Gestão de viagens ainda deixa mobilidade fora do radar; leia em artigo
Carolina Gaete, diretora Comercial e de Parcerias Globais da Voetur, debate sobre este custo invisível

A mobilidade urbana ainda ocupa um espaço secundário dentro da gestão de viagens corporativas, mas esse cenário tende a mudar. Enquanto empresas investem cada vez mais em tecnologia para controlar reservas, despesas e políticas de viagens, uma etapa importante da jornada do viajante continua acontecendo fora do radar: os deslocamentos terrestres.
Em artigo, a diretora Comercial e de Parcerias Globais da Voetur Viagens, Carolina Gaete, analisa dados de uma pesquisa da GBTA que apontam os impactos da falta de integração da mobilidade urbana nos programas corporativos. A executiva aborda temas como segurança, compliance, gestão de despesas, experiência do viajante e o papel da tecnologia para ampliar a visibilidade sobre toda a jornada.
Leia a seguir.
"A transformação digital trouxe avanços importantes para a gestão de viagens corporativas. Hoje, empresas contam com plataformas de reservas, automação de despesas, ferramentas de monitoramento e recursos de inteligência artificial para ampliar o controle sobre custos e operações. Mas, apesar dessa evolução, uma parte significativa da jornada do viajante continua ocorrendo longe dos sistemas e das políticas corporativas.
O alerta vem de uma pesquisa divulgada pela Global Business Travel Association (GBTA) em parceria com a Grab. O levantamento, realizado com 1,2 mil viajantes corporativos do Sudeste Asiático, mostrou que 83% utilizam transporte terrestre fora da política da empresa ou de fornecedores aprovados. Ao mesmo tempo, 95% recorrem a aplicativos de mobilidade, enquanto apenas 58% afirmam contar com algum tipo de gestão corporativa formal para esses deslocamentos.
Embora o estudo tenha sido conduzido em mercados asiáticos, a própria GBTA aponta que o comportamento observado pode ser replicado em regiões com forte presença de aplicativos de transporte, como a América Latina e o Brasil.
Existe hoje uma falsa sensação de controle nas viagens corporativas. Muitas empresas acreditam que têm total visibilidade da jornada porque monitoram passagens aéreas, hospedagem ou até prestação de contas. Mas, na prática, uma parte relevante da experiência do viajante acontece fora desses controles, especialmente nos deslocamentos urbanos. É justamente nesse trecho que surgem desafios relacionados à segurança, compliance, gestão de despesas e experiência do colaborador.
A percepção ganha ainda mais relevância diante dos impactos que a mobilidade tem sobre a rotina dos profissionais em deslocamento. Segundo a pesquisa, 32% dos entrevistados apontam a navegação em locais desconhecidos como o principal fator de estresse durante viagens corporativas. Além disso, 44% associam os trajetos terrestres a emoções negativas, como pressa, insegurança ou incerteza.
A segurança também aparece como prioridade. Três em cada quatro viajantes consideram esse fator decisivo na escolha do serviço utilizado. Entre os recursos mais valorizados estão a verificação de motoristas, ferramentas de suporte em emergências e o compartilhamento do trajeto em tempo real.
Esses indicadores mostram que o debate sobre gestão de viagens precisa ir além da negociação de tarifas aéreas e contratos de hospedagem.

Durante muitos anos, a discussão sobre gestão de viagens corporativas esteve concentrada em negociar tarifas e controlar acordos. Hoje, a conversa é mais ampla. As empresas precisam entender toda a jornada do viajante. Quando o colaborador sai de sua casa, embarca e desembarca, ele continua representando a organização e continua exposto a riscos operacionais, de segurança e até de produtividade. A mobilidade corporativa precisa deixar de ser vista como um detalhe logístico para ocupar um papel estratégico dentro dos programas de viagem.
Outro dado que chama atenção é o impacto operacional e financeiro da falta de integração. Quase metade dos viajantes entrevistados afirma gastar mais de 20 minutos por deslocamento apenas para registrar despesas relacionadas ao transporte terrestre. Além disso, 57% admitem adiar esse processo, aumentando o risco de inconsistências, atrasos e perda de visibilidade sobre os gastos.
O cenário se torna ainda mais relevante em um momento em que a indústria global de viagens corporativas acelera investimentos em tecnologia. Dados recentes da própria GBTA mostram que 92% dos gestores de viagens desejam utilizar recursos de inteligência artificial para análises preditivas e gestão mais eficiente dos programas corporativos.
O desafio não está apenas na adoção de novas tecnologias, mas na capacidade de conectar todas as etapas da jornada.
É curioso observar que o setor discute inteligência artificial, automação e hiperpersonalização, mas ainda convive com processos hiper fragmentados justamente em uma das etapas mais frequentes da viagem. O desafio não é apenas tecnológico. Trata-se de integrar informações, dar mais previsibilidade ao viajante e oferecer às empresas uma visão completa da jornada para que decisões sejam tomadas com base em dados e não em percepções.
À medida que as empresas buscam equilibrar eficiência, experiência do colaborador, segurança e conformidade, a mobilidade urbana tende a ganhar protagonismo nas estratégias de viagens corporativas. O que antes era tratado como uma etapa operacional passa a ser visto como um componente essencial para garantir controle, produtividade e proteção ao viajante em movimento"