A presença humana na Antártica - parte 6

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Renato Machado
Barcos de suporte para antigas embarcações se deterioram em praia da Ilha Enterprise
Barcos de suporte para antigas embarcações se deterioram em praia da Ilha Enterprise

ANTÁRTICA - A natureza em seu estado mais puro. Essa é uma maneira simples de resumir com o que o passageiro de um cruzeiro expedicionário irá se deparar durante sua estada na Antártica. Invariavelmente uma viagem por lá será desenhada em torno da rica fauna local e das N formas e texturas do gelo - ambos extremamente complexos e que demandam suporte para melhor compreendê-los. Ainda assim, a presença humana na região tem sua parcela de atenção.


Na sexta parte do diário da expedição rumo à Antártica, realizada a bordo do Le Soléal, da Ponant, falo sobre os homens que frequentaram essa região antes dos navios de cruzeiro. Se hoje o lugar hospeda cientistas e pesquisadores, no passado outro tipo de exercício era lá praticado.


Bem da verdade alguns dos primeiros exploradores tinham objetivos similares aos dos pesquisadores de hoje. Queriam observar a vida neste ambiente tão extremo para melhor entender o nosso planeta. Mas nem sempre as causas foram assim nobres.


A ANTÁRTICA DE UM MUNDO DEPENDENTE


Se uma expedição à Antártica no século 21 já é algo fora do comum, imaginem essa mesma jornada sem as tecnologias e o conhecimento de hoje. Os primeiros a tentar estudar o continente o fizeram no início dos anos 1900.


A expedição do dia trataria de vida selvagem, como já era praxe, mas também abordaria um lado novo para mim: aqueles que frequentaram essa zona antes de nós. Na parte 3deste diário eu já comentei brevemente sobre a expedição sueca que, em 1903, passou um inverno abrigada em Paulet Island. Dessa vez, em Enterprise, a história era diferente.


Durante todo o século 20, a Antártica foi frequentada por navios europeus, americanos e japoneses que buscavam na região a matéria prima para diversos produtos do cotidiano das cidades. Esse era um trabalho feito pelos baleeiros; a banha das baleias era a matéria prima em questão.


Estima-se que 1,25 milhão de baleias foram assassinadas num período inferior a 100 anos. Com o óleo proveniente da banha eram produzidos sabonetes, lubrificantes, cosméticos e uma porção de outros produtos de grande consumo - daí a necessidade de sempre caçar mais e mais baleias.


Em 1916, no entanto, as coisas não saíram como planejado. A embarcação sueca Gouvenoren parara em uma baía calma do arquipélago de Enterprise. A tripulação em festa, celebrando o final do ano, não conseguiu conter um incêndio iniciado no porão do navio. O resultado foi o naufrágio exposto hoje aos visitantes.


O enferrujado esqueleto agora é adereço na encosta congelada. Os artefatos humanos hoje sepultados na Antártica são relíquias preservadas da história do continente - a História Polar, aliás, é uma disciplina e a guia francesa Cécile Manet, fascinada pela matéria, foi quem me deu introduziu a todos esses detalhes das expedições passadas.


Aquele monstro laranja e sem vida era só uma das memórias visíveis deste local. A história daquela embarcação acabou ali, a trajetória dos baleeiros antárticos também teve seu fim, mas a vida no continente seguiu.


A Antártica chega a nós, na vida real, como um mundo frágil e efêmero, um pedaço coitado do planeta. Não é. A resiliência daquele local e das espécies que ali vivem me soam como um ativismo natural, beira a provocação ao que a humanidade tem feito com a nossa casa.


As baleias se reproduzem e as estações do ano se intercalam mesmo com o esforço humano em trabalhar conforme as nossas regras. Tratar da mudança climática como algo puramente natural e fingir que a humanidade não tem responsabilidade nisso é covarde.


A natureza por ora resiste, mas pode ser que não seja assim para sempre. Visitar a Antártica nos ensina muitas coisas e a principal delas é que precisamos, sim, repensar nossas ações.


Veja mais fotos no álbum abaixo

O diário de bordo segue esta semana aqui no Portal PANROTAS. Leia aqui a parte 1, parte 2, parte 3, parte 4 e parte 5. O cruzeiro expedicionário da Ponant rumo à Antártica também é destaque na edição desta semana da Revista PANROTAS, não deixe de conferir!


O Portal PANROTAS viajou a convite da Qualitours e da Ponant

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