Pedro Menezes   |   07/06/2026 17:59
Atualizada em 07/06/2026 18:23

Painel Iata de CEOs debate alta do QAV, excesso de regulação e demais desafios globais

Apesar dos revezes, CEOs afirmam que demanda por viagens aéreas segue surpreendentemente forte em 2026


PANROTAS / Pedro Menezes
Güliz Öztürk, CEO da Pegasus Airlines, Con Korfiatis, CEO da Oman Air, Luís Rodrigues, CEO da Tap Air Portugal, Richard Quest, da CNN, e Adrian Neuhauser, CEO do Grupo Abra
Güliz Öztürk, CEO da Pegasus Airlines, Con Korfiatis, CEO da Oman Air, Luís Rodrigues, CEO da Tap Air Portugal, Richard Quest, da CNN, e Adrian Neuhauser, CEO do Grupo Abra

RIO DE JANEIRO - O aumento do preço do combustível, os desafios da transição energética e o excesso de regulação estiveram entre os principais temas debatidos no painel de CEOs que encerrou o segundo dia da 82ª Assembleia Geral Anual da IATA (AGM), no Rio de Janeiro.

Representando mercados diretamente conectados ao Brasil, Adrian Neuhauser, CEO do Grupo Abra, e Luís Rodrigues, CEO da Tap Air Portugal, destacaram que, apesar do cenário geopolítico turbulento e dos custos crescentes, a demanda por viagens aéreas segue surpreendentemente forte. Eles estiveram ao lado de Con Korfiatis, CEO da Oman Air, e Güliz Öztürk, CEO da Pegasus Airlines.

Neuhauser afirmou que o setor vive uma transformação sem precedentes, mas ressaltou a capacidade histórica das companhias aéreas de absorver choques e seguir operando.

"Se alguém tivesse apresentado esse cenário há um ano, dizendo que teríamos uma guerra, combustível a US$ 4 por galão e toda essa instabilidade, muitos imaginariam uma crise muito mais profunda. O que estamos vendo é que as empresas estão conseguindo repassar parte desses custos, os clientes continuam comprando e os aviões seguem lotados. As tarifas atingiram níveis que poucos acreditavam ser possíveis e ainda não estamos vendo uma queda significativa da demanda"

Adrian Neuhauser, CEO do Grupo Abra

Segundo Adrian, existe uma percepção generalizada entre os líderes do setor de que crises se tornaram parte da rotina. "Todos já passaram por crises de combustíveis, crises econômicas e eventos de todos os tipos. Chega um momento em que simplesmente seguimos em frente e fazemos o trabalho", disse ele.

Hedge divide estratégias entre Europa e Américas

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Adrian Neuhauser, CEO do Grupo Abra
Adrian Neuhauser, CEO do Grupo Abra

Um dos temas mais debatidos do painel foi a política de hedge de combustível, amplamente utilizada por companhias europeias e menos comum entre empresas das Américas. Na ocasião, Neuhauser criticou a prática ao argumentar que ela pode criar distorções competitivas.

"Nas Américas, de forma geral, operamos com pouca proteção ou com níveis muito limitados de hedge. Na Europa, as companhias costumam estar mais protegidas. O problema é que o hedge cria uma assimetria invisível. Em momentos de choque, algumas empresas ficam protegidas e não precisam reajustar preços na mesma intensidade, enquanto outras enfrentam custos mais altos imediatamente. Isso acaba gerando um desalinhamento competitivo"

Adrian Neuhauser, CEO do Grupo Abra

Adrian ainda ironizou a atividade. "Se eu fosse realmente bom em negociar petróleo, deveria trabalhar no mercado de commodities, não administrando uma companhia aérea."

Luís Rodrigues, CEO da Tap, classificou o hedge como uma ferramenta essencial para enfrentar períodos de volatilidade. "O hedge é um componente vital da nossa estratégia de resposta. Neste momento ele está ajudando a nos proteger, embora possa eventualmente ter um efeito contrário no futuro. Não existe uma solução mágica para lidar com situações como a que estamos vivendo", destacou.

Demanda continua forte apesar da alta nos custos

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Painel dos CEOs na Reunião Geral da Iata
Painel dos CEOs na Reunião Geral da Iata

Apesar do aumento dos custos operacionais e dos reajustes tarifários, os dois executivos concordaram que o consumidor ainda demonstra disposição para viajar. Luís Rodrigues frisou que o mercado continua presente e a demanda continua lá.

"As pessoas entendem o que está acontecendo porque elas próprias enfrentam a alta dos combustíveis quando abastecem seus carros. Não é diferente para as companhias aéreas. Elas sabem que precisarão pagar um pouco mais para preservar suas férias ou suas viagens de negócios"

Luís Rodrigues, CEO da Tap

Neuhauser, porém, alertou que a maior preocupação não é o preço do combustível em si, mas uma eventual deterioração da demanda provocada pela inflação. "O combustível caro é a realidade. O pesadelo seria uma queda da demanda. Há aumentos de preços em toda a economia: supermercado, energia, serviços. Em algum momento o consumidor pode decidir que não vai mais viajar. Se isso acontecer, não existe ajuste tarifário que resolva o problema. A única saída é reduzir capacidade", disse o CEO.

Tap critica excesso de regulação na Europa

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Luís Rodrigues, CEO da Tap
Luís Rodrigues, CEO da Tap

Luís Rodrigues aproveitou o debate para fazer críticas ao ambiente regulatório europeu, especialmente no que se refere ao controle do tráfego aéreo e à lentidão na implementação de reformas estruturais.

"O regime regulatório europeu e toda a sua complexidade são fenomenais, mas simplesmente não estão funcionando. Vou todos os anos às reuniões da Airlines for Europe e escuto exatamente os mesmos debates sobre a falta de progresso no setor"

Luís Rodrigues, CEO da Tap

Questionado sobre a capacidade de influência política das companhias europeias, Rodrigues admitiu que o setor enfrenta dificuldades para obter respostas dos governos. "Fazemos pressão. Apenas não recebemos a mesma resposta que as companhias americanas costumam receber de seus políticos", completou.

O lado humano da aviação

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Adrian Neuhauser, CEO do Grupo Abra
Adrian Neuhauser, CEO do Grupo Abra

Apesar dos desafios econômicos, regulatórios e ambientais, os dois executivos encerraram suas participações destacando o impacto social da aviação. Neuhauser, por exemplo, afirmou que o setor frequentemente esquece o caráter transformador de sua atividade.

"O que fazemos é mágico. Às vezes ficamos presos aos problemas do dia a dia e esquecemos que conectamos pessoas. Você dorme em um lugar e acorda em outro completamente diferente. Reencontra amigos, fecha negócios, conhece novas culturas. Quando voltamos a olhar para esse lado humano, a paixão pela aviação renasce"

Adrian Neuhauser, CEO do Grupo Abra

Já Rodrigues compartilhou visão semelhante ao explicar o que o motiva a continuar na indústria. "Todos os dias recebemos cartas de agradecimento. Pessoas que conseguimos reunir com suas famílias, crianças doentes que transportamos para tratamento, idosos que ajudamos a voltar para casa. No fim, é isso que dá sentido ao nosso trabalho", complementou o CEO da Tap.

A PANROTAS viaja a convite da Iata, voando Latam Airlines.

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Sobre o autor

Natural do Rio de Janeiro, Pedro Menezes é bacharel em Comunicação Social/Jornalismo e atua há 12 anos na imprensa especializada em Turismo. Atualmente, é editor do maior portal brasileiro voltado a profissionais do setor, com base em São Paulo. O jornalista tem experiência em cobertura nacional e internacional de feiras, congressos e eventos, além de pautas de política e economia ligadas ao Turismo.