Conflito na Rússia e na Ucrânia começa a impactar Turismo no Brasil

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Amparo Garcia - Adobe Stock
A ofensiva da Rússia contra a Ucrânia tem efeitos globais em termos políticos, econômicos, humanitários e impacta o mundo de incontáveis maneiras. No Turismo, guerras são sempre perturbadoras e geram sequelas custosas e duradouras. Oito dias depois da invasão russa ao território ucraniano, algumas angústias já começam a ser sentidas pelo mercado brasileiro. A Rússia não é necessariamente um destino internacional de topo no desejo de consumo do nosso viajante, mas é um país de magnitude geopolítica grande o suficiente para que os efeitos causem sequelas nos negócios da aviação, de agências de viagens, operadoras e demais segmentos.

O CEO da Latam Airlines Brasil, Jerome Cadier, acredita que os principais impactos causados na aviação em um primeiro momento são tarifas de combustível e câmbio, mercado de capitais e disponibilidade de crédito e no preço e disponibilidade de commodities relevantes para a indústria, como titânio, necessário para a fabricação de aviões.

"Pelas primeiras reações, o impacto nos custos das companhias aéreas é inegável. Infelizmente na situação que está o setor, estes aumentos vão impactar os preços das passagens. É uma pena, especialmente em um momento no qual o que mais queremos é voltar a voar", lamenta Cadier. "Além disto, precisamos utilizar a flexibilidade para replanejar o que adquirimos durante a crise. Aquele horizonte de longo prazo não existe mais. Temos que reagir rápido no curto prazo e ajustar a oferta em função destes custos."

PANROTAS/Gute Garbelotto
Jerome Cadier, da Latam
Jerome Cadier, da Latam
Devido às condições climáticas, a temporada de viagens "praticável" à Rússia começa em maio e se estende até setembro, portanto repatriar turistas brasileiros do país não foi exatamente um desafio neste fim de fevereiro e começo de março. Todavia, por razões de insegurança, incertezas da duração do conflito, bloqueios aéreos e consequente falta de voos, é quase certo dizer que férias nos destinos russos são agora uma realidade distante. Em 2022, "nem pensar". Acontece que uma guerra no leste europeu preocupa turistas com pacotes comprados para países do continente, mesmo os ausentes do conflito.

OPERADORAS
A Flot é uma das operadoras brasileiras com tradição na venda de leste europeu. O presidente da empresa, Eduardo Barbosa, conta que, finalmente, com uma melhoria nos índices da pandemia, a Flot preparava uma campanha robusta para vender a região na alta temporada. "Obviamente, não faz sentido lançar promoção neste momento", queixa o empresário. Ele ainda conta que a Flot está auxiliando uma agência com a viagem do Transiberiano, de Moscou a Pequim, no primeiro semestre. "Todos os fornecedores já cancelaram, e não estamos mais otimistas em relação a uma outra data para este ano."

PANROTAS / Emerson Souza
Eduardo Barbosa, da Flot
Eduardo Barbosa, da Flot
Depois de um famtour em 2019 para a República Tcheca, a Flot sentiu uma alta de vendas ao país que pertenceu à União Soviética, mas a pandemia já havia freado os embarques ao destino. "Há poucas vendas confirmadas para o início de temporada à República Tcheca, e os clientes ainda estão aguardando o desenrolar da situação. Todos estão ligando às agências para saber se cancelam e nossa orientação é que estamos monitorando e vamos orientar caso haja riscos. Nosso papel é de ficar sempre em contato com os fornecedores locais. Supostamente a guerra não avançou, mas ainda é começo, o ambiente é incerto e provavelmente haverá um desconforto em viajar para lá, também devido ao número de refugiados", explica Eduardo Barbosa.

O operador ainda conta que, pelas questões da pandemia, o viajante brasileiro ainda tem a prerrogativa da MP dos Reembolsos para poder, até o fim de 2023, reitinerar ou ser ressarcido. O equilíbrio da balança está nas notícias positivas como a recente reabertura da Itália e outros destinos europeus como alternativa de viagem internacional. "Lá atrás, quando França, Portugal e Espanha abriram, o volume de procuras disparou imediatamente na Flot, e isso está acontecendo agora com a Itália", conclui.

A BWT Operadora anunciou a suspensão da comercialização de pacotes de viagens para a Rússia, por tempo indeterminado. As opções para destinos como Moscou e São Petersburgo deixam de fazer parte do portfólio da operadora como medida de apoio à paz e respeito aos direitos humanos. Com a suspensão anunciada, todos os passageiros com pacotes comprados pela BWT terão crédito integral dos valores pagos e pronto atendimento para que não haja nenhum tipo de prejuízo.

AGÊNCIAS DE VIAGENS
Em relação a viagens para outros destinos europeus, o agente de viagens carioca Mario Salles encara com cautela a ligação dos clientes que têm viagens fechadas para Roma, Londres, Paris, Madri e demais destinos. "Tem gente a fim de cancelar o que comprou, ainda que o embarque seja para setembro. Minha orientação é no sentido de que a guerra por enquanto está restrita ao leste europeu, ainda sem reflexos que possam atrapalhar suas experiências em outros locais. Se essa guerra se estender, como infelizmente há sinais de que pode acontecer, estaremos atentos e seremos os primeiros a dizer para que não viajem", afirma, cobrando posicionamento mais firme de entidades responsáveis pelo setor.

"Associações e entidades têm de cobrar do Ministério do Turismo um posicionamento sobre o que deve ser feito em uma situação dessas. Não podemos deixar passar batido. Não me venha dizer que não há impacto na vida do agente de viagens. Um comunicado sólido de um ministério orienta trade e passageiro sobre como agir nesses momentos", afirma Salles.

Thalita Bruck, da Inova Viagens e Turismo, de Santa Catarina, conta que tem um grupo embarcando dia 22 para a Turquia. "O fornecedor garantiu que a guerra não afetará o país diretamente. Talvez economicamente, mas nada que impeça viagens ou afete a experiência dos viajantes", relata.

A diretora executiva da Braztoa, Mônica Samia, afirma que, principalmente devido à relativa distância para o início da temporada, o momento das operadoras é de compasso de espera, de análise, sem movimentos bruscos em relação a vendas internacionais. "As operadoras estão aguardando para tomar decisões. Porém, já é possível dizer que com as sanções econômicas e comerciais e a exclusão da Rússia do sistema internacional de pagamentos Swift, é bem capaz de as vendas para o destinos serem suspensas, pois nenhuma empresa terá como enviar remessas de pagamento de serviço ao país."

GUIAS DE TURISMO NA RÚSSIA
O Portal PANROTAS conversou com um guia de Turismo diretamente de Moscou. O russo, que pediu para não ser identificado, estava notadamente abalado durante a entrevista. A grande maioria das perguntas feita pela reportagem teve resposta recusada.

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Moscou é o principal destino da Rússia
Moscou é o principal destino da Rússia
"Meus problemas e os problemas dos meus colegas de profissão não podem ser comparados com o das pessoas na Ucrânia, por isso prefiro nem falar que estou sofrendo profissionalmente. Existem coisas mil vezes piores sendo sofridas pelos ucranianos. Comparando com as pessoas de lá, eu simplesmente não tenho problemas. O que é passar uma temporada sem atuar como guia quando há civis que não têm para onde ir e estão vendo suas cidades, seus lares sendo massacrados?", replica o guia, com bom português.

O profissional também conta que, como o Turismo na Rússia é sazonal, guias como ele normalmente têm outras atividades, geralmente relacionadas ao idioma (como intérpretes e tradutores), durante os meses do ano de movimento baixo. "Espero que daqui um tempo eu possa praticar meu português novamente. Passei muito tempo longe disso devido à pandemia e não sei quanto tempo esses conflitos vão demorar."

EMISSIVO DE OUTROS PAÍSES
Diretamente de Paris, a diretora do receptivo Hola Tour, Silvia Helena, diz que a pandemia segue impactando seus negócios, mas que consequências diretas da guerra, como a queda do emissivo russo e asiático, além de indiretas, como o preço do combustível, também preocupam.

PANROTAS / Emerson Souza
Silvia Helena, da Hola Tour
Silvia Helena, da Hola Tour
"Ainda estamos funcionando com 10% do volume habitual, desde a retomada. Estamos atendendo sobretudo clientes de alta renda. Aqui na França estamos preocupados com o aumento da gasolina, possibilidade de corte de internet devido ao rompimento de cabos submarinos e muitas outras incertezas. Os investimentos estão parados e o mercado russo e asiático está no zero. Até ameaça de ataque nuclear já foi cogitada por Putin e mencionada nas mídias daqui", diz a diretora.

Dados da consultoria ForwardKeys dão conta de quão grande estão as taxas de cancelamentos de bilhetes aéreos para a Rússia. 773% na Alemanha, 472% na França, 152% na Itália, 254% no Reino Unido, 285% na Índia e 116% na Turquia. Esses índices foram registrados em 25 de fevereiro, um dia depois da invasão russa.

A invasão também desencadeou um colapso no mercado emissivo de viagens russas. Os destinos que sofreram as maiores taxas de cancelamento imediato, no período de 24 a 26 de fevereiro, foram Chipre (300%), Egito (234%), Turquia (153%), Reino Unido (153%), Armênia (200%) e Maldivas (165%).

OUTROS EFEITOS
O impacto da guerra também se dá em outras frentes relacionadas ao Turismo. O Conselho da OMT estuda suspensão da Rússia, a MSC Cruzeiros suspendeu suas escalas em São Petesburgo, a Fórmula 1 excluiu o Grande Prêmio do país de seu calendário e a federação europeia de futebol UEFA tirou a final da Champions League que seria sediada em território russo. Certamente mais medidas como estas acontecerão nos próximos dias.
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