Reforma tributária pode cortar 25 mi de viagens e reduzir PIB do Turismo em R$ 43 bilhões
Alta estima queda de 21% nas viagens domésticas e alerta para impactos sobre conectividade nacional

Não é de hoje que entidades e companhias aéreas alertam para a chegada da Reforma Tributária, instituída pela Lei Complementar 214/2025, que pode provocar um aumento relevante no preço das passagens aéreas no Brasil e, consequentemente, reduzir a demanda pelo transporte aéreo.
Os revezes que serão criados para o setor fazem parte de um novo estudo da Associação Latino-Americana e do Caribe de Transporte Aéreo (Alta), que analisou possíveis efeitos da aplicação da CBS e do IBS sobre o setor.
Segundo a entidade, a carga tributária setorial efetiva considerada para as passagens domésticas passa de uma referência de 9% antes da reforma para uma alíquota de referência de 26,5% de CBS/IBS.
Com isso, o estudo estima um aumento de 16,1% no nível final das tarifas domésticas. Para passagens internacionais de ida e volta vendidas no Brasil, o impacto modelado é de 13,25% no preço final.
A elevação das tarifas teria reflexos diretos sobre o volume de passageiros. Neste caso, a Alta estima uma redução de 21,1% na demanda doméstica e de 17,8% na demanda internacional. Em termos absolutos, isso representaria cerca de 20 milhões de viagens de passageiros domésticos e 5 milhões de viagens internacionais a menos por ano, dentro do cenário analisado.

Situação financeira das aéreas
Outro ponto de atenção é a situação financeira das companhias aéreas brasileiras. Entre 2015 e o terceiro trimestre de 2025, as empresas do setor acumularam R$ 55 bilhões em prejuízos líquidos, segundo a análise da Alta. A entidade argumenta que esse histórico demonstra a capacidade limitada das companhias de absorver custos estruturais adicionais.
Na avaliação da Alta, uma eventual queda da demanda poderia desencadear uma sequência de efeitos sobre o mercado: preços mais altos, menos viagens, redução do fator de ocupação, ajustes de capacidade e, por consequência, desaceleração da expansão da malha aérea. O resultado potencial seria uma redução da conectividade.
O alerta ganha peso diante do desempenho brasileiro na última década. Embora a conectividade tenha avançado, o número de viagens aéreas per capita permaneceu praticamente estável entre 2014 e 2024, enquanto outros países da região registraram crescimento. No mesmo período, as rotas domésticas cresceram 129% e as internacionais, 133%, segundo os dados apresentados no estudo.

Impacto também chega ao Turismo como um todo
Para a Alta, os efeitos de uma menor demanda aérea vão afetar a cadeia turística inteira. O transporte aéreo viabiliza cerca de US$ 22 bilhões em gastos de Turismo doméstico, enquanto aproximadamente dois em cada três visitantes internacionais chegam ao Brasil por via aérea.
A partir de uma simulação que combina os impactos sobre o Turismo doméstico e internacional, a entidade estima que o cenário tributário poderia resultar em R$ 43,2 bilhões (cerca de US$ 7,7 bilhões) a menos no PIB de Viagens e Turismo em 2036. O cálculo considera os gastos turísticos associados ao volume de viagens aéreas potencialmente afetado pela reforma.
O efeito também apareceria no mercado de trabalho. Segundo o estudo, o cenário modelado poderia representar aproximadamente 360 mil empregos relacionados ao turismo a menos em 2036. Esse número equivale a cerca de 24% dos 1,51 milhão de empregos adicionais que o WTTC projeta para o Turismo brasileiro entre 2026 e 2036 no cenário-base utilizado pela análise.