Artur Luiz Andrade   |   30/06/2026 15:54

Conheça a estratégia da Suíça para o mercado de viagens de luxo; Brasil faz parte dela

Pascal Prinz e Mara Pessoa conversaram com a PANROTAS durante a STM Luxury, em Crans-Montana

Considerado um destino caro e conhecido pela alta qualidade da hotelaria e pelos serviços impecáveis, há de se imaginar que tudo é Turismo de luxo no país. Mas não é bem assim. Há opções para todos os bolsos e experiências que não custam nada, como apreciar e nadar nos lagos no verão, ou sentir a neve no rosto no inverno, entre uma esquiada ou outra (é...aqui as coisa já começam a encarecer).

Pensando especificamente no mercado de luxo, o Switzerland Tourism decidiu apostar em uma divisão exclusiva para esse segmento, sob os cuidados de Pascal Prinz. Além disso, definiu os pilares do Luxo Silencioso que quer oferecer aos visitantes (leia aqui nossa entrevista com Martins Nydegger, CEO do Turismo da Suíça) e criou um evento exclusivo para operadores e agentes de viagens de luxo, o STM Luxury, que ocorreu em meados de junho, em Crans-Montana, nos Alpes Suíços.

Durante o evento, Pascal Prinz e Mara Pessoa, gerente no Brasil, conversaram com a PANROTAS sobre a estratégia para o mercado de viagens de luxo.

  • E confirmaram que a segunda edição do STM Luxury já tem data marcada, de 22 a 24 de março, em St. Moritz, ainda na temporada de inverno.
  • E a Suíça ainda realizará o STM global, em setembro, em Zurique, e que agora ocorre a cada dois anos,
  • e um evento somente para brasileiros, em junho, em St. Gallen, região de origem da família de Roger Federer. A expectativa é levar cerca de 40 operadores e agentes de viagens brasileiros.
PANROTAS / Artur Luiz Andrade
Pascal Prinz, diretor de Luxo no Turismo da Suíça
Pascal Prinz, diretor de Luxo no Turismo da Suíça

PANROTAS – Por que criar uma unidade ou departamento dedicado ao luxo, se a Suíça já é um destino premium? O luxo está em toda parte por aqui.

PASCAL PRINZ – Os estudos globais mostram que o mercado de luxo deve dobrar de tamanho nos próximos dez anos. Estamos convencidos de que temos o produto certo e, por isso, queremos crescer nesse mercado. Acreditamos que esse é um crescimento de alta qualidade e de alto valor. Não se trata apenas de volume, mas de gerar mais valor.

E há um terceiro motivo: foi assim que o Turismo na Suíça começou, com os hotéis de luxo. A rainha da Inglaterra ou o rei da Baviera vinham para a Suíça. Eles se hospedavam, por exemplo, em Lausanne, no Beau-Rivage Palace. Foi também nessa época que surgiram escolas de hotelaria, como a École Hôtelière de Lausanne. Temos muito orgulho dessa herança e queremos mostrá-la ao mundo — e, claro, também aos brasileiros.

PANROTAS – Você citou a hotelaria de luxo, que continua sendo o núcleo das viagens de alto padrão. Mias as experiências estão ganhando cada vez mais importância. As pessoas buscam experiências. Como a Suíça se encaixa nesse anseio dos viajantes de luxo?

PASCAL – Além do crescimento em um mercado estratégico de alto valor, nosso principal objetivo é consolidar a Suíça como um único destino de luxo. Os hotéis já entendem perfeitamente o que é luxo. Eles não precisam que expliquemos isso. O foco agora está nas experiências.

Por isso investimos muito em treinamento e capacitação dos fornecedores suíços, mostrando como atender um hóspede de luxo vindo do Brasil, de Londres ou de Cingapura.

Vou dar um exemplo. O Legends of Lake Lucerne é um cruzeiro pelo Lago Lucerna. É um novo cruzeiro gastronômico de alta gastronomia, no qual os passageiros desfrutam de um menu degustação com sete etapas. O capitão usa um uniforme histórico durante toda a viagem. Foi lançado no ano passado. Esse é um excelente exemplo de uma nova experiência de luxo.

O que queremos é que os hóspedes tenham uma ótima estadia nos hotéis de luxo, mas que, ao saírem deles, encontrem atividades e experiências pensadas especialmente para esse público.

Outro exemplo é a nova torre do Monte Titlis, projetada pelos renomados arquitetos suíços Herzog & de Meuron, de Basileia. Eles construíram uma nova torre com restaurante, loja da Rolex e outras atrações.

O luxo também pode significar algo muito mais simples. Você pode se hospedar no Six Senses e fazer um piquenique organizado pelo hotel, com queijos locais, vinhos suíços, um guia especializado que adapta a caminhada ao seu ritmo.

Se você estiver disposto a caminhar bastante naquele dia, o roteiro será mais longo. Caso contrário, será um passeio curto, com uma linda toalha de piquenique, produtos de alta qualidade e tudo cuidadosamente preparado. Isso também é luxo na Suíça. Nem sempre o luxo precisa ser algo extravagante. À maneira suíça, luxo significa oferecer acesso privilegiado à natureza, com qualidade e autenticidade.

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Six Senses Crans-Montana
Six Senses Crans-Montana

PANROTAS – Vocês irão trabalhar com nichos específicos? Gastronomia, claro. Esportes, por causa do esqui. Há outros pilares que pretendem desenvolver?

PASCAL – Sim. Estou convencido de que a longevidade será um enorme mercado e uma grande oportunidade para a Suíça. As pessoas não querem envelhecer. Querem permanecer jovens. Querem emagrecer. Querem cuidar do corpo. Em resumo, buscam bem-estar.

E acredito que a Suíça reúne todos os ingredientes para isso: alimentos locais de altíssima qualidade, excelentes hotéis e uma infraestrutura preparada para oferecer esse tipo de experiência. As pessoas podem vir para a Suíça justamente para cuidar da saúde e viver mais. Tenho muita convicção de que esse será um mercado enorme.

Por exemplo, em Gstaad ou em Bad Ragaz, vocês verão que não se trata apenas de spas ou bem-estar. É possível fazer tratamentos especializados, exames e diversos programas voltados à saúde e à longevidade.

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Águas termais em Bad Ragaz
Águas termais em Bad Ragaz

PANROTAS – Como foi a seleção de convidados para o STM Luxury e qual a avaliação da iniciativa?

PASCAL – Fomos bastante rigorosos. Os compradores vieram de mercados de luxo como Brasil, América do Norte, Europa, Oriente Médio e Ásia-Pacífico. Metade deles foi indicada pelos próprios hotéis Swiss Deluxe (que somam 56 em todo o país). Perguntamos aos hotéis: "Quem são os seus melhores compradores?" Eles nos recomendaram esses profissionais.

A outra metade foi convidada pela Mara Pessoa (caso do Brasil) e pelas equipes da América do Norte e dos demais mercados.

Os critérios eram claros: não bastava ser um operador de Turismo interessado em visitar a Suíça para conhecer novidades. Precisavam ser consultores especializados em viagens de luxo. Eles já trabalham com a Suíça em seus portfólios ou têm interesse concreto em vender o destino. Além disso, tiveram que apresentar referências de hotéis que já haviam reservado para seus clientes. Fomos muito mais criteriosos do que em outros eventos.

PANROTAS – E quanto aos fornecedores?

PASCAL – O mesmo critério. Uma das minhas tarefas foi justamente explicar por que alguns poderiam participar e outros não. Houve muito mais interesse por parte dos fornecedores do que vagas disponíveis. Criamos uma categoria chamada Diamond Partners. Destinos que possuem produtos de luxo e que investem junto ao Turismo da Suíça têm prioridade. Por exemplo, Gstaad, Zurique e Genebra. Depois, cada destino convida seus melhores hotéis para participar.

PANROTAS – Esta é a primeira edição?

PASCAL – Já realizamos um evento de luxo antes, mas este é o primeiro dentro desse novo modelo. Acho que agora elevamos o projeto para outro nível. Hoje temos uma estratégia global, critérios bem definidos e uma visão clara. Antes também trabalhávamos com luxo, mas cada pessoa tinha uma interpretação diferente do que significava luxo. Ainda não existia esse conceito de "luxo silencioso", sustentado pelos nossos três pilares. Agora temos uma base muito sólida para promover a Suíça.

Leia aqui sobre os pilares do luxo silencioso da Suíça

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Mara Pessoa, gerente do Turismo da Suíça no Brasil
Mara Pessoa, gerente do Turismo da Suíça no Brasil

PANROTAS – O mercado de luxo no Brasil está crescendo muito. Vocês têm números ou percebem isso pelo que dizem operadores e agentes de viagens?

MARA PESSOA – Nossos números mostram esse crescimento de forma muito clara. Comparado a 2019, antes da pandemia, registramos um crescimento superior a 400%. E acredito que grande parte desse resultado venha justamente do segmento de luxo.

Nossa estratégia no Brasil é totalmente voltada para esse mercado. Todas as nossas ações de marketing e de relacionamento com o trade têm foco no luxo. Por isso, acredito que esse crescimento seja uma consequência direta dessa estratégia. Também percebemos uma evolução muito positiva entre os agentes de viagens. Hoje eles não apenas recebem pedidos para a Suíça. Eles oferecem a Suíça de forma proativa.

Todos os anos eles participam dos nossos eventos e das viagens de familiarização que organizamos. Em termos de capacitação, acreditamos que o mercado brasileiro já conhece muito bem nossos produtos. Os profissionais construíram um excelente portfólio voltado para a Suíça.

PANROTAS – E vocês disseram que os brasileiros gastam mais, confere?

MARA – Os brasileiros estão entre os turistas que mais gastam na Suíça. Posso dar um exemplo. Na última temporada de inverno, em St. Moritz, o Brasil foi o segundo mercado com maior gasto médio por visitante. Os brasileiros ficam mais tempo no país e gastam mais. Não é apenas uma questão de quantidade de visitantes, mas da qualidade do viajante que chega à Suíça.

PANROTAS – E qual é o impacto do Turismo de luxo na Suíça?

PASCAL – É um Turismo de alto valor. É o típico caso em que menos é mais. Na Suíça, cerca de 8% das pernoites ocorrem em hotéis cinco estrelas, mas esse segmento responde por 25% de toda a receita do Turismo. Esse é um mercado extraordinário. Além disso, ele exerce muito menos pressão sobre nossa infraestrutura. Talvez recebamos um pouco menos de visitantes, mas eles deixam um retorno econômico muito maior para o país.

PANROTAS / Artur Luiz Andrade
Primeira edição do STM Luxury ocorreu no Six Senses Crans-Montana
Primeira edição do STM Luxury ocorreu no Six Senses Crans-Montana

PANROTAS – O viajante de luxo tem fugido das altas temperaturas e do overtourism. A Suíça vive esses problemas?

PASCAL – Não muito. Existem algumas regiões que ficam bastante movimentadas durante algumas semanas do verão. Como Interlaken e Lucerna. Mas acredito que o mercado de luxo também nos ajuda a evitar esse problema. Nosso objetivo não é simplesmente crescer e trazer mais visitantes a qualquer custo. Queremos crescer com qualidade.

Por isso, damos grande ênfase aos mercados de longa distância, como Brasil, Estados Unidos, México, China e Índia. Quando buscamos novos visitantes nesses países, nosso foco está no público de maior poder aquisitivo.

Nossa vantagem é que temos credibilidade e também o produto certo para isso. Segurança. Precisão. Profissionais altamente qualificados. Toda essa tradição suíça.

Para mim, pessoalmente, é muito gratificante perceber que cada vez mais fornecedores suíços estão incorporando essa visão. Hoje eles me procuram dizendo: "Pascal, estamos desenvolvendo um novo trem." "Estamos criando um novo cruzeiro de luxo." "Agora será possível privatizar a parte da frente de um barco." Essas não são ideias que partem do Turismo da Suíça. São iniciativas dos próprios parceiros. Isso mostra que eles realmente abraçaram essa estratégia.

E talvez a última coisa que eu gostaria de dizer sobre luxo... Não é algo que se constrói rapidamente. Alguém me disse uma vez que o luxo é construído tijolo por tijolo. Não existe atalho. Você nunca terá sucesso no mercado de luxo simplesmente aparecendo de um dia para o outro e dizendo: "Agora também somos luxo." Ou "Aumentamos os preços." "Deixamos tudo mais sofisticado." Não funciona assim. Quem aperfeiçoou isso ao longo de 150 anos sabe exatamente o que está fazendo. Veja o exemplo dos hotéis.

O Baur au Lac, em Zurique, continua pertencendo à mesma família, hoje na oitava geração. Esses hotéis representam verdadeiramente a tradição da hotelaria suíça.

A PANROTAS viajou a convite do STM – Switzerland Travel Mart Luxury Edition, Swiss Air Lines e Guarda Golf Hotel, com proteção GTA



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Sobre o autor

Artur Luiz Andrade é editor-chefe da PANROTAS, jornalista formado pela UFRJ e especializado em Turismo há mais de 30 anos.