóspedes e moradores.

Foram anos de trabalho, financiamentos, negociações com bancos e uma estratégia cuidadosamente construída. Em 2009 nasceu o Guarda Golf Hotel e desde o primeiro dia, Nati sabia que não queria apenas um hotel cinco estrelas. Queria criar uma experiência. Por isso buscou a afiliação à prestigiada The Leading Hotels of the World e ao seleto grupo Swiss Deluxe Hotels. Filiações que mantém até hoje.

Hoje, o Guarda Golf está entre os endereços mais exclusivos da hotelaria suíça. Mas para Nati, o diferencial nunca foi apenas a infraestrutura, apesar da grande quantidade de suítes (algumas com três quartos). Há um prédio dedicado somente a elas. No total, são 29 apartamentos e mais três torres residenciais logo à frente. Os moradores podem usar as dependências do hotel, mas também têm estrutura isolada. Uma equipe de cerca de 20 colaboradores fica o ano todo no hotel, que fecha na primavera e no outono, focando nas altas temporadas de verão e, principalmente, inverno. Nati diz que ainda não há demanda para abrir o ano todo, mas nada é impossível, e Crans-Montana está sendo descoberta pelos turistas nas quatro estações.

Entre os profissionais destaque para a parceria de mais de 12 anos com Simon Schenk, o gerente geral do hotel, e para a filha Giulia Felli, que voltou de uma temporada de dois anos em Londres para trabalhar com a mãe, assumindo Vendas e Marketing.

“O serviço é tudo”, diz ela, ciente do que construiu e do caminho percorrido. Ela acompanha pessoalmente detalhes que vão da decoração às amenidades, dos chocolates oferecidos aos hóspedes até a experiência de chegada. Seu telefone permanece acessível 24 horas por dia e quando conversávamos, na varanda do restaurante do Guarda Golf, era aniversário de Nati. Imaginem como o celular vibrava com mensagens e ligações. Mas ela dedicou aquela hora para nos contar sua história. Ao final da entrevista, havia uma família do Rio Grande do Sul, clientes fieis no inverno e verão, que esperava para almoçar e celebrar com ela.

O contato direto com hóspedes e proprietários das residências do complexo faz parte da rotina. É o chamado “olho do dono” na prática. Algo cada vez mais raro na hotelaria de luxo internacional. “Eu me considero a guardiã da qualidade”, diz ela, que também viaja o mundo todo experimentando outros hotéis de luxo, vendo as tendências, observando os hóspedes e suas exigências.

A presença constante se reflete nos resultados. O hotel ocupa posições de destaque nas avaliações internacionais do TripAdvisor e sites de venda de hotéis e construiu uma base extremamente fiel de hóspedes, agentes de viagens e operadores de luxo de todo o mundo. Hóspedes que ganham mimos como coxinha, pão de queijo e brigadeiro, a qualquer momento, entre outros gestos que acarinham e surpreendem. Alguns famosos que passaram por lá e viraram fãs incluem George Clooney e Roger Moore, esse ganhou até uma homenagem dando nome ao cinema do hotel.

PANROTAS / Artur Luiz Andrade
Nati Felli
Nati Felli

A união da precisão suíça com a alma brasileira

Quando perguntam qual é o segredo do sucesso do Guarda Golf, Nati responde sem hesitar. De um lado, a eficiência, organização e excelência operacional suíças. Do outro, a generosidade, o acolhimento e a proximidade típicos do Brasil. União perfeita para o luxo.

“Eu peguei essa imagem de perfeição da hospitalidade suíça e completei com o calor humano brasileiro.” É uma combinação que os hóspedes percebem rapidamente. Não importa se estão hospedados em uma suíte presidencial ou em um quarto tradicional. Todos recebem a mesma atenção. Todos são tratados como convidados especiais.

Uma pioneira em Crans-Montana

Quando Nati começou a investir em Crans-Montana, muitos hotéis tradicionais estavam fechando as portas. Ela enxergou potencial onde outros viam limitações. Hoje, o destino vive uma redescoberta, com investimentos grandiosos que vão transformar o resort de esqui, já capta eventos como o FIS Alpine World Ski Championships (em fevereiro) e o Omega European Masters (em setembro), de golfe, que ocorre no Guarda Golf.

Nati apostou no destino, trouxe clientes internacionais (brasileiros inclusos), ajudou a reposicionar a região no mercado de luxo e participou ativamente da construção da reputação que a estação alpina possui hoje.

“Talvez eu tenha sido uma das primeiras pessoas a acreditar verdadeiramente no potencial de Crans-Montana e a cidade e o país me receberam da mesma forma, com confiança”, relembra.

Ao olhar para trás, Nati vê uma trajetória marcada por coragem, disciplina e persistência. Da jovem de 17 anos que fundou uma escola em Bauru à empresária que hoje lidera um dos hotéis mais respeitados dos Alpes, existe um fio condutor. A crença de que sonhos só se tornam realidade quando acompanhados por trabalho. “Muita gente fala em sorte. Eu acredito em disciplina”, afirma. E em estar sempre de olho, sempre atenta, sempre próxima dos hóspedes, fornecedores e da comunidade.

E mesmo após mais de três décadas na Suíça, ela continua planejando novos projetos, que anunciará em breve. Agora, com os empréstimos pagos nos bancos, a reputação em alta e a curiosidade ainda intacta. Para Nati Felli, empreender nunca foi apenas construir hotéis. Foi construir legados. Sonhos de vida. E encontrar os hóspedes certos para compartilhar tudo isso.

Conheça o Guarda Golf Hotel no álbum abaixo. O hotel é representado no Brasil pela Key Partners, de Sylvia Leiman.


A PANROTAS viajou a convite do STM – Switzerland Travel Mart Luxury Edition, Swiss Air Lines e Guarda Golf Hotel, com proteção GTA



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Sobre o autor

Artur Luiz Andrade é editor-chefe da PANROTAS, jornalista formado pela UFRJ e especializado em Turismo há mais de 30 anos.