Por que o Turismo em 2026 está vivendo uma dança das cadeiras sem fim?
Por que 2026 está com essa sede de mudanças? O que dirá o mapa astral do Turismo brasileiro este ano?

Nunca demos tantas notícias de movimentação de profissionais no Portal PANROTAS como em 2026, e isso desde janeiro. A cada mês, uma série de mudanças é anunciada, algumas causando um efeito dominó, outras surpreendentes e inesperadas. Parece uma onda gigantesca sem fim de mudanças. Quando o mercado vai acalmar? E por que 2026 está com essa sede de mudanças? O que dirá o mapa astral do Turismo brasileiro este ano? Não sabemos, mas há uma série de fatores que explicam esse vaivém em tamanho XLarge no nosso setor.
1. Crescimento e falta de mão de obra
Guerras, alto custo de passagens aéreas e da hotelaria, eleições, dólar nas alturas, questões políticas internacionais... Nada parece frear o desejo e a necessidade de viajar dos brasileiros. Especialmente os de renda mais alta (na classe média, sim, vemos hesitações). Com isso, as empresas precisam de mais gente especializada – por mais que a tecnologia já ajude nos gargalos operacionais básicos. E gente experiente e boa é material raro e escasso, o que leva a um aumento na movimentação de profissionais.
Dependendo do índice de crescimento de uma empresa, a necessidade de mais profissionais será bem grande e urgente, e a caça por eles no mercado tem sido intensa em 2026. Grandes empresas, como a Decolar, estão com fome de contratação, muito por conta de seu crescimento. A HotelDO, por exemplo, divulgou crescimento de 77% este ano e mesmo com alto investimento em tecnologia acaba precisando de mais colaboradores em seus novos departamentos.
Turismo é relacionamento e o olho no olho ainda é fundamental. Também em todo o Brasil e não apenas nas sedes das empresas. O crescimento do mercado tem levado muitas marcas do setor a buscar representação e presença, mesmo em home office, pelo Brasil.
2. Novos grandes projetos
O crescimento do mercado ajuda a desengavetar projetos de novos negócios ou propicia que os empreendedores do Turismo saiam em busca de boas oportunidades. Que na maioria das vezes batem à sua porta. Um bom exemplo foi o Grupo Kontik, que em um curto espaço de tempo abriu uma consolidadora, uma agência de viagens de luxo e deu um restart em sua OTA corporativa e na OTA tradicional.
Na aviação, outros exemplos foram o início dos voos internacionais com aviões de longo curso pela Gol, e o iminente início dos voos da Latam com o Embraer. Mais pilotos e comissários necessários, mas também profissionais em Vendas, Marketing e outras áreas. Tudo isso, em vários segmentos do Turismo, gera uma demanda por mais profissionais – alguns já empregados, alguns trazidos de fora. E pode parecer que não, tudo está interligado no Turismo.
3. Lideranças em movimento
Alguns líderes, voluntária ou involuntariamente, acabam mudando sua trajetória e com eles seguem times inteiros. Foi o que aconteceu com Luti Guimarães, que liderou mais de 100 profissionais da Flytour para a Sakura (e já tinha feito o mesmo da Rextur Advance para a Flytour, então qualquer tentativa de lágrima derramada não será considerada). Ou com Hugo Lagares, que acaba de ser anunciado na Orinter, depois de a CVC Corp divulgar sua saída. É natural, portanto, que alguns ex-Visual sigam com ele. Vale também a lógica dos relacionamentos no Turismo, já que Hugo, além de ser um bom nome disponível, já havia trabalhado com Ana Maria Berto, a CEO da Orinter. Turismo, repetindo, é relacionamento.
Outros líderes também se movimentam e acabam mexendo com estruturas estabelecidas e abrem-se verdadeiros clarões no mercado, forçando uma reacomodação. Fábio Mader, por exemplo, ao assumir como CEO da CVC Corp, demitiu vários diretores e também mais de 100 colaboradores. Novas lideranças significam novos nomes de confiança na estrutura. Rafaela Rezende, na Decolar, também já anunciou novos nomes, alinhados com a meta ambiciosa de crescimento para os próximos anos.
4. Trocas inesperadas
As demissões na CVC Corp foram repentinas e de repente mais de 100 colaboradores estavam disponíveis no mercado. Isso não é novidade e quando há movimentos rápidos e inesperados, a reação também pode seguir o mesmo caminho. Assim, abrem-se oportunidades para muitos. E o mercado vai se reacomodando, às vezes de maneira discreta, às vezes mais robustamente.
Mas uma saída também pode significar mudança na estrutura da empresa. Na United, a saída de Jacqueline Conrado acabou com a vaga de Country Manager. Luti Guimarães também não foi substituído na BeFly (até o momento, Sylvio Ferraz acumula as duas vice-presidências). Sylvio, inclusive, liderou a reestruturação da empresa, incluindo a mudança de sede para algumas marcas, o que pode gerar também movimentação de pessoas.
5. Concorrentes pescando
Com a falta de talentos no setor para todos (e os de fora do Turismo relutam a entrar na indústria, pois há poucas empresas com planos de carreira), os concorrentes estão sempre de olho na grama do vizinho. A bola da vez, culpa de Luti Guimarães, mas não só dele, é a consolidação. A BRT, por exemplo, pescou alguns colaboradores da Skyteam ao abrir Campinas. A Konvia foi de ex-colaboradores da Sakura, que estavam disponíveis com a ida dos ex-Flytour. Uma dança das cadeiras que parece não terminar...
Mas já foi assim também em viagens corporativas. Ou nas operadoras. No geral, o troca-troca de empresas está grande e todos os dias anunciamos pelo menos uma mudança, como a de Hugo Lagares, Mariana Azevedo, Paulo Biondo... Ou mexidas internas, como Renzo Mello no lugar de Renata Cenni, na CVC Corp, ou Fábio Campos assumindo todo o comercial na Azul Linhas Aéreas, em uma das mudanças mais inesperadas dos últimos meses. Cada peça movimentada gera outros movimentos, novos cenários, novos desenhos. E mais mexidas.
6. Novos velhos players
Os exemplos da Voll e da Decolar ajudam a explicar a dança das cadeiras sob a ótica dos gigantes em expansão. Ambas estão em uma das fases mais agressivas de crescimento e com isso vêm as contratações. São apenas dois exemplos de players que precisam da expertise dos especialistas experientes do setor.
Esses profissionais ajudam a acelerar ou queimar etapas, emprestam sua credibilidade e auxiliam na implementação de novas verticais. A HotelDO, por exemplo, agora tem uma consolidadora e um departamento de viagens corporativas. A HotelDO também está investindo em cruzeiros, setor que foi tema de uma notícia que saiu hoje no Portal PANROTAS: os sócios da Sakura criaram a Cruise Collection, com Daniel Marrocos, ex-Píer Viagens, de Brasília.
7. Funcionários insatisfeitos
Esses ficam apenas esperando a oportunidade e quando ela aparece, agarram com tudo. O clima em algumas empresas pesa e os colaboradores aguentam até onde podem. Em outros casos, a falta do tal plano de carreira traz insatisfação – e que bom que muitos não querem ficar acomodados. Alguns são seduzidos por empresas fora do Turismo. O que é também culpa do nosso setor.
A dança das cadeiras está forte e vai continuar. Competidores continuarão de olho nos colaboradores do vizinho. Novas ideias e empresas implicarão em mais contratações. A falta de mão de obra vai continuar e mudanças bombásticas vão seguir movendo as montanhas do setor. Bom para a valorização dos profissionais, ruim para a consistência da evolução da mão de obra no setor, bom para os laços entre times que se conhecem há tempos, ruim para empresas sem o capital para segurar bons colaboradores, ruim para quem aposta no humano (já que há falta deles), “bom” para quem acha que a IA substitui boa parte dos funcionários... E sabemos que não é assim. Bom ou ruim, a dança está no ar. Quando a música parar, a gente vê quem ficou sem cadeira para sentar.