Pedro Menezes   |   27/05/2026 23:20
Atualizada em 27/05/2026 23:24

Câmara aprova PEC que prevê fim da escala 6x1; decisão preocupa setores do Turismo

Texto, que segue agora para o Senado, prevê uma transição de até 14 meses para adaptação das empresas

Bruno Spada/Câmara dos Deputados
Câmara dos Deputados aprovou PEC que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais
Câmara dos Deputados aprovou PEC que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais

A Câmara dos Deputados acaba de aprovar, na noite desta quarta-feira (27), o texto-base da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6x1 e reduz a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas, sem redução salarial, garantindo dois dias de folga por semana. A PEC foi aprovada logo em primeiro turno, com 472 votos favoráveis e apenas 22 contra.

“A redução da jornada não é vilã da produtividade. Precisamos reconhecer uma realidade: o Brasil tem uma das maiores cargas horárias do mundo e, ao mesmo tempo, convive há décadas com a estagnação da produtividade. Isso prova que ela não pode ser medida apenas pelas horas trabalhadas. Trabalhadores mais descansados produzem mais. Hoje, esta Casa afirma que proteger o tempo humano é proteger a economia, a saúde, a família e a dignidade das pessoas"

Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados do Brasil

A proposta reacende o alerta em diferentes segmentos do Turismo, especialmente na aviação, hotelaria, alimentação e serviços, como estamos acompanhando no Portal PANROTAS, que contam com grande parte dos trabalhadores na atual escala 6x1.

O texto, que segue agora para o Senado Federal, prevê uma transição de até 14 meses para adaptação das empresas. Antes do trâmite, no entanto, representantes do Turismo já alertavam para elevação dos custos operacionais e impacto nos empregos formais em setores que funcionam 24 horas por dia.

Na aviação, o debate ganhou força após o presidente da Abear, Juliano Norman, destacar possíveis impactos da mudança nas operações aéreas. Em resposta, o Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA) acusou as empresas de evitarem negociações coletivas e classificou o discurso como “alarmista”.

Alexandre Macieira/Riotur
Empresas terão que readequar carga de trabalho dos aeroviários em caso da aprovação total do fim da escala 6x1
Empresas terão que readequar carga de trabalho dos aeroviários em caso da aprovação total do fim da escala 6x1

O CEO da Latam Brasil, Jerome Cadier, já buscou separar o debate entre aeronautas e trabalhadores de solo. Segundo ele, pilotos e comissários seguem regras próprias previstas na Lei do Aeronauta e não devem ser impactados diretamente pela PEC. Para os aeroviários, porém, a empresa admite que já prepara ajustes operacionais caso a mudança avance.

Na hotelaria, entidades como Fohb, ABIH-SP e Resorts Brasil já vêm intensificando a articulação política em Brasília. O principal argumento é que hotéis, resorts, bares e restaurantes dependem de operação contínua e possuem forte intensidade de mão de obra.

Pixabay
Cerca de 70% dos trabalhadores de alojamento e alimentação atuam atualmente em jornadas superiores a 40 horas semanais
Cerca de 70% dos trabalhadores de alojamento e alimentação atuam atualmente em jornadas superiores a 40 horas semanais

O presidente executivo do Fohb, Orlando de Souza, já afirmou que o debate precisa ser conduzido com cautela e planejamento. Em artigo recente, o executivo afirmou que mudanças abruptas podem elevar custos operacionais, pressionar preços e comprometer a competitividade do setor turístico brasileiro.

Segundo dados apresentados pelas entidades hoteleiras ao Congresso, cerca de 70% dos trabalhadores de alojamento e alimentação atuam atualmente em jornadas superiores a 40 horas semanais. Nos hotéis, esse índice chegaria a 90% em todo o Brasil.

Ainda na hotelaria, a ABIH-SP já cobra medidas compensatórias caso a PEC avance. Entre as propostas defendidas pelo setor estão mecanismos de desoneração da folha e modelos alternativos de recolhimento patronal para atividades intensivas em mão de obra.

Divulgação
 FecomercioSP estima que a redução da jornada? de 44 para 40 horas pode elevar os custos da folha de pagamentos em R$ 158 bilhões
FecomercioSP estima que a redução da jornada de 44 para 40 horas pode elevar os custos da folha de pagamentos em R$ 158 bilhões

No caso de comércio e serviços, a FecomercioSP estima que a redução da jornada de 44 para 40 horas pode elevar os custos da folha de pagamentos em R$ 158 bilhões, isso em um cenário conservador. Já a Fecomércio-RJ classificou o debate no Congresso como “açodado” e defendeu que mudanças ocorram prioritariamente via negociação coletiva.

Um relatório do BTG Pactual também abordou o assunto. Segundo o banco, uma eventual redução da jornada máxima poderia elevar os custos de pessoal das empresas brasileiras, com efeitos mais fortes em setores como comércio, alojamento, restaurantes e serviços administrativos.

Simaeco/Semaco/Divulgação
Saguão do Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos foi tomado por faixas, cartazes e batuques durante um protesto que pedia o fim da escala de trabalho 6x1
Saguão do Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos foi tomado por faixas, cartazes e batuques durante um protesto que pedia o fim da escala de trabalho 6x1

O ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, é a favor das 40 horas semanais de trabalho. Segundo ele, o fim da escala 6x1 pode ampliar o movimento no setor turístico brasileiro, já que aumenta o tempo disponível para lazer e viagens entre os trabalhadores.

Na última semana, o saguão do Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos foi tomado por faixas, cartazes e batuques durante um protesto que pedia o fim da escala de trabalho 6x1. A mobilização reuniu trabalhadores e representantes sindicais, que desfilaram pelo aeroporto gritando palavras de ordem.

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Sobre o autor

Natural do Rio de Janeiro, Pedro Menezes é bacharel em Comunicação Social/Jornalismo e atua há 12 anos na imprensa especializada em Turismo. Atualmente, é editor do maior portal brasileiro voltado a profissionais do setor, com base em São Paulo. O jornalista tem experiência em cobertura nacional e internacional de feiras, congressos e eventos, além de pautas de política e economia ligadas ao Turismo.