CNC vê pressão de custos sobre hotéis com reforma tributária e fim da escala 6x1
Fabio Bentes, economista-chefe da entidade, dá cenário econômico e impactos no Fórum da Hotelaria Nacional

A hotelaria brasileira vive um momento de crescimento da demanda, mas pode enfrentar uma pressão adicional sobre custos nos próximos anos. Esse foi um dos alertas apresentados pelo economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, durante o 8º Fórum Nacional da Hotelaria, do Fohb, nesta segunda-feira (14).
Em sua apresentação, Bentes destacou dois temas muito discutidos atualmente e que devem impactar diretamente a operação dos hotéis: a implementação da reforma tributária e as discussões sobre o fim da jornada de trabalho 6x1.
Segundo o economista, embora o Turismo e o setor de serviços estejam crescendo acima da média da economia brasileira, a evolução da receita precisa ser acompanhada de perto diante do aumento dos custos.
“Do ponto de vista da geração de receitas, a perspectiva é boa. O setor de Turismo e o setor de serviços devem crescer mais uma vez acima da média da economia. O que preocupa não é nem o custo, porque qualquer negócio no Brasil sabe que vai lidar com esse problema. O que preocupa é uma eventual redução da jornada”
Fabio Bentes, economista-chefe da CNC
Impactos da reforma tributária
Sobre a reforma tributária, Bentes chamou atenção para o período de transição, que começará em 2027 e se estenderá até 2033. Na avaliação do economista, a mudança poderá trazer um sistema mais simples no longo prazo, mas, no curto prazo, as empresas terão de conviver com dois modelos tributários simultaneamente.
Para a hotelaria, uma das principais preocupações é a alíquota efetiva que será aplicada ao setor. Bentes mencionou uma alíquota de referência próxima de 28%, com redução de 40% para a hotelaria, o que levaria a um percentual em torno de 17% sobre os serviços, embora os números finais ainda dependam da regulamentação.
“Temos uma preocupação, especialmente quando olhamos para os hotéis. A alíquota ainda não está definida e é preciso aguardar como ficará o imposto seletivo e quanto ele vai incidir sobre a realidade de cada setor”, explica.
Outro ponto destacado foi o chamado split payment, mecanismo pelo qual o tributo é recolhido diretamente no momento da transação. Para Bentes, a mudança pode afetar o capital de giro das empresas, já que hoje existe um intervalo entre a emissão da nota fiscal e o pagamento do imposto. “E isso pode afetar de forma significativa o dia a dia das empresas”, alerta.
O economista também destacou a importância de ampliar o sistema de créditos tributários durante a transição, especialmente para empresas de serviços, como hotéis.
E o fim da jornada 6x1?
A discussão sobre a redução da jornada de trabalho foi outro ponto de atenção. Bentes ressaltou que a hotelaria é particularmente sensível à mudança por ser um setor sazonal e intensivo em mão de obra.
Segundo dados apresentados por ele, mais de 90% dos trabalhadores formais da hotelaria estão submetidos atualmente a jornadas superiores a 40 horas semanais. Uma eventual mudança, portanto, teria impacto significativo sobre a operação dos hotéis.
“No setor de hotéis, 90% dos trabalhadores estão em jornada formal acima de 40 horas semanais. Estamos mexendo com mais de 90% da força de trabalho da indústria. Imagina um setor tão sazonal como o hotel, você tentar alterar a escala”
Fabio Bentes, economista-chefe da CNC
Bentes também questionou a capacidade de o mercado absorver uma necessidade maior de contratação, diante da atual escassez de profissionais no Turismo.
“A intenção é boa, o objetivo do trabalhador ou do governo é compreensível, mas a conta tem de fechar. Vai precisar contratar mais gente, mas não tem gente para trabalhar. Quantos hotéis e estabelecimentos comerciais se queixam da escassez de mão de obra? Isso é muito comum”, diz

De acordo com os cálculos apresentados pela CNC, caso a redução da jornada seja implementada nos moldes discutidos atualmente, o custo trabalhista da hotelaria poderia aumentar cerca de 27%.
Para Bentes, parte desse aumento poderia acabar chegando aos preços finais. Segundo ele, cada aumento de 1% na folha gera um impacto de 0,43% no preço. O repasse integral dos custos, no entanto, poderia comprometer a demanda em um mercado que já apresenta sinais de desaceleração.
Apesar dos alertas, o economista reforçou que não vê um cenário de “terra arrasada” para a hotelaria. O setor segue beneficiado pelo avanço do Turismo e pela chegada recorde de visitantes internacionais ao Brasil, mas precisará acompanhar de perto as mudanças estruturais que estão sendo discutidas.
“Não é terra arrasada. O que estamos vendo é uma desaceleração do setor de hotéis, perfeitamente compatível com uma taxa de juros de 14% ao ano. Mas é preciso ficar atento ao futuro”, conclui.