Intenção de consumo das famílias recua pelo quinto mês seguido, aponta FecomercioSP
Emprego e renda ainda sustentam cenário, mas juros altos e endividamento limitam compras de maior valor

A Intenção de Consumo das Famílias (ICF), indicador mensurado mensalmente pela FecomercioSP, recuou 1,2% em agosto. O índice caiu para 110,9 pontos, registrando a quinta queda mensal consecutiva e a mais intensa da sequência iniciada em abril. Ainda assim, o indicador permaneceu acima da linha de satisfação (100 pontos) e cresceu 4,4% em comparação com o mesmo período do ano passado.
Na análise da FecomercioSP, o mercado de trabalho ainda aquecido continua sendo o principal fator de sustentação do ICF. O componente emprego atual variou apenas -0,4% no mês, para 141,3 pontos, mas avançou 6,3% em um ano e segue como o item de maior pontuação do indicador. A força do emprego ajuda a preservar a renda e a capacidade de pagamento familiar, evitando uma queda mais acentuada da intenção de consumo.
O principal sinal de cautela surge nas perspectivas para o futuro. A perspectiva profissional caiu 4,5%, no mês, e 10,5%, em um ano, ampliando a distância para o emprego atual. O resultado indica que, embora as famílias avaliem positivamente a sua situação profissional hoje, estão menos confiantes em relação a promoções, aumentos salariais e estabilidade no futuro, o que pode estimular a poupança por precaução e o adiamento de compromissos financeiros mais longos.
A renda atual recuou 1,3%, na terceira queda mensal seguida, embora ainda esteja 2,8% acima de agosto de 2025. O acesso ao crédito, por sua vez, foi o único componente a avançar no mês (0,8%), mas a melhoria na percepção de crédito disponível não significa que o custo dos financiamentos tenha diminuído.
Os resultados mostram que emprego e renda ainda funcionam como amortecedores, mas os juros altos, o endividamento e a cautela das famílias continuam limitando compras de valor mais alto.

Melhor avaliação do presente
Também avaliado pela FecomercioSP, O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) variou -0,6% em relação a julho, para 120,8 pontos, indicando que o consumidor paulistano segue relativamente confiante com o futuro, mas já começa a dar sinais de que as contas domésticas estão mais pressionadas no presente.
Ainda assim, a retração foi menor do que a queda de 2% registrada no mês anterior e manteve o indicador na zona de otimismo. Na comparação com agosto do ano passado, o avanço foi de 8%, sinalizando que a confiança permanece em nível elevado, embora com sinais de acomodação no ciclo do consumo.
Na leitura da FecomercioSP, o emprego e o alívio recente da inflação ajudaram a melhorar a percepção sobre o momento presente. Já a cautela em relação ao futuro reflete os pesos dos juros ainda altos e do maior comprometimento da renda familiar com dívidas, fatores que tornam o consumidor mais seletivo frente a compromissos de médio e longo prazos. Portanto, ele não para de consumir, mas começa a planejar melhor, comparar preços com mais frequência e adiar compras de valor mais alto.
O ICC é formado por dois subíndices, cujas leituras foram divergentes em agosto. O Índice das Condições Econômicas Atuais (ICEA), que mede como o consumidor avalia a situação econômica presente, avançou 0,5%, para 114,5 pontos, com melhoria entre famílias das duas faixas de renda, mulheres e consumidores com menos de 35 anos.
Já o Índice de Expectativas do Consumidor (IEC), que capta as perspectivas para o futuro próximo, caiu 1,3%, para 125 pontos. O resultado indica que o paulistano está mais cauteloso quanto ao futuro.
Pessimismo entre os consumidores mais velhos
A queda do ICC foi mais intensa entre consumidores com 35 anos ou mais (-3%), enquanto os mais jovens variaram 0,8% no mês, com o maior resultado entre as faixas etárias. A diferença entre os grupos aumentou de 6 para 10,6 pontos. Entre os consumidores com mais idade, a confiança está mais sustentada pelas expectativas para o futuro do que pela percepção sobre o presente, o que sugere mais sensibilidade às mudanças econômicas e uma eventual piora da renda, do emprego ou do custo de vida.
Por renda, a confiança recuou entre os lares com até dez salários mínimos (-1,2%) e avançou entre as de maior renda (0,6%). O contraste aparece principalmente na avaliação das condições atuais, indicando que, embora as famílias de menor renda mantenham expectativas relativamente favoráveis, ainda sofrem mais pressão no orçamento diante dos preços, dos juros e das despesas essenciais.
Entre os homens, o ICC caiu 1,8%, enquanto entre as mulheres variou 0,6%. Apesar de a confiança masculina continuar mais alta, a diferença entre os grupos diminuiu de forma significativa. No campo das expectativas, porém, o IEC dos homens cresceu 11,3% em um ano, maior alta entre os segmentos, sinalizando que a cautela observada em agosto ocorre mesmo com uma percepção mais positiva sobre o futuro.
A FecomercioSP observa que, apesar da piora pontual em agosto, todas as segmentações registraram alta no comparativo anual. O resultado mostra uma acomodação de curto prazo da confiança, sem caracterizar uma reversão da melhoria observada nos últimos 12 meses.