FAA garante que IA aliviará o problema de atrasos de voos nos EUA; veja como
Especialistas, no entanto, alertam que a FAA pode estar sendo otimista demais

Muitos passageiros já passaram por atrasos de voos nos Estados Unidos. Agora, a Administração Federal de Aviação (FAA) do país promete que o problema será significativamente reduzido em apenas alguns anos, à medida que implementa duas soluções apoiadas por inteligência artificial para gerenciar o espaço aéreo norte-americano.
A FAA concedeu um contrato de US$ 875 milhões à empresa Air Space Intelligence (ASI), sediada em Boston, para implementar suas soluções de gerenciamento de tráfego aéreo.
Segundo a agência, os produtos "serão capazes de reunir todos os dados críticos em uma única plataforma e identificar de forma proativa atrasos e disponibilidade do espaço aéreo para mitigá-los com dias, semanas e até meses de antecedência".
Especialistas, no entanto, alertam que a FAA pode estar sendo otimista demais, especialmente em relação ao plano de concluir a implementação total das soluções antes do fim de 2028 (cronograma que coincide com o término do mandato do presidente Donald Trump).
"Estou otimista em relação ao sistema, mas cético quanto aos prazos", afirma Philip Mann, especialista em Sistema Nacional do Espaço Aéreo e consultor que trabalhou durante 17 anos na FAA.
Quais são as novas soluções de gerenciamento de tráfego aéreo?
O primeiro dos dois sistemas da ASI, chamado Strategic Management of Airspace, Routes and Trajectories (Smart), deverá passar por testes de validação operacional pela FAA neste outono no Hemisfério Norte, antes de ser implementado em maior escala.
O Smart será uma plataforma apoiada por inteligência artificial que utilizará dados para antecipar conflitos e congestionamentos no espaço aéreo e recomendar aos controladores ajustes de rotas e horários de decolagem antes mesmo de as aeronaves deixarem o portão de embarque.
Já a segunda plataforma, denominada Flow Management Data and Services (FMDS), é descrita pela FAA como a futura espinha dorsal do Centro de Comando do Sistema de Controle de Tráfego Aéreo.
O FMDS deverá analisar, com meses de antecedência, as programações das companhias aéreas, padrões históricos de clima, capacidade dos aeroportos e restrições operacionais previstas (como obras programadas em pistas) para prever o fluxo de tráfego aéreo.
Segundo Mann, a FAA utilizará essas informações para trabalhar antecipadamente com as companhias aéreas na redução da programação de voos em pontos críticos previstos, como o aeroporto de Newark durante o período de festas de fim de ano ou Oshkosh, no estado de Wisconsin, durante o tradicional evento anual AirVenture, dedicado à aviação experimental, realizado no fim de julho.
Depois que o FMDS estiver em operação, ele também servirá como banco de dados central utilizado pelo Smart para recomendar ações em tempo real aos controladores de tráfego aéreo.
A FAA afirma que os dois sistemas concentrarão todos os dados essenciais em uma única plataforma baseada em computação em nuvem, substituindo as diversas fontes de dados e cronogramas utilizados atualmente. Segundo a agência, o modelo deixará de ser reativo para se tornar preditivo e proativo.
Mann afirma que, se o sistema funcionar conforme prometido, os passageiros enfrentarão menos atrasos. Além disso, quando houver problemas provocados pelo clima, um planejamento mais eficiente deverá fazer com que esses atrasos fiquem mais restritos às regiões afetadas, em vez de se propagarem por toda a malha aérea.
"Em alguns casos, poderá haver menos voos disponíveis simplesmente porque não será permitido programar voos em áreas que não conseguem lidar com determinadas condições meteorológicas", explica.
Margaret Wallace, ex-controladora de tráfego aéreo da Força Aérea dos Estados Unidos e atualmente professora do Instituto de Tecnologia da Flórida, acredita que os sistemas da ASI ajudarão o Centro de Comando do Sistema de Controle de Tráfego Aéreo ao substituir processos manuais por automação. Segundo ela, isso permitirá um uso mais eficiente do espaço aéreo, incluindo melhores alternativas de rotas para evitar tempestades e áreas de turbulência.
No entanto, ela afirma ter ficado surpresa com a decisão da FAA, tomada em maio, de reduzir sua meta de quadro de controladores em mais de dois mil profissionais, passando para 12.563 controladores em 2028. Entre as justificativas apresentadas pela agência para a mudança estão justamente os avanços tecnológicos.
As companhias aéreas vão aderir?
Um possível obstáculo para o Smart e o FMDS é a adesão das companhias aéreas, especialmente quando a FAA decidir reduzir preventivamente a quantidade de voos programados.
Por enquanto, as empresas demonstram apoio. Em comunicado divulgado no mês passado, a associação Airlines for America classificou o programa como um passo encorajador.
Um porta-voz da FAA afirma que a agência já trabalha com as companhias aéreas para garantir que a implementação de um novo modelo de gerenciamento do espaço aéreo seja justa para todas as transportadoras.
Segundo Mann, sua preocupação com os prazos está relacionada à forte interdependência entre os diversos projetos que compõem a modernização do sistema de controle de tráfego aéreo. Para que o Smart e o FMDS atinjam todo o seu potencial, será necessário concluir e validar novos sistemas de rastreamento de aeronaves, tecnologias mais avançadas de detecção meteorológica, novas redes de fibra óptica e diversas outras melhorias.
Na avaliação do especialista, concluir tudo isso em apenas dois anos é improvável. Mas nem todos os analistas acreditam que uma solução centralizada conduzida pela FAA seja o melhor caminho.
Michael Baiada, ex-piloto da United Airlines e fundador da ATH Group, empresa que desenvolve softwares para ajudar companhias aéreas a gerenciar suas próprias operações de voo, compara essas operações a uma linha de produção.
Segundo ele, são as próprias companhias aéreas que estão em melhor posição para administrar suas filas de voos. "Transferir esse controle para a FAA por meio do sistema Smart, afirma Baiada, fará com que todas as empresas sejam niveladas pelo menor padrão de desempenho.
"Do ponto de vista de uma companhia aérea, é uma má decisão de negócios abrir mão do controle de um de seus principais ativos para o governo", conclui.
Com informações do site Travel Weekly.