Fórum PANROTAS: Azul, Gol e Latam destacam desafios e ganhos do processo de Chapter 11
Azul, Gol e Latam entraram em reestruturação financeira e já deixaram o processo de Chapter 11 nos EUA

O Fórum PANROTAS é o único evento do Brasil que consegue reunir, sempre no mesmo palco, os CEOs das três maiores companhias aéreas do Brasil. Neste ano, claro, não seria diferente. O jornalista Willian Waack recebeu John Rodgerson, CEO da Azul, Celso Ferrer, CEO da Gol, e Jerome Cadier, CEO da Latam, no famoso painel das aéreas, nesta quarta-feira (4), que encerra a programação do evento.
Um dos assuntos mais pertinentes do bate-papo de hoje, claro, foi o processo de reestruturação financeira sob o Chapter 11, o qual as três companhias entraram, lutaram e saíram com êxito, cada uma no seu tempo, com todas as suas vantagens e benefícios que destrinchamos no Portal PANROTAS ao longo dos anos.
A Latam Brasil deixou o Chapter 11 em novembro de 2022, com a vantagem de ter sido a primeira brasileira neste processo, Hoje, lidera com folga o mercado doméstico e internaconal. A Gol, por sua vez, foi a segunda a passar pelo processo e deixou o Chapter 11 em junho de 2025 cheia de planos para malha aérea e sendo a segunda empresa brasileira em share. Por fim, a Azul, que deixou o processo agora em fevereiro em apenas nove meses (tempo recorde), com muito mais liquidez, redução de dívida e pronta para um novo futuro.
Mas e agora? Para onde as companhias aéreas brasileiras irão?
Azul

O CEO da Azul, John Rodgerson, afirmou que a companhia aérea sai do Chapter 11 muito mais fortalecida e com um plano financeiro mais sustentável para enfrentar a volatilidade do setor. Segundo ele, o processo permitiu uma redução significativa do endividamento, com corte de dois terços das despesas com juros e renegociação de um terço dos contratos de leasing de aeronaves.
“Eliminamos riscos do nosso plano de reestruturação em uma indústria em que o planejamento é feito com até uma década de antecedência. E digo aqui que decisões tomadas em cenários cambiais muito diferentes impactam diretamente o resultado do setor. Tanto é que encomendamos aeronaves quando o dólar estava próximo de R$ 2 e recebemos as mesmas aeronaves quando a moeda já está acima de R$ 6"
John Rodgerson, CEO da Azul
Rodgerson ressaltou que, além da desalavancagem, a companhia trouxe novos sócios e fortaleceu alianças estratégicas com a American Airlines e a United Airlines, algo já divulgado pelo Portal PANROTAS, o que amplia a capacidade de enfrentar oscilações de demanda, custos e oferta de aeronaves.
Para o CEO, o timing do Chapter 11 foi decisivo para Azul. "Entramos num momento adequado e concluímos o processo em nove meses, período que considero eficiente diante da complexidade da reestruturação. Porque pensamos: 'se a gente vai entrar, vamos fazer tudo certo', afirmou o CEO da Azul, ao enfatizar que o objetivo foi proteger os ativos e garantir que a Azul saísse “a mais forte possível”.
Rodgerson reconheceu ainda que, se o processo tivesse se estendido por mais um mês, o cenário poderia ter sido diferente "devido à alta repentina dos juros e ao impacto do conflito no Oriente Médio, fatores que alteram rapidamente o ambiente financeiro para o setor aéreo", destacou.
Gol

O CEO da Gol Linhas Aéreas, Celso Ferrer, afirmou que o período de reestruturação das grandes companhias aéreas brasileiras trouxe lições importantes para o setor. Em tom descontraído, disse que ele e John Rodgerson “tiveram inveja do Jerome por um bom tempo”, em referência ao fato de que a Latam Brasil iniciou e concluiu antes seu processo de Chapter 11.
"Mas o mais importante do que o timing, foi a reflexão interna que fizemos sobre erros do passado e ajustes necessários para garantir sustentabilidade no longo prazo. As três grandes companhias que atuam hoje no mercado doméstico passaram por transformações profundas e saíram mais preparadas para um ambiente competitivo mais racional. E nada mudou no sentido de que o mercado continua desafiador, mas as empresas sim mudaram"
Celso Ferrer, CEO da Gol
Ferrer também chamou atenção para as novas barreiras de entrada no setor. De acordo com ele, a limitação de capacidade aeroportuária e os gargalos no supply chain global, especialmente na indústria aeronáutica, criaram um controle natural da oferta.
"Hoje, quem quiser encomendar aeronaves novas da Boeing ou da Embraer dificilmente consegue slots de entrega antes de 2032. Esse cenário traz maior resiliência à indústria aérea, ao restringir expansões aceleradas e favorecer um crescimento mais equilibrado entre oferta e demanda", revelou o executivo.
Latam

O CEO da Latam Brasil, Jerome Cadier, por sua vez, classificou o Chapter 11 como “a pior experiência” que um executivo pode enfrentar. Ao comentar o processo de reestruturação, Cadier lembrou também que tanto ele quanto John Rodgerson, da Azul, e Celso Ferrer, da Gol, passaram pela situação em momentos diferentes.
"E hoje estamos crescendo de maneira rentável e de forma absolutamente responsável, sempre em função do que o mercado absorve ou não. É claro que depois de passarmos pelo processo de Chapter 11, acabamos ficando mais cautelosos em nos comprometermos com taxas de crescimento no mercado. É realmente um processo horrível, mas saimos mais cautelosos, racionais e saudáveis"
Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil
Cadier reconheceu que, uma vez dentro do Chapter 11, é preciso focar em sair da melhor forma possível. De acordo com ele, o período exigiu decisões difíceis e uma revisão profunda de compromissos financeiros e operacionais. "A companhia buscou ajustar sua estrutura de custos e rever planos de crescimento para alinhar oferta e demanda de forma mais equilibrada. Enquanto você está lá (no processo de Chapter 11), é preciso fazer tudo que é possível para sair da melhor forma”, afirmou.