Reforma tributária inaugura nova fase para o Turismo brasileiro; entenda por quê
Debatida por décadas e em processo de regulamentação, novo regime começa a produzir efeitos práticos

A Reforma Tributária do Brasil promete proporcionar uma completa mudança estrutural no sistema de impostos, com objetivo de simplificar a cobrança, reduzir a cumulatividade (imposto sobre imposto) e modernizar a economia. Debatida por décadas e finalmente em processo de completa regulamentação, a reforma tributária começa a produzir efeitos práticos para empresas e consumidores já neste ano de 2026.
Embora o novo sistema tributário seja implementado gradualmente até o início da próxima década, este ano marca o começo da fase operacional da mudança, o que coloca o setor de Turismo diante de um novo cenário de planejamento, custos e competitividade. Isto porque a alteração vai muito além de ajustes contábeis.

A reforma atinge a forma como serviços são tributados, como empresas estruturam contratos, como sistemas emitem notas fiscais e, sobretudo, como preços finais chegam ao consumidor. Para um setor cuja atividade depende de intermediação, prestação de serviços e venda de experiências, como o Turismo, qualquer mudança tributária altera diretamente margens, fluxo de caixa e estratégias comerciais.
"A reforma tributária é inevitável. O que muda é a forma como cada empresa reage a ela. Quem entender cedo os impactos e de organizar terá menos dificuldades. Quem ignorar o tema pode ser surpreendido quando os efeitos parecem nos custos e no fluxo de caixa. O Turismo brasileiro está entrando em uma fase de maior profissionalização, e essa mudança será determinante para o futuro de muitas empresas"
Luiz Carlos Benner, professor, contador e especialista em tributação
E mesmo diante desse cenário, o Turismo inicia 2026 com expectativa positiva de crescimento. A pesquisa Pulso Turismo: Expectativas 2026, realizada pelo Trvl Lab em parceria com o Travel Leaders Hub e a PANROTAS, revelou que os empresários ainda projetam aumento de receita e expansão da demanda, especialmente puxada pelo lazer e por grandes eventos internacionais. No entanto, a mesma pesquisa revela que a reforma tributária já é um dos principais fatores de incerteza para o setor: apenas 32,48% das empresas afirmam estar preparadas para lidar com as mudanças, enquanto quase metade admite ainda não saber avaliar o próprio nível de preparação.
O paradoxo é claro: o mercado espera crescimento sustentável e contínuo, mas reconhece que irá atravessar um dos períodos mais complexos de adaptação regulatória de sua história recente por conta de tantas mudanças simultâneas e consequente aumento dos tributos que acabam influenciando o consumidor final.
Para que possamos mensurar e entender os impactos da reforma tributária no Turismo, detalhar números, explicar cenários por tipo de empresa e apontar estratégias práticas para atravessar esse novo ciclo com mais segurança, conversamos com dois especialistas no assunto: Luiz Carlos Benner, professor, contador e especialista em tributação; e Queli Morais, advogada tributarista e sócia de Tributos Indiretos da BDO.
Simplificação do sistema significa imposto menor e preços devem subir
Um dos maiores equívocos é acreditar que a simplificação do sistema tributário resultará automaticamente em redução de impostos. O professor e especialista em tributação Luiz Carlos Benner, logo de cara, já afirma que essa leitura, embora compreensível, não corresponde ao que deve ocorrer na prática.
"A reforma tributária simplifica o sistema de cobrança, mas isso não quer dizer que o imposto vai diminuir. Essa é uma confusão comum entre empresários. O que muda é a forma como o imposto é cobrado, não necessariamente o valor total arrecadado. O governo busca reduzir a complexidade, acabar com disputas entre Estados e municípios e tornar o sistema mais transparente. Porém, quando olhamos para setores intensivos em serviços, como é o caso do Turismo, a tendência é que a carga tributária aumente ao longo da transição. E isso atinge praticamente toda a cadeia, desde hotelaria e transpor-te até agências e operadoras, que trabalham com margens já pressionadas e que terão dificuldade de absorver custos adicionais sem repassar parte disso ao consumidor”, diz Luiz Carlos Benner.
Segundo o especialista, a consequência inevitável é que, em algum momento, o aumento chega ao preço das viagens.
“No fim do processo, quem paga imposto é sempre o consumidor. As empresas podem absorver parte do custo por algum tempo, tentando preservar competitividade, mas isso não se sustenta. Quando a carga aumenta, o impacto acaba aparecendo no preço. Portanto, é natural que viajar fique mais caro ao longo desse processo. Não é algo imediato, nem uniforme, mas tende a ocorrer à medida em que o novo sistema vai substituindo o antigo e os custos passam a refletir a nova estrutura tributária.”
Luiz Carlos Benner, professor, contador e especialista em tributação
Essa incerteza se reflete também nas expectativas do mercado. Parte das empresas acredita que os preços devem permanecer estáveis em 2026, enquanto outra parcela projeta reajustes relevantes. A falta de consenso mostra que muitas empresas ainda não fizeram simulações completas sobre como serão afetadas.

A advogada tributarista Queli Morais, sócia de Tributos Indiretos da BDO, compactua da mesma opinião sobre o aumento de preços das viagens. “A Reforma Tributária pode aumentar o custo das viagens para o consumidor final, esse aumento pode impactar diretamente nos serviços de hospedagem, pacotes turísticos, passeios, atrações e os serviços de transporte turístico, os quais eram tributados como serviços, pelo ISS (alíquotas de 2% a 5%) e ficarão sujeitos ao IBS (que poderá atingir alíquota de 17,7%). Já o atual PIS e COFINS, será substituído pela CBS (que poderá atingir alíquota de 8,8%)”, disse.
O que podemos afirmar, lembra Queli Morais, é que o impacto nos preços dependerá de vários fatores: tipo de fornecedor (optante ou não pelo Simples Nacional), da estrutura da empresa, aproveitamento de créditos e dos repasses total ou parcial ao consumidor.
Impacto muda da agência de lazer para agência de viagens corporativas
Outro ponto levantado pelos especialistas é que o impacto não será igual para todas as empresas do setor. O tipo de cliente atendido pode alterar significativamente o efeito da nova tributação. Neste caso, Benner explica que as operações voltadas ao mercado corporativo podem sofrer menos impacto do que vendas para consumidores finais.
"Quando a agência de viagens vende para uma empresa, essa mesma empresa consegue aproveitar créditos tributários gerados na operação. Ou seja, parte do imposto pago pode ser recuperada pelo cliente corporativo, reduzindo o impacto real no custo da viagem. Já quando a venda é feita para pessoa física, não existe esse mecanismo. O consumidor final paga integralmente o imposto embutido no preço.
Luiz Carlos Benner, professor, contador e especialista em tributação
Isso significa que agências focadas em lazer podem sentir mais pressão sobre preços e margens do que aquelas com carteira corporativa. Muitas empresas ainda não perceberam que essa mudança pode influenciar inclusive suas estratégias comerciais e seu posicionamento de mercado nos próximos anos”, destacou o especialista em tributação.
Ele afirma ainda que essa diferença pode claramente levar empresas a revisarem modelos de negócio. "Algumas agências de viagens vão perceber que precisarão aumentar participação no segmento corporativo. Outras vão ter de revisar taxas de serviço, comissões e margens. Não é apenas uma mudança contábil. É uma mudança estratégica. Quem entender isso cedo terá vantagem competitiva, porque conseguirá se adaptar antes e negociar melhor com fornecedores e clientes”, declarou Luiz Carlos.
Adequação fiscal passa a ser obrigatória
Além do impacto nos custos, 2026 marca também mudanças práticas no dia a dia das empresas, especialmente na emissão de documentos fiscais. Segundo Benner, muitas empresas ainda operam de forma parcialmente informal nesse aspecto e precisarão se adequar rapidamente. Isto porque, quando a empresa passa a emitir corretamente suas notas, ela também precisa ajustar sistemas, controles internos e fluxo financeiro.
“Existe ainda no mercado, principalmente em pequenas operações, a prática de emitir apenas recibos ou operar sem estrutura fiscal completamente organizada. Isso tende a acabar. A exigência de emissão correta de nota fiscal, com detalhamento adequado das operações, passa a ser regra. O sistema tributário se torna mais integrado digitalmente, e o cruzamento de dados entre empresas e governo será cada vez mais eficiente. Quem não estiver organizado pode enfrentar problemas fiscais e operacionais. A adaptação não é opcional.”
Queli Morais, sócia de Tributos Indiretos da BDO, reforça que o impacto vai além da contabilidade e exige revisão operacional ampla. Ela lembra que a mudança também exige revisão de contratos e sistemas internos das empresas de Turismo.
“A reforma tributária muda a lógica de tributação dos serviços turísticos e isso tem impacto direto tanto nos custos das empresas quanto nos preços cobrados dos consumidores. Muitas empresas ainda enxergam a mudança apenas como ajuste fiscal, mas ela exige revisão contratual, reestruturação de processos e atualização tecnológica. Contratos de longo prazo precisarão prever ajustes de preço, fornecedores terão de renegociar condições comerciais e empresas precisarão revisar como organizam suas operações para evitar perda de margem ao longo da transição.”
Queli Morais, sócia de Tributos Indiretos da BDO
Ela explica que serviços atualmente tributados por ISS, com alíquotas relativamente baixas, passam a ser impactados por uma nova estrutura de impostos. "Quando falamos de serviços turísticos, estamos falando de operações que hoje pagam ISS entre 2% e 5%. Com o novo modelo, parte dessas operações passa a ser impactada por IBS e CBS, cuja carga pode ser significativamente maior dependendo da composição da operação. Isso exige planejamento. Empresas precisam simular cenários, entender como o crédito tributário funciona e avaliar como absorver ou repassar custos. Não fazer esse trabalho agora pode gerar surpresas negativas nos próximos anos”, complementou.
O que fazer em 2026
Segundo Queli, 2026 será decisivo para adequação operacional. "Esse é o momento de atualizar sistemas, adaptar emissão de notas fiscais, treinar equipes financeiras e revisar contratos comerciais. Muitas empresas ainda estão em fase de observação, mas o ideal é que a preparação já esteja em curso. Quanto antes a empresa entender como será afetada, maior será sua capacidade de se ajustar sem comprometer competitividade”, diz ela.
Tanto é que a transição será longa e trará um período de grande confusão operacional logo neste começo para grande parte das empresas, o que é natural, aumentando temporariamente a complexidade. Neste caso, Benner explica que empresas precisarão conviver simultaneamente com o sistema antigo e o novo.
“Existe uma expectativa de que, quando a reforma entrar em vigor, tudo ficará mais simples imediatamente. Na prática, acontece o contrário. Durante vários anos, teremos convivência entre impostos antigos e novos, exigindo controles paralelos, ajustes constantes e revisão de processos. Antes de melhorar, o sistema tende a ficar mais confuso. Empresas que começarem a se adaptar agora terão mais tempo para ajustar rotinas e corrigir problemas. Quem deixar para depois enfrentará dificuldades maiores quando a mudança chegar de fato ao caixa”, destacou Benner.
Dicas rápidas para empresas de Turismo
- Acompanhe diariamente a regulamentação: as regras detalhadas, incluindo alíquotas diferenciadas e possibilidades de crédito, ainda estão sendo definidas. Fique atento às atualizações da Receita Federal e das entidades do setor, como Abav e Fecomércio, que acompanham e discutem o tema continuamente;
- Analise seu regime tributário atual: empresas enquadradas no Simples Nacional ou no Lucro Presumido devem reavaliar qual regime será mais vantajoso com a nova sistemática. Os serviços de hotelaria, por exemplo, poderão ver uma elevação significativa na alíquota, mesmo considerando a redução de até 40% prevista para o setor. Já os optantes pelo Simples Nacional poderão adotar tributação regular específica para IBS e CBS, o que possibilitará crédito integral para o tomador dos serviços.
- Reviste sua política de preços e contratos: com o possível aumento da carga tributária para determinados serviços, é fundamental planejar reajustes com antecedência, bem como, incluir cláusulas contratuais que permitam a renegociação dos preços em caso de alteração de índices ou tributo e indicar de forma expressa todos os tributos incidentes no preço, facilitando futuras discussões comerciais.