Da Redação   |   25/06/2026 11:58
Atualizada em 25/06/2026 12:08

Por que o setor de eventos ainda não consolidou espaço nas políticas públicas? Leia artigo

Abeoc explica como parte desse problema está na forma como eventos foram historicamente compreedidos


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Enid Câmara
Enid Câmara

O setor de eventos movimenta negócios, cria empregos, estimula inovação, fortalece cadeias produtivas, promove destinos... Conforme se observa a relevância, se torna mais difícil entender por que o setor ainda não se consolidou nas políticas públicas brasileiras.

Em artigo, Enid Câmara, presidente da Abeoc Brasil, explica como parte desse problema está na forma como os eventos foram historicamente compreendidos. "Durante décadas, prevaleceu a percepção de que eram atividades complementares, associadas ao entretenimento, à promoção turística ou à celebração de datas e ocasiões específicas", destaca ela.

Confira o texto na íntegra abaixo:

Por que o setor de eventos ainda não consolidou espaço nas políticas públicas?

"Poucos setores da economia brasileira conseguem gerar impactos tão amplos quanto o de eventos. Ele movimenta negócios, cria empregos, estimula a inovação, fortalece cadeias produtivas, promove destinos, atrai investimentos e produz conexões que geram desenvolvimento. Ainda assim, permanece à margem das grandes agendas estruturantes do país.

O paradoxo é evidente: quanto mais se analisa a relevância econômica e social dos eventos, mais difícil se torna compreender por que o setor ainda não consolidou seu espaço nas políticas públicas.

Parte da resposta está na forma como os eventos foram historicamente compreendidos. Durante décadas, prevaleceu a percepção de que eram atividades complementares, associadas ao entretenimento, à promoção turística ou à celebração de datas e ocasiões específicas. Pouco se reconhecia seu papel como instrumento de desenvolvimento econômico e competitividade. Como consequência, o setor cresceu impulsionado pela capacidade empreendedora de seus atores, mas sem o correspondente reconhecimento institucional de sua relevância estratégica.

O resultado é um setor que está presente em várias políticas, mas raramente ocupa posição central em alguma delas. Outro desafio histórico foi a ausência de dados consolidados, já que, durante muito tempo, faltaram informações capazes de demonstrar com precisão a dimensão econômica, social e territorial dos eventos. Em políticas públicas, aquilo que não é medido frequentemente tem dificuldade de ser priorizado.

Nesse contexto, o III Dimensionamento do Setor de Eventos no Brasil representa um marco para a consolidação institucional do segmento. Conduzido pela Abeoc Brasil e pelo Sebrae Nacional, com execução técnica do Observatório da Indústria do Ceará (FIEC/SENAI Ceará), e construído por meio de uma ampla articulação das entidades ALAGEV, IFEA Latin America, Academia Brasileira de Eventos e Turismo, ANPPE, ABRAPE, AMPRO, UNEDESTINOS, EMBRATUR, UBRAFE, ABRAFESTA, ABRACE, ABEFORM, SINDIPROM, CETUR/CNC e FBHA, o estudo trouxe evidências robustas sobre a relevância dos eventos para a economia nacional.

Os números ajudam a dimensionar a relevância do setor. Aproximadamente 300 mil empresas integram a cadeia produtiva, responsável pela realização de 10,1 milhões de eventos por ano, mobilizando 1,7 bilhão de participações de público, gerando cerca de 12,7 milhões de empregos e movimentando R$ 813,5 bilhões em faturamento, o equivalente a 4,6% do PIB brasileiro. Poucos segmentos da economia reúnem, simultaneamente, tamanha capacidade de gerar riqueza, criar oportunidades de trabalho, impulsionar a circulação de pessoas e dinamizar economias locais e regionais.

Diante desses números, a pergunta deixa de ser por que os eventos merecem políticas públicas estruturadas e passa a ser outra: por que um setor com essa relevância ainda não ocupa posição central na agenda pública nacional?

Mais do que estatísticas, o referido estudo oferece algo essencial para o futuro do setor: visibilidade econômica. Governos formulam políticas públicas com base em evidências e, quanto mais robustas forem as informações disponíveis, maior será a capacidade de demonstrar o impacto dos eventos na geração de renda, na arrecadação tributária, na competitividade dos destinos e no fortalecimento das cadeias produtivas.

A pandemia da Covid-19 tornou essa realidade ainda mais evidente. Quando as atividades presenciais foram interrompidas, milhares de empresas e profissionais foram diretamente impactados. O período revelou não apenas a importância econômica dos eventos, mas também sua fragilidade institucional.

Ficou claro que a relevância do setor era muito maior do que sua presença nas estruturas permanentes de planejamento governamental. As medidas emergenciais adotadas naquele momento foram fundamentais para preservar empresas e empregos. Entretanto, também deixaram uma importante lição: setores estratégicos não podem depender exclusivamente de respostas emergenciais para garantir sua sobrevivência.

Foi justamente a partir desse diagnóstico que a Abeoc Brasil intensificou o diálogo institucional junto ao Congresso Nacional e a diversas instituições públicas em defesa da construção de uma política pública permanente para o setor. Nesse contexto, a entidade construiu, em conjunto com o deputado federal Luiz Gastão (PSD-CE), o Projeto de Lei nº 1.905/2026, que institui o Marco Legal dos Eventos e a Política Nacional Permanente para o Setor de Eventos.

A proposta incorpora a criação de um Sistema Nacional de Eventos, de um Observatório Nacional de Eventos para produção contínua de dados e inteligência econômica, além de programas permanentes de qualificação profissional, linhas de crédito adequadas à realidade do setor, instâncias de governança público-privada e um Plano Nacional Decenal para orientar o desenvolvimento dos eventos até 2040.

O PL nº 1.905/2026 busca enfrentar justamente a pergunta que dá título a este artigo, criando as bases para que os eventos deixem de ocupar uma posição periférica nas políticas públicas e passem a integrar, de forma estruturada, a estratégia de desenvolvimento do país. O futuro exige previsibilidade regulatória, segurança jurídica, planejamento de longo prazo e reconhecimento institucional compatível com a relevância econômica e social dos eventos.

Essa agenda não interessa apenas às empresas do setor, mas também aos municípios que desejam atrair investimentos, aos estados que buscam fortalecer suas economias e ao país que pretende ampliar sua competitividade internacional.

O Brasil já possui um setor de eventos maduro, inovador e altamente profissionalizado. O que ainda precisa amadurecer é o reconhecimento institucional de sua relevância estratégica. A boa notícia é que esse movimento está em curso. O avanço das entidades representativas, a ampliação do diálogo institucional e iniciativas como o III Dimensionamento do Setor de Eventos demonstram que o segmento tem construído, cada vez mais, os fundamentos necessários para ocupar o espaço que sua relevância econômica justifica.

O desafio agora é transformar reconhecimento em institucionalidade, pois eventos não são apenas acontecimentos, mas plataformas de desenvolvimento econômico e geração de oportunidades".

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