Pedro Menezes   |   01/07/2026 08:00

Booking.com implementa nova comissão de 18% e passa a impactar ganhos da hotelaria

Implementação da medida ocorre pouco mais de um mês de forte tensão entre a OTA e a hotelaria nacional


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Nova política de comissionamento no Brasil faz com que a plataforma passe a cobrar uma taxa padrão de 15% dos hotéis parceiros, enquanto empreendimentos do programa Preferencial passam a pagar uma comissão de 18%
Nova política de comissionamento no Brasil faz com que a plataforma passe a cobrar uma taxa padrão de 15% dos hotéis parceiros, enquanto empreendimentos do programa Preferencial passam a pagar uma comissão de 18%

A Booking.com implementa nesta quarta-feira, dia 1° de julho, a nova taxa de comissão preferencial de 18% para hoteleiros brasileiros. O anúncio, comunicado aos parceiros comerciais no fim de maio, acabou gerando uma reação imediata na hotelaria, que chegou a acionar o Cade para tentar reverter a situação atual.

A mudança impacta fortemente as margens operacionais de hotéis, sobretudo os de menor porte, que possuem alta dependência da plataforma. Isto porque, a nova política de comissionamento no Brasil faz com que a plataforma passe a cobrar uma taxa padrão de 15% dos hotéis parceiros, enquanto empreendimentos do programa Preferencial passam a pagar uma comissão de 18%.

A implementação da medida ocorre pouco mais de um mês de forte tensão entre a OTA e a hotelaria nacional. Desde que a mudança foi anunciada, em maio, entidades representativas do setor têm se mobilizado contra o reajuste, classificando a decisão como unilateral, abrupta e potencialmente prejudicial à sustentabilidade financeira de milhares de empreendimentos, especialmente os independentes e de menor porte.

Hoteleiros argumentam que a mudança foi comunicada com menos de 60 dias de antecedência, inviabilizando o provisionamento adequado dos custos em um exercício orçamentário que já havia sido fechado e aprovado junto a investidores no ano anterior. Para alguns dos hotéis ouvidos pelo Portal PANROTAS nas últimas semanas, a elevação da taxa para 18% representa um aumento relevante justamente em um momento de forte pressão sobre as margens operacionais do setor.

Segundo as entidades, o anúncio ocorre em um cenário particularmente delicado para a hotelaria brasileira. Além da volatilidade do mercado global de viagens, os hotéis convivem simultaneamente com a alta das tarifas aéreas, os impactos da implementação da Reforma Tributária, que introduzirá IBS e CBS, e as incertezas relacionadas às discussões sobre jornadas de trabalho, fatores que já pressionam os custos de operação.

Impacto maior para os independentes

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Muitos empreendimentos chegam a concentrar entre 80% e 100% de seu inventário na Booking.com.
Muitos empreendimentos chegam a concentrar entre 80% e 100% de seu inventário na Booking.com.

Uma das principais preocupações recai sobre os hotéis independentes e de menor porte, que possuem alta dependência da plataforma para gerar reservas. Fontes ouvidas pelo Portal PANROTAS apontam que muitos empreendimentos chegam a concentrar entre 80% e 100% de seu inventário na Booking.com.

Sem equipes comerciais robustas ou forte capacidade de distribuição própria, estabelecimentos de menor porte passam a enfrentar um dilema delicado: absorver a redução das margens ou perder visibilidade em um dos principais canais de distribuição do mercado.

A preocupação também é compartilhada pela Brazilian Luxury Travel Association (BLTA). A entidade lembra que boa parte do Turismo de luxo brasileiro é formada por empresas independentes que operam com estruturas enxutas e altos custos de serviço.

Segundo a CEO da BLTA, Camilla Barretto, cerca de 75% dos associados da entidade possuem menos de 60 unidades habitacionais. Como a prestação de serviços de excelência exige equipes maiores e elevado investimento em mão de obra, qualquer aumento de custos que reduza as margens operacionais acaba trazendo desafios relevantes ao negócio.

Reação coordenada do setor chega ao Cade

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Alexandre Sampaio, presidente da FBHA
Alexandre Sampaio, presidente da FBHA

A primeira reação organizada veio ainda em maio, quando o Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), a Resorts Brasil e a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH Nacional) enviaram um manifesto formal à Booking.com. No documento, as entidades reconheceram a importância histórica da plataforma para a visibilidade internacional da hotelaria brasileira, mas defenderam a abertura de uma mesa de negociações.

As entidades propuseram três medidas principais:

  • Criação de um fórum permanente de alinhamento entre os executivos da Booking.com e representantes da hotelaria;
  • Postergação da entrada em vigor das novas taxas para 1º de janeiro de 2027, permitindo o planejamento orçamentário adequado;
  • Revisão dos percentuais propostos, de forma a preservar a capacidade de investimento da plataforma sem comprometer excessivamente a rentabilidade dos hotéis.

O pleito, entretanto, não avançou e o caso chegou ao Cade, como vimos na semana passada, quando a Federação Nacional de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares (FNHRBS), o Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (Fohb), a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH Nacional), a Associação Brasileira de Resorts (ABR), a Brazilian Luxury Travel Association (BLTA) e a Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA) protocolaram uma representação formal junto ao Conselho.

As entidades pedem a abertura de inquérito ou processo administrativo para apurar as condutas da empresa, a adoção de uma medida preventiva que suspenda a implementação da comissão de 18% até o julgamento definitivo do caso e, caso seja constatada infração concorrencial, a aplicação das sanções previstas em lei.

A representação também solicita que o Cade requisite à Booking.com informações sobre sua participação de mercado no Brasil, documentos relativos à implementação de políticas semelhantes em outros mercados das Américas e os contratos-padrão firmados com os hotéis parceiros.

Antes de recorrer ao Cade, a FBHA enviou correspondências à Booking.com questionando os impactos da medida. Em resposta, segundo as entidades, a plataforma apresentou justificativas genéricas relacionadas a investimentos em novas soluções financeiras, ferramentas de pagamento e infraestrutura tecnológica, sem detalhar prazos, custos ou benefícios concretos para os parceiros.

Posteriormente, a FBHA encaminhou um segundo ofício propondo a postergação da vigência para janeiro de 2027 e a revisão dos percentuais. Sem resposta até a data do protocolo da representação, as entidades decidiram formalizar a denúncia junto ao órgão antitruste.

Na Espanha, empresa está sendo pressionada por hoteleiros

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Mais de 1,4 mil empresas do setor de hotelaria e Turismo estão se organizando para mover uma ação coletiva contra a plataforma
Mais de 1,4 mil empresas do setor de hotelaria e Turismo estão se organizando para mover uma ação coletiva contra a plataforma

A discussão no Brasil acontece em meio a um cenário internacional igualmente delicado para a Booking.com. Na Espanha, mais de 1,4 mil empresas do setor de hotelaria e Turismo estão se organizando para mover uma ação coletiva contra a plataforma. Entre os participantes estão hotéis independentes e grandes redes, que acusam a empresa de ter praticado condições comerciais consideradas abusivas durante anos.

A principal reclamação envolve as chamadas cláusulas de paridade tarifária, que impediam os hotéis de oferecer tarifas mais baixas em outras plataformas ou em seus próprios canais de venda. Segundo estimativas divulgadas na Espanha, os hotéis podem recuperar até 7,3% das comissões pagas ao longo dos anos.

Além disso, a plataforma também enfrenta outras frentes regulatórias na Europa, incluindo uma multa recorde na Espanha, medidas de intervenção de preços na Suíça e uma investigação aberta em abril deste ano pela autoridade antitruste da Itália.

Posição da Booking.com

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Booking.com afirma que atualização busca alinhar as operações locais às práticas já adotadas em diversos mercados internacionais
Booking.com afirma que atualização busca alinhar as operações locais às práticas já adotadas em diversos mercados internacionais

Em posicionamento enviado anteriormente ao Portal PANROTAS, a Booking.com afirmou que acompanha atentamente as discussões do setor e mantém diálogo aberto com autoridades, entidades da indústria e parceiros de acomodação.

A empresa destaca que suas condições comerciais permaneceram inalteradas no Brasil durante os últimos 12 anos e que a atualização busca alinhar as operações locais às práticas já adotadas em diversos mercados internacionais.

Segundo a OTA, a taxa padrão no Brasil continuará em 15%, enquanto o percentual de 18% será aplicado exclusivamente às propriedades participantes do programa Preferencial.

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Sobre o autor

Natural do Rio de Janeiro, Pedro Menezes é bacharel em Comunicação Social/Jornalismo e atua há 12 anos na imprensa especializada em Turismo. Atualmente, é editor do maior portal brasileiro voltado a profissionais do setor, com base em São Paulo. O jornalista tem experiência em cobertura nacional e internacional de feiras, congressos e eventos, além de pautas de política e economia ligadas ao Turismo.